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Title: Pau brasil
Cancioneiro de Oswald de Andrade, prefaciado por Paulo Prado, illuminado por Tarsila
Credits: Laura Natal and The Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was produced from images made available by the HathiTrust Digital Library.)
*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK PAU BRASIL ***
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Proofreaders’ 25th Anniversary.
PAU BRASIL
Do mesmo auctor
Os condemnados, romance.
Memorias Sentimentaes de João Miramar.
Em preparação:
A estrella de absyntho, romance.
Seraphim Ponte Grande.
CANCION
EIRODEO
SWALDDE
ANDRADE
PREFACI
ADOPORP
AULOPRA
DOILLUM
INADOPO
RTARSIL
A
1925
IMPRESSO PELO “SANS PAREIL”
DE PARIS
37, AVENUE KLÉBER
[Pg 5]
POESIA PAU BRASIL
A poesia «pau-brasil» é o ovo de Colombo—esse ovo, como dizia um
inventor meu amigo, em que ninguem acreditava e acabou enriquecendo o
genovez. Oswald de Andrade, numa viagem a Paris, do alto de um atelier
da Place Clichy—umbigo do mundo—descobriu, deslumbrado, a sua propria
terra. A volta á patria confirmou, no encantamento das descobertas
manuelinas, a revelação surprehendente de que o Brasil existia. Esse
facto, de que alguns já desconfiavam, abrio seus olhos á visão radiosa
de um mundo novo, inexplorado e mysterioso. Estava creada a poesia
«pau-brasil».
Já tardava essa tentativa de renovar os modos de expressão e
fontes inspiradoras do sentimento poetico brasileiro, ha mais de
um seculo soterrado sob o peso livresco das ideas de importação.
Um dos aspectos curiosos da vida intellectual do Brasil é esse da
litteratura propriamente dita, ter evoluido acompanhando de longe
os grandes movimentos[Pg 6] da arte e do pensamento europeus, emquanto a
poesia se immobilizou no thomismo dos modelos classicos e romanticos,
repetindo com enfadonha monotonia, as mesmas rimas, metaphoras,
rythmos e allegorias. Veio-lhe sobretudo o retardo no crescimento do
mal romantico que, ao nascer da nossa nacionalidades, infeccionou tão
profundamente a tudo e a todos. Com a partida para fóra da colonia do
lenço de alcobaça e da caixa de rapé de d. João VI, emigraram por largo
tempo deste paiz o bom senso terra a terra e a visão clara e burgueza
das coisas e dos homens.
Em politica o chamado «grito do Ypiranga» inaugurou a deformação
da realidade de que ainda não nos libertamos e nos faz viver num
como sonho de que só nos accordará alguma catastrophe bemfeitora. Em
litteratura, nenhuma outra influencia poderia ser mais deleteria para
o espirito nacional. Desde o apparecimento dos «Suspiros poeticos
e Saudades», de Gonçalves de Magalhães, que os nossos poetas e
escriptores, até os claros dias de hoje, têm bebido inspirações no
craneo humano cheio de bourgogne com que se embebedava Child Harold nas
orgias de[Pg 7] Newstead. O lyrismo puro, simples e ingenuo, como um canto
de passaro, só o exprimiram talvez dois poetas quasi desprezados—um,
Casimiro de Abreu, relegado á admiração das melindrosas provincianas
e caixeiros apaixonados; outro, Catullo Cearense, trovador sertanejo,
que a mania litteraria já envenenou. Foram esses, melancolicos,
desalinhados e sinceros, os dois unicos interpretes do rythmo profundo
e intimo da Raça, como Ronsard e Musset na França, Mœriken e Uhland
na Allemanha, Chaucer e Burns na Inglaterra, e Whitman nos Estados
Unidos. Os outros são lusitanos, francezes, hespanhoes, inglezes e
allemães, versificando numa lingua extranha que é o portuguez de
Portugal, esbanjando talento e mesmo genio num deperdicio lamentavel e
nacional.
O verso classico:
Sur des pensers nouveaux, faisons des vers antiques
está tambem errado. Não só mudaram as idéas inspiradoras da poesia,
como tambem os moldes em que ella se encerra. Encaixar na rigidez de
um soneto todo o baralhamento da vida moderna é absurdo e ridiculo.
Descrever[Pg 8] com palavras laboriosamente extrahidas dos classicos
portuguezes e desentranhadas dos velhos diccionarios, o pluralismo
cinematico de nossa epoca, é um anachronismo chocante, como se
encontrassemos num Ford um tricornio sobre uma cabeça empoada, ou num
torpedo a alta gravata de um dandy do tempo de Brummel. Outros tempos,
outros poetas, outros versos. Como Nietzsche, todos exigimos que nos
cantem um canto novo.
A poesia «pau-brasil» é, entre nós, o primeiro esforço organisado
para a libertação do verso brasileiro. Na mocidade culta e ardente de
nossos dias, já outros iniciaram, com escandalo e successo, a campanha
de liberdade e de arte pura e viva, que é a condição indispensavel para
a existencia de uma litteratura nacional. Um periodo de construcção
creadora succede agora ás lutas da epoca de destruição revolucionaria,
das «palavras em liberdade». Nessa evolução e com os caracteristicos de
suas individualidades, destacam-se os nomes já consagrados de Ronald
de Carvalho, Mario de Andrade e Guilherme de Almeida, não falando nos
rapazes do grupo paulista, modesto e heroico.
[Pg 9]
O manifesto de Oswald, porém, dizendo ao publico o que muitos aqui
sabem e praticam, tem o merito de dar uma disciplina ás tentativas
esparsas e hesitantes. Poesia «pau-brasil». Designação pitoresca,
incisiva e caricatural, como foi a do confettismo e fauvismo para
os néo-impressionistas da pintura, ou a do cubismo n’estes ultimos
quinze annos. É um epitheto que nasce com todas as promessas de
viabilidade.
A mais bella inspiração e a mais fecunda encontra a poesia
«pau-brasil» na affirmação desse nacionalismo que deve romper os
laços que nos amarram desde o nascimento á velha Europa, decadente
e exgotada. Em nossa historia já uma vez surgio esse sentimento
aggressivo, nos tempos turbados da revolução de 93, quando «pau-brasil»
era o jacobinismo dos Tiradentes de Floriano. Sejamos agora de novo,
no cumprimento de uma missão ethnica e protectora, jacobinamente
brasileiros. Libertemo-nos das influencias nefastas das velhas
civilisações em decadencia. Do novo movimento deve surgir, fixada, a
nova lingua brasileira, que será como esse «Amerenglish» que citava
o[Pg 10] Times referindo-se aos Estados-Unidos. Será a rehabilitação
do nosso falar quotidiano, sermo plebeius que o pedantismo dos
grammaticos tem querido eliminar da lingua escripta.
Esperemos tambem que a poesia «pau-brasil» extermine de vez um
dos grandes males da raça—o mal da eloquencia balofa e roçagante.
Nesta epoca apressada de rapidas realisações a tendencia é toda para
a expressão rude e núa da sensação e do sentimento, numa sinceridade
total e synthetica.
«Le poète japonais
Essuie son couteau:
Cette fois l’éloquence est morte».
diz a haïkaï japonez, na sua concisão lapidar. Grande dia esse para
as lettras brasileiras. Obter, em comprimidos, minutos de poesia.
Interromper o balanço das bellas phrases sonoras e ôcas, melopea que
nos approxima, na sua primitividade, do canto erotico dos passaros
e dos insectos. Fugir tambem do dynamismo retumbante das modos em
atrazo que aqui aportam, como o futurismo italiano, doze annos depois
do seu[Pg 11] apparecimento, decrepitas e tresandando a naphtalina. Nada
mais nocivo para a livre expansão do pensamento meramente nacional
do que a importação, como novidade, dessas formulas exoticas, que
envelhecem e murcham num abrir e fechar de olhos, nos cafés literarios
e nos cabarets de Pariz, Roma ou Berlim. Deus nos livre desse
snobismo rastacuerico, de todos os «ismos» parasitas das ideas novas,
e sobretudo das duas inimigas do verdadeiro sentimento poetico—a
Litteratura e a Philosophia. A nova poesia não será nem pintura, nem
esculptura, nem romance. Simplesmente poesia com P grande, brotando do
solo natal, inconscientemente. Como uma planta.
O manifesto que Oswald de Andrade publica encontrará nos
que lêm (essa infima minoria) escarneo, indignação e mais que
tudo—incomprehensão. Nada mais natural e mais razoavel: está certo. O
grupo que se oppõe a qualquer idéa nova, a qualquer mudança no ramerrão
das opiniões correntes é sempre o mesmo: é o que vaiou o Hernani
de Victor Hugo, o que condemnou nos tribunaes Flaubert e Baudelaire,
é o que pateou Wagner, escarneceu de Mallarmé e[Pg 12] injuriou Rimbaud. Foi
esse espirito retrogrado que fechou o Salon official aos quadros
de Cézanne, para o qual Millerand pede hoje as honras do Panthéon; foi
inspirado por elle que se recusou uma praça de Pariz para o Balzac
de Rodin. É o grupo dos novos-ricos da Arte, dos empregados publicos
da literatura, Academicos de fardão, Genios das provincias, Poetas
do «Diário Official». Esses defendem as suas posições, pertencem à
maçonaria da Camaradagem, mais fechada que a da politica; agarram-se ás
taboas desconjuntadas das suas reputações: são os bonzos dos templos
consagrados, os santos das capellinhas litterarias. Outros, são a massa
gregaria dos que não comprehendem, na innocencia da sua curteza, ou
no afastamento forçado das coisas do espirito. Destes falava Rémy de
Gourmont quando se referia a «ceux qui ne comprennent pas». Deixemol-os
em paz, no seu contentamento obtuso de pedra bruta, ou de muro de
taipa, inabalavel e empoeirado.
Para o glú-glú desses perús de roda, só ha duas respostas: ou a
alegre combatividade dos moços, a verve dos enthusiasmos triumphantes,
ou para o scepticimo e o aquoibonismo dos já[Pg 13] descrentes a cançados o
refugio de que falava o mesmo Gourmont, no Silencio das Torres (das
Torres de marfim, como se dizia).
Maio, 1924.
Paulo PRADO.
[Pg 15]
A Blaise Cendrars por occasião da descoberta
do Brasil
O Cabralismo. A civilização dos donatarios. A Querencia e a Exportação.
O Carnaval. O Sertão e a Favella. Pau-Brasil. Barbaro e nosso.
A formação ethnica rica. A riqueza vegetal. O minério. A cosinha. O
vatapá, o ouro e a dansa.
Toda a historia da Penetração e a historia commercial da America.
Pau-Brasil.
Contra a fatalidade do primeiro branco aportado e dominando
diplomaticamente as selvas selvagens. Citando Virgilio para os
tupiniquins. O bacharel.
Paiz de dores anonymas. De doutores anonymos. Sociedade de naufragos
eruditos.
[Pg 19]
Donde a nunca exportação de poesia. A poesia emmaranhada na cultura.
Nos cipós das metrificações.
Seculo vinte. Um estouro nos aprendimentos. Os homens que sabiam tudo
se deformaram como babeis de borracha. Rebentaram de encyclopedismo.
A poesia para os poetas. Alegria da ignorancia que descobre. Pedr’
Alvares.
Uma suggestão de Blaise Cendrars: Tendes as locomotivas cheias, ides
partir. Um negro gira a manivella do desvio rotativo em que estaes. O
menor descuido vos fará partir na direcção opposta ao vosso destino.
Contra o gabinetismo, a palmilhação dos climas.
[Pg 20]
A lingua sem archaismos. Sem erudição. Natural e neologica. A
contribuição millionaria de todos os erros.
Passara-se do naturalismo á pyogravura domestica e á Kodak
excursionista.
Todas as meninas prendadas. Virtuoses de piano de manivella.
As procissões sahiram do bojo das fabricas.
Foi preciso desmanchar. A deformação atravez do impressionismo e do
symbolo. O lyrismo em folha. A apresentação dos materiaes.
A coincidencia da primeira construcçâo brasileira no movimento de
reconstrucção geral. Poesia Pau Brasil.
Contra a argucia naturalista, a synthese. Contra a copia, a invenção e
a surpresa.
[Pg 21]
Uma perspectiva de outra ordem que a visual. O correspondente
do milagre physico em arte. Estrellas fechadas nos negativos
photographicos.
E a sábia preguiça solar. A rosa. A energia silenciosa. A hospitalidade.
Barbaros, pictorescose e credulos. Pau-Brasil. A floresta e a escola. A
cosinha, o minério e a dansa. A vegetação. Pau Brasil.
[Pg 23]
HISTORIA DO BRASIL
[Pg 25]
PERO VAZ CAMINHA
A descoberta
Seguimos nosso caminho por este mar de longo
Até a oitava da Paschoa
Topamos aves
E houvemos vista de terra
Os selvagens
Mostraram-lhes uma gallinha
Quasi haviam medo della
E não queriam pôr a mão
E depois a tomaram como espantados
Primeiro chà
Depois de dansarem
Diogo Dias
Fez o salto real
As meninas da gare
Eram tres ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com cabellos mui pretos pelas espadoas
E suas vergonhas tão altas et tão saradinhas
Que de nós as muito bem olharmos
Não tinhamos nenhuma vergonha
GANDAVO
[Pg 26]
Hospedagem
Porque a mesma terra he tal
E tam favoravel aos que a vam buscar.
Que a todos agazalha e convida
Chorographia
Tem a forma de hua harpa
Confina com as altissimas terras dos Andes
E fraldas do Perú
As quaes são tão soberbas em cima da terra
Que se diz terem as aves trabalho em as passar
[Pg 27]
Salubridade
O ser ella tam salutifera e livre de enfermidades
Procede dos ventos que cruzam nella
E como todos procedem da parte do mar
Vem tam puros e coados
Que nam somente nam danam
Mas recream a accrescentam a vida do homem
Systema hydrographico
As fontes que ha na terra sam infinitas
Cujas aguas fazem crescer a muytos e muy grandes rios
Que por esta costa
Assi da banda do Norte como do Oriente
Entram no mar oceano
Paiz do ouro
Todos tem remedio de vida
E nenhum pobre anda pelas portas
A mendigar como nestes Reinos
[Pg 28]
Natureza morta
A esta fruita chamam Ananazes
Depois que sam maduras tem un cheiro muy suave
E como-se aparados feitos em talhada
E assi fazem os moradores por elle mais
E ós tem em mayor estima
Que outro nenhum pomo que aja na terra
Riquezas naturaes
Muitos metaes pepinos romans e figos
De muitas castas
Cidras limões a laranjas
Uma infinidade
Muitas cannas daçucre
Infinito algodam
Tambem ha muito páo brasil
Nestas capitanias
Festa da raça
Hu certo animal se acha tambem nestas partes
A que chamam Preguiça
[Pg 29]
Tem hua guedelha grande no toutiço
E se move com passos tam vagarosos
Que ainda que ande’ quinze dias aturado
Não vencerá distancia de hu tiro de pedra
O CAPUCHINHO
CLAUDE D’ABBEVILLE
[Pg 30]
A moda
Les femmes n’ont point la lèvre percée
Mais en récompense
Elles ont les oreilles trouées
Et elles s’estiment aussi braves
Aves des rouleaux de bois dedans les trous
Que font les dames de pardeça
Avec leurs grosses perles et riches diamants
Çà e là
Cette coustume de marcher nud
Est merveilleusement difforme et deshonneste
N’estant peut estre si dangereuse
Ni si attrayante
Que les nouvelles inventions
Des dames de pardeça
Qui ruinent plus d’âmes
Que ne le font les filles indiennes
O paiz
Il y a une fontaine
Au beau milieu
Particulière en beauté
Et en bonté
Des eaux vives et très claires
Rejaillissent dicelle
Et ruissellet dedans la mer
Estant environnée
De palmiers guyacs myrtes
Sur lesquels
On voit souvent
Des monnes et guenons
FREI VICENTE DO SALVADOR
Paisagem
Cultivam-se palmares de cocos grandes
Principalmente á vista do mar
[Pg 31]
As aves
Ha aguias de sertão
E emas tão grandes como as de Africa
Umas brancas e outras malhadas de negro
Que com uma aza levantada ao alto
Ao modo de vela latina
Correm com o vento
Amor de inimiga
Posto que alguma
Pelo amor que lhe tem
Solta tambem o preso
E se vae com elle pera suas terras
Prosperidade de São Paulo
Ao redor desta villa
Estão quatro aldeias de gentio amigo
Que os padres da Companhia doutrinam
Fóra outro muito
Que cada dia desce do sertão
[Pg 32]
FERNÃO DIAS PAES
Carta
Partirei
Com quarenta homens brancos afóra eu
E meu filho
E quatro tropas de mossos meus
Gente escoteyra com polvora e chumbo
Vossa Senhoria
Deve considerar que este descobrimento
É o de maior consideração
Em rasam do muyto rendimento
E tambem esmeraldas
FREI MANOEL CALADO
Civilização pernambucana
As mulheres andam tão louçãs
E tão custosas
Que não se contentam com os tafetas
[Pg 33]
São tantas as joias com que se adornam
Que parecem chovidas em suas cabeças e gargantas
As perolas rubis e diamantes
Tudo são delicias
Não parece esta terra senão um retrato
Do terreal paraizo
J. M. P. S.
(da cidade do porto)
Vicio na fala
Para dizerem milho dizem mio
Para melhor dizem mió
Para peor pió
Para telha dizem têia
Para telhado dizem teado
E vão fazendo telhados
PRINCIPE DOM PEDRO
Carta ao patriarcha
Tendo pensamenteado toda a noite
Assentei passar revista aos Granadeiros
[Pg 34]
Assim se os enxergar esta tarde no Rossio
Não assente ver Bernarda
Encumbi ao Miquilina
E ao Major do Regimento dos Pardos
Para virem me dar parte
De tudo que se disser pelos Botequins
Estimarei que approve esta medida
E assento que melhores
E mais fieis e adherentes á causa do Brasil
Do que os Pardos meus amigos
Ninguem
[Pg 35]
POEMAS DA COLONIZAÇÃO
[Pg 37]
A transação
O fazendeiro creara filhos
Escravos escravas
Nos terreiros de pitangas e jaboticabas
Mas um dia trocou
O ouro da carne preta e musculosa
As gabirobas e os coqueiros
Os monjolos e os bois
Por terras imaginarias
Onde nasceria a lavoura verde do café
Fazenda antiga
O Narciso marcineiro
Que sabia fazer moinhos e mesas
E mais o Casimiro da cosinha
Que aprendera no Rio
E o Ambrosio que atacou Seu Juca de faca
E suicidou-se
As desenove pretinhas gravidas
Negro fugido
O Jeronymo estava numa outra fazenda
Socando pilão na cosinha
[Pg 38]
Entraram
Grudaram nelle
O pilão tombou
Elle tropeçou
E cahiu
Montaram nelle
O recruta
O noivo da moça
Foi para a guerra
E prometteu se morresse
Vir escutar ella tocar piano
Mas ficou para sempre no Paraguay
Caso
A mulatinha morreu
E appareceu
Berrando no moinho
Socando pilão
O grammatico
Os negros discutiam
Que o cavallo sipantou
[Pg 39]
Mas o que mais sabia
Disse que era
Sipantarrou
O medroso
A assombração apagou a candeia
Depois no escuro veiu com a mão
Pertinho delle
Ver se o coração ainda batia
Scena
O canivete voou
E o negro comprado na cadeia
Estatelou de costas
E bateu coa cabeça na pedra
O capoeira
—Qué apanhá sordado
—O que?
—Qué apanhá?
Pernas e cabeças na calçada
[Pg 40]
Medo da Senhora
A escrava pegou a filhinha nascida
Nas costas
E se atirou no Parahyba
Para que a creança não fosse judiada
Levante
Contam que houve uma porção de enforcados
E as caveiras espetadas nos postes
Da fazenda deshabitada
Mivam de noite
No vento do matto
A roça
Os cem negros da fazenda
Comiam feijão e angú
Abobora chicorea e cambuquira
Pegavam uma roda de carro
Nos braços
Azorrague
—Chega! Perdôa!
Amarrados na escada
[Pg 41]
A chibata preparava os cortes
Para a salmoura
Relicario
No baile da Corte
Foi o Conde d’Eu quem disse
Pra Dona Bemvinda
Que farinha de Suruhy
Pinga do Paraty
Fumo de Baependy
É comê bebê pitá e cahi
Senhor feudal
Se Pedro Segundo
Vier aqui
Com historia
Eu boto elle na cadeia
[Pg 43]
SÃO MARTINHO
[Pg 45]
Nocturno
Lá fóra o luar continua
E o trem divide o Brasil
Como un meridiano
Prosperidade
O café é o ouro silencioso
De que a geada orvalhada
Arma torrefacções ao sol
Passarinhos assoviam de calor
Eis-nos chegados á grande terra
Dos cruzados agricolas
Que no tempo de Fernão Dias
E da escravidão
Plantaram fazendas como sementes
E fizeram filhos nas senhoras e nas escravas
Eis-nos deante dos campos atavicos
Cheios de gallos e de rezes
Com porteiras e trilhos
Usinas e egrejas
Caçadas e frigorificos
Eleições tribunaes e colonias
[Pg 46]
Paisagem
O cafesal é um mar alinhavado
Na afflição humoristica dos passarinhos
Nuvens constroem cidades nos horizontes dos carreadores
E o fazendeiro olha os seus 800.000 pés coroados
Bucolica
Agora vamos correr o pomar antigo
Bicos aereos de patos selvagens
Tetas verdes entre folhas
E uma passarinhada nos vaia
Num tamarindo
Que decola para o anil
Arvores sentadas
Quitandas vivas de laranjas maduras
Vespas
Escola rural
As carteiras são feitas para anõezinhos
De pé ao chão
Ha uma pedra negra
Com syllabas escriptas a giz
[Pg 47]
A professora está de licença
E monta guarda a um canto numa vara
A bandeira alvi-negra de São Paulo
Enrolada no Brasil
Pae negro
Cheio de rotulos
Na cara nas muletas
Pedindo duas vezes a mesma esmola
Porque só enxerga uma nuvem de mosquitos
Assombração
6 horas
O Domingos Papudo
E a besta preta
Nadando no vento
Lei
Depois da creação do municipio novo
Plantado depressa nas ruas de poeira
Os bebés inumeraveis da colonia
Serão registados em Pradopolis
[Pg 48]
Tragedia Passional
Hoje acendem velas
Na cruz no matto
E ha uma inscripção
Dizendo que o cadaver da moça
Foi achado nel Rio del’ Onza
Morro Azul
Passarinhos
Na casa que ainda espera o Imperador
As antenas palmeiras escutam Buenos-Ayres
Pelo telephone sem fios
Pedaços de ceu nos campos
Ladrilhos no ceu
O ar sem veneno
O fazendeiro na rede
E a Torre Eiffel nocturna e sideral
O violeiro
Vi a sahida da lua
Tive um gosto singulá
Em frente da casa tua
São vortas que o mundo dá
[Pg 49]
Matte Chimarão
Depois da churrascada
Ao fogo e ao vento
O cavalleiro do gado
Trouxe ouro em pó
E uma cuia festiva
Para sorvermos a digestão
A laçada
O Bento cahiu como um toro
No terreiro
E o medico veiu de Chevrolet
Trazendo um prognostico
E toda a minha infancia nos olhos
Versos de Dona Carrie
A neblina nos segue como um convidado
Mas ha um clarão para as bandas de Loreto
Cafezaes
Cidades
Que a Paulista recorta
Corôa colhe e esparrama em safras
A nova poesia anda em Goffredo
Que nos espera de Ford
[Pg 50]
Numa roupa clara de fazenda
É elle quem cuida da plantação
E organiza a serraria como um poema
O team feminino nos bate
Mas Cendrars faz a ultima carambola
Soldado de todas as guerras
Foi elle quem salvou a França na Champagne
E os homens na partida de bilhar daquella noite
Terraço
Rede
Paineiras pelo ceo
As estrellas de Gonçalves Dias
Metalurgica
1.300° á sombra dos telheiros rectos
12.000 cavallos invisiveis pensando
40.000 toneladas de nickel amarello
Para sahir do nivel das aguas esponjosas
E uma estrada de ferro nascendo do solo
Os fornos entroncados
Dão o gusa e a escoria
A refinação planta barras
E là em baixo os operarios
Forjam as primeiras lascas de aço
[Pg 51]
R P 1
[Pg 53]
3 de Maio
Aprendi com meu filho de dez annos
Que a poesia é a descoberta
Das coisas que eu nunca vi
Poema do Sanctuario
Já estive diversas vezes na Apparecida
Onde ha uma velha lucta
Que é uma antiga disputa
Entre duas casas commerciaes
Que querem ao mesmo tempo ser
Na ladeira de sol
A Verdadeira Casa Verde
Dithirambo
Meu amor me ensinou a ser simples
Como um largo de egreja
Onde não ha nem um sino
Nem um lapis
Nem uma sensualidade
Sol
Uma vez fui a Guará
A Guaratinguetá
[Pg 54]
E agora
Nesta hora de minha vida
Tenho uma vontade vadia
Como un photographo
Guararapes
Japonezes
Turcos
Migueis
Os hoteis parecem roupas alugadas
Negros como num compendio de historia patria
Mas que sujeito loiro
Walzertraum
Aqui dá arroz
Feijão batata
Leitão e patarata
Passam 18 trens por dia
Fóra os extraordinarios
E o trem leiteiro
Que leva leite para todos os bébés do Rio de Janeiro
Apitos antigos apitam
Sentimentalmente
[Pg 55]
Eu gosto dos sanctuarios
Das viagens
E de alguns hoteis
O Bertolini’s em Napoles
O d’Angleterre em Caen
Onde Brummel morreu
O hotel da Viuva Fernando na Apparecida
E um hotel sem nome
Na fronteira de Portugal
Onde uma mulher bonita
Quiz fazer pipi
Pela primeira vez
Fim e começo
A noite cahiu com licença de Camara
Se a noite não cahisse
Que seriam dos lampeões?
Cidade
Foguetes pipocam o ceu quando em quando
Ha uma moça magra que entrou no cinema
[Pg 56]
Vestida pela ultima fita
Conversas no jardim onde crescem bancos
Sapos
Olha
A illuminação é de hulha branca
Mamães estão chamando
A orchestra rabecôa na matta
Bonde
O transatlantico mesclado
Dlendlena e esguicha luz
Postretutas e famias sacolejam
Vadiagem mystica
Passei quasi toda a manhã na Basilica
Resando e olhando
Vi dois casamentos
Bentos
De fraque
O sachristão chama-se Seu Bentinho
E a gente logo que sahe da egreja
Cahe no rio espraiado
[Pg 57]
O hoteleiro de meu hotel
Tem côr de medalha de pescoço
E conta-me que já houve cafezaes
Nos pastos
Nos bambusaes
Se eu me casasse
Queria uma orchestra
Bem besta
Poema da Cachoeira
É a mesma estação rente do trem
Toda de pedra furadinha
Meu pae morou alguns annos aqui
Trabalhando
Um dia liquidou
Activo passivo
Cinco gallinhas
E deram-lhe uma passagem de presente
Para que eu nascesse em São-Paulo
Como não houvesse estrada de rodagem
Elle foi na de ferro
Comprando frutas pelo caminho
[Pg 58]
Carro restaurante
Portugal ao longo do Tejo
Para dentro de Portugal
Casas amontoadas no dia azul
Um queijo da Estrella
Figos e estrellas
Creme Brasil
Industria Vassourense
Doce de leite
Agua de Caxambú
A natureza
Sobre a mesa
Nova Yguassu
Confeitaria Tres Nações
Importação e Exportação
Açougue Ideal
Leiteria Moderna
Café do Papagaio
Armarinho União
No paiz sem peccados
[Pg 59]
Agente
Quartos para familias e cavalheiros
Predio de 3 andares
Construido para esse fim
Todos de frente
Mobiliados a estylo moderno
Modern Sstyle
Agua Telephone elevadores
Grande Terraço systema yankee
Donde se descortina o bello panorama
De Guanabara
Capital da Republica
Temperatura de bolina
O orgulho de ser branco
Na terra morena e conquistada
E a sahida para as praias calçadas
Arborizadas
A Avenida se abana com as folhas meúdas
Do Pau-Brasil
[Pg 60]
Politicos dormem ao calor do Norte
Mulheres se desconjuntam
Boccas lindas
Sujeitos de olheiras brancas
O Pão de Assucar artificial
[Pg 61]
CARNAVAL
[Pg 63]
Nossa Senhora dos Cordões
Evohé
Protectora do Carnaval em Botafogo
Mãe do rancho victorioso
Nas pugnas de Momo
Auxiliadora dos artisticos trabalhos
Do barracão
Patrona do livro de ouro
Proteje nosso querido artista Pedrinho
Como o chamamos na intimidade
Para que o brilhante cortejo
Que vamos sobremetter á apreciação
Do culto povo carioca
E da Imprensa Brasileira
Acerrima defensora da Verdade e da Razão
Seja o mais luxuoso novo e original
E tenha o veredictum unanime
No grande prelio
Que dentro de poucas horas
Se travará entre as hostes aguerridas
Do Riso e da Loucura
[Pg 64]
Na Avenida
A banda de clarins
Annuncia com os seus clangorosos sons
A approximação do impetuoso cortejo
A commissão de frente
Composta
De distinctos cavalleiros da boa sociedade
Rigorosamente trajados
E montando fogosos corceis
Pede licença de chapeo na mão
20 creanças representando de vespas
Constituem a guarda de honra
Da Porta Estandarte
Que é precedida de 20 damas
Fantasiadas de pavão
Quando 40 homens do cõro
Conduzindo palmas
E artisticamente fantasiados de papoulas
Abrem a Allegoria
Do Palacio Floral
Entre luzes electricas
[Pg 65]
SECRETARIO DOS AMANTES
[Pg 67]
I
Acabei de jantar um excellente jantar
116 francos
Quarto 120 francos com agua encanada
Chauffage central
Vês que estou bem de finanças
Beijos e coices de amor
II
Bestâo querido
Estou soffrendo
Sabia que ia soffrer
Que tristeza este appartamento de hotel
III
Granada é triste sem ti
Apezar do sol de ouro
E das rosas vermelhas[Pg 68]
IV
Mi pensamiento hacia Medina del Campo
Ahora Sevilla envuelta en oro pulverizado
Los naranjos salpicados de frutos
Como una dadiva a mis ojos enamorados
Sin embargo que tarde la mia
V
Que alegria teu radio
Fiquei tâo contente
Que fui á missa
Na egreja toda gente me olhava
Ando desperdiçando belleza
Longe de ti
VI
Que distancia!
Nâo choro
Porque meus olhos ficam feios
[Pg 69]
POSTES DA LIGHT
[Pg 71]
Pobre alimaria
O cavallo e a carroça
Estavam atravancados no trilho
E como o motorneiro se impacientasse
Porque levava os advogados para os escriptorios
Desatravancaram o vehiculo
E o animal disparou
Mas o lesto carroceiro
Trepou na bolea
E castigou o fugitivo atrelado
Com um grandioso chicote
Anhangabahu
Sentados num banco da America folhuda
O cow-boy e a menina
Mas um sujeito de meias brancas
Passa depressa
No Viaducto de ferro
Jardim da Luz
Engaiolaram o resto dos macacos
Do Brasil
[Pg 72]
Os repuxos desfallecem como velhos
Nos lagos
Almofadinhas e soldados
Gerações côr de rosa
Passaros que ninguem vê nas arvores
Instantaneos e cervejas geladas
Familias
O féra
Eil-o sentado num banco de pedra
Palido e polido
Como a Cleopatra dos sonetos
Espera as pequenas ingenuas
Que passam de braços
De bruços
Já se esqueceu do retrato na Policia
Tem a consciencia tranquilla
Dum legislador
Photographo ambulante
Fixador de corações
Debaixo de blusas
Album de dedicatorias
Maquereau[Pg 73]
Tua objectiva pisca-pisca
Namora
Os sorrisos contidos
És a gloria
Offerenda de poesia ás dusias
Tripeça dos logradouros publicos
Bicho debaixo da arvore
Canhâo silencioso do sol
A procissão
Os chauffeurs ficam zangados
Porque precisam estacar deante da pequena procissão
Mas tiram os bonés e rezam
Procissão tão pequenina tão bonitinha
Perdida num bolso da cidade
Bandeirolas
Opas verdes
Creanças detentoras de primeiros premios
De bobice
Vão passo a passo
Bandeirolas
Opas verdes
[Pg 74]
Um andor nos hombros mulatos
De 4 filhas alvissimas de Maria
Nossa Senhora vae atraz
Num milagre de equilibrio
Mas o que mais eu gosto
Nesta procissão
E’ o Espirito Santo
Dourado
Para inspirar os homens
De minha terra
Bandeirolas
Opas verdes
O padre satisfeito
De ter parado o transito
Com Nosso Senhor nas mâos
E um dobrado atraz
Escola Berlites
Todos os alumnos têm a cara avida
Mas a professora suffragete
Maltrata as pobres dactylographas bonitas
E detesta
The spring
[Pg 75]
Der Frühling
La primavera scapigliata
Ha uma porção de livros para ser comprados
A gente fica meio esperando
As campainhas avisam
As portas se fecham
E’ formoso o pavão?
De que côr é o Senhor Seixas?
Senhor Lazaro traga-me tinta
Qual é a primeira letra do alphabeto?
Ah!
Atelier
Caipirinha vestida por Poiret
A preguiça paulista reside nos teus olhos
Que não viram Paris nem Piccadilly
Nem as exclamações dos homens
Em Sevilha
A’ tua passagem entre brincos
Locomotivas e bichos nacionaes
Geometrizam as athmospheras nitidas
Congonhas descora sob o pallio[Pg 76]
Das procissões de Minas
A verdura no azul klaxon
Cortada
Sobre a poeira vermelha
Arranha-ceus
Fords
Viaductos
Um cheiro de café
No silencio emoldurado
Musica de manivella
Sente-se deante da victrola
E esqueça-se das vicissitudes da vida
Na dura labuta de todos os dias
Não deve ninguem que se prese
Descuidar dos prazeres da alma
Discos a todos os preços
A Europa curvou-se ante o Brasil
7 a 2
3 a 1
[Pg 77]
A injustiça de Cette
4 a 0
2 a 1
2 a 0
3 a 1
E meia duzia na cabeça dos portuguezes
Linha no escuro
É fita de risada
A creançada hurla como o vento
Mas os cotovellos se encontram
Se acotovellam e se apalpam
Mãos descem na calada da lua quadrangula
Emquanto a orchestra cavallos e letreiros galopam
Entre saias uma lixa humana se arredonda
Mas quando amanhece
A mulher qualquer
Desapparece
Pronominaes
Dê-me um cigarro
Diz a grammatica
[Pg 78]
Do professor e do alumno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro
Bibliotheca Nacional
A Creança Abandonada
O doutor Coppelius
Vamos com Elle
Senhorita Primavera
Codigo Civil Brasileiro
A arte de ganhar no bicho
O Orador Popular
O Polo em Chammas
O combate
O altifalante parece um palhaço
Mexem toalhas
No ringue verde e amarello
[Pg 79]
Benedicto ataca e colloca
Directos direitos
Mas a sabedoria dos clinches destroe
A radio bandeirantes cinematiza a 100 leguas
Vamos gritar
Levou ás cordas o branco
Espatifemos as palhetas no ar
Mais um
Que bicho
Desfalleceu
Sob o ceu que é uma bandeira azul
Grandes kagados electricos processionam
A noite cahe
Como um swing
Aperitivo
A felecidade anda a pé
Na Praça Antonio Prado
São 10 horas azues
O café vae alto como a manhã de arranha-ceus
Cigarros Tietê
Automoveis
A cidade sem mythos
[Pg 80]
Ideal bandeirante
Tome este automovel
E vá ver o Jardin New-Garden
Depois volte á Rua da Bôa Vista
Compre o seu lote
Registe a escriptura
Boa firme e valiosa
E more nesse bairro romantico
Equivalente ao celebre
Bois de Boulogne
Prestações mensaes
Sem juros
O Gymnasio
Escutae o tenor boxeur Romão Gonçalves
Desafiador sem medo de Spalla e Benedicto
Trenador de Jack Johnson e do bravo Carpentier
Conforme a photographia
Vinde todos á Rua Padre João Manuel
Na Penha
Trenar ao ar livre
As senhoritas encontrarão
A Exma Sra Charlota Argentina boxista
[Pg 81]
E os marmanjos verão Romão
Detentor do record do mundo
De cantar e nadar vestido ao mesmo tempo
Acompanhado por uma banda de musica
Como se pode ver no cinema
E deante dos Reis da Belgica
E outros reis
Digestão
A couve mineira tem gosto de bife inglez
Depois do café e da pinga
O gozo de accender a palha
Enrolando o fumo
De Barbacena ou de Goyaz
Cigarro cavado
Conversa sentada
Reclame
Fala a graciosa actriz
Margarida Perna Grossa
Linda côr—que admiravel loção
Considero lindacôr o complemento
Da toelette feminina da mulher
[Pg 82]
Pelo seu perfume agradavel
E como tonico do cabello garçonne
Se entendam todas com Seu Fagundes
Unico depositório
Nos E. U. do Brasil
Bengalo
Bicos elasticos sob o jersey
Um maxixe escorrega dos dedos morenos
De Gilberta
Janella
Sotas e azes desertaram o ceo das estradas de rodagem
O piano fox-trota
Domingaliza
Um gallo canta no territorio do terreiro
A campainha telephona
Cretones
O cinema dos negocios
Planos de comprar uma ford
O piano fox-trota
Janella
Bondes
[Pg 83]
Passionaria
Meu amigo
Foi-me impossivel vir hoje
Porque Armando veiu commigo
Como se foras tú
Necessito muito de algum dinheiro
Arranja-m’o
Deixo-te um beijo na porta
Da garçonniere
E sou a sinceridade
Hippica
Saltos records
Cavallos da Penha
Correm jockeys de Higyenopolis
Os magnatas
As meninas
E a orchestra toca
Chá
Na sala de cocktails
[Pg 85]
ROTEIRO DAS MINAS
[Pg 87]
Convite
São João del Rey
A fachada do Carmo
A egreja branca de São Francisco
Os morros
O corrego do Lenheiro
Ide a São João del Rey
De trem
Como os paulistas foram
A pé de ferro
Immutabilidade
Moça bonita em penca
Sete-Lagôas
Sabará
Cahete
O corrego que ainda tem ouro
Entre a estação e a cidade
E o mequetrefe
Vae tocar viola nas vendas
Porque a bateia está alli mesmo
[Pg 88]
Traituba
O sobrado parecia uma egreja
Curraes
E uma e outra arvore
Para amarrar os bois
O pomar de toda fruta
E a passarinhada
Joá na roça de milho
Carros de fumo puxados por 12 bois
Codorna tucano perdiz araponga
Jacú nhambú jurity
Semana santa
A matraca alegre
Debaixo do ceu de commemoração
Diz que a Tragedia passou longe
O Brasil é onde o sangue corre
E o ouro se encaixa
No coração da muralha negra
Recortada
Laminada
Verde
[Pg 89]
Procissão do enterro
A Veronica estende os braços
E canta
O pallio parou
Todos escutam
A voz na noite
Cheia de ladeiras accesas
Symbologia
Abranhão tem bigodes pretos
E sabia que Deus collocava o Anjo atraz delle
Isaac é innocente pequeno e núzinho
Os homens que carregam o caixão
Estão todos de branco
E descalços
O soldado romano
E’ zangadissimo
E tem cabello na cara
O padre sahiu para a rua
De dentro de um quadro antigo
[Pg 90]
São José del Rey
Bananeiras
O sol
O cansaço da illusão
Egrejas
O ouro na serra de pedra
A decadencia
Sabbado de alleluia
Serpentes de fogo procuram morder o ceo
E estouram
A praça publica está cheia
E a execução espera o arcebispo
Sahir da historia colonial
Longe vae tempo soltaram a lua
Como um balão de dentro da serra
Judas balança cahido numa arvore
Do ceu doirado e altissimo
Jardins
Palmeiras
Negros
[Pg 91]
Bumba meu boi
Descollocado
Arrebentado
Vae sahi
A companhia do arraiá
Da Boa Sorte
Sob o estandarte
A tourada dansa
Na musica nocturna
Resurreição
Um atropello de sinos processionaes
No silencio
Lá fóra tudo volta
A’ espectaculosa tranquilidade de Minas
Menina e moça
Gostei de todas as festas
Porque esse negocio de missa
E procissão
E’ só para os olhares
Vou agora triste no trem
Com aquella paixão
[Pg 92]
No coração
Vou emmagrecer
Junto ás palmeiras
Malditas
Da fazenda
Casa de Tiradentes
A Inconfidencia
No Brasil do ouro
A historia morta
Sem sentido
Vasia como a casa immensa
Maravilhas coloniaes nos tectos
A egreja abandonada
E o sol sobre muros de laranja
Na paz do capim
Chagas Doria
Picássos na parede branca
E mais nada
Sob o tecto de caixões
Mas na sachristia
Uma imagem barbuda
Arregalada de santidade
Me espera como uma creança de collo
[Pg 93]
Mappa
Ibitiruna
Campos sertanejos
Carmo da Matta
Tartaria
E a machina de brincadeira
Que corre dois dias
Atraz da barra do Paraopeba
Capella Nova
Salão Mocidade
Hotel do Chico
Uma egreja velha e côr de rosa
Na decoração dos bananaes
Dos coqueiraes
Documental
E’ o Oeste no sentido cinematographico
Um passaro caçoa do trem
Maior do que elle
A estação proxima chama-se Bom Successo
Floresta colinas cortes
[Pg 94]
E subito a fazenda nos coqueiros
Um grupo de meninas entra no film
Paisagem
Na athmosphera violeta
A madrugada desbota
Uma pyramide quebra o horizonte
Torres espirram do chão ainda escuro
Pontes trazem nos pulsos rios bramindo
Entre fogos
Tudo novo se desencapotando
Longo da linha
Coqueiros
Aos dois
Aos tres
Aos grupos
Altos
Baixos
Santa Quiteria
Palmas immensas
Sobem dos caules occultos
[Pg 95]
Cercas e cavallos
E a raça que se apruma
Approximação da capital
Trazem-nos poemas no trem
Azues e vermelhos
Como a terra e o horizonte
É um hotel rigorosamente familiar
Que offerece vantagens reaes
Aos dignos forasteiros
Havendo o maximo escrupulo na direcção da cosinha
Casas defendem o vosso proprio interesse
Proporcionando-vos uma economia
De 2$000, de 3$000
Impermeaveis
Borzeguins
Pyjamas
Barreiro
Estradas de rodagem
E o canto dos meninos azues da Gameleira
[Pg 96]
A paisagem nos abraça
Pontes
Alvenaria
Ninhos
Passarinhos
A escola e a fazenda de duzentos annos
Canção do Vira
Coa comade pode
Pode
Quá o quê
Afinca
Afinca
Lagoa Santa
Aguas azues no milagre dos mattos
Um cemiterio negro
Ruas de casas despencando a pique
No ceu reflectido
Viveiro
Bananeiras monumentaes
Mas no primeiro plano
[Pg 97]
O cachorro é maior que a menina
Côr de ouro fosco
As casas do valle
São habitadas pela passarada matinal
Que grita de longe
Junto á Capella
Ha um pintor
Marcolino de Santa Luzia
Sabará
Este corrego ha trezentos annos
Que attrahe os faiscadores
Debaixo das serras
No fundo da bateia lavada
O sol brilha como ouro
Outrora havia negros a cada metro de margem
Para virar o rio metalico
Que ia no dorso dos burros
E das caravellas
Borba Gato
Os paulistas trahidos
Sacrilegios
O vento
[Pg 98]
Ouro Preto
Vamos visitar São Francisco de Assis
Egreja feita pela gente de Minas
O sachristão que é vizinho da Maria Canna-Verde
Abre e mostra o abandono
Os pulpitos do Aleijadinho
O tecto do Athayde
Mas a dramatização finalizou
Ladeiras do passado
Esquartejamentos e conjurações
Sob o Itacolomy
Nos poços mecanicos policiados
Da Passagem
E em alguns maus alexandrinos
Só o Morro da Queimada
Fala do Conde de Assumar
Congonhas do Campo
Ha um hotel novo que se chama York
E lá em cima na palma da mão da montanha
A igreja no circulo architectonico dos Passos
[Pg 99]
Paineis quadros imagens
A religiosidade no socego do sol
Tudo puro como o Aleijadinho
Um carro de boi canta como um orgão
Occaso
No amphithetro de montanhas
Os prophetas do Aleijadinho
Monumentalizam a paisagem
As cupulas brancas dos Passos
E os cocares revirados das palmeiras
São degraus da arte de meu paiz
Onde ninguem mais subiu
Biblia de pedra sabão
Banhada no ouro das minas
[Pg 101]
LOYDE BRASILEIRO
[Pg 103]
Canto do regresso a Patria
Minha terra tem palmares
Onde gorgeia o mar
Os passarinhos aqui
Não cantam como os de lá
Minha terra tem mais rosas
E quasi que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permitta Deus que eu morra
Sem que volte para lá
Não permitta Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo
Tarde de partida
Casas embandeiradas
De janellas
[Pg 104]
De Lisboa
Terremoto azul
Fixado
Nos nevoeiros historicos
O teu velho verde
Crepita de verdura
E de pharoes
Para o adeus da patria quinhentista
E o accaso dos Brasis
Cielo e mare
O mar
Canta como um canario
Um compatriota de bôa familia
Empanturra-se de whisky
No bar
Familias tristes
Alguns gigolôs sem effeito
Eu jogo
Ella joga
O navio joga
[Pg 105]
O cruzeiro
Primeiro pharol de minha terra
Tão alto que parece construido no ceu
Cruz imperfeita
Que marcas o calor das florestas
E os discurssos de 22 camaras de deputados
Silencio sobre o mar do Equador
Perto de Alpha e de Beta
Perdão dos analphabetos que contam casos
Accaso
Rochedos São Paulo
Everest da Atlantida
Vanguarda calcinada do Brasil
Ponto geocentrico eriçado
Contra as escarpas das ondas
Do Amazonas
Poleiro de Gago Coutinho
Fernando de Noronha
De longe pareces uma cathedral
Gravando a latitude
[Pg 106]
Terra habitada no mar
Pela minha gente
Entre contrafortes e penedos vulcanicos
Uma ladeira coberta de matto
Indica a colonia lado a lado
Um muro branco de cemiterio
A egreja
Quatro antenas
Levantadas entre a Europa e a America
Um pharol e um cruzeiro
Recife
Desenvoltura
Attração sinuosa
Da terra pernambucana
Tudo se enlaça
E absorve em ti
Rectilinea
Canna de assucar
Dobrada
Para deixar mais alta
Olinda
Plantada
Sobre uma onda linda
[Pg 107]
Do mar pernambucano
Mas os guindastes
São canhões que ficaram
Em memoria
Da defeza da Patria
Contra os hollandezes
Chaminés
Palmares do caes
Perpendiculares aos hangars
E ás broas negras d’oleo
Baluartes do progresso
Para render
Os velhos fortes
Carcomidos
Pelos institutos historicos
Na paisagem guerreira
Os coqueiros se empennacham
Como guerreiros em festa
Ruas imperiaes
Palmeiras imperiaes
Pontes imperiaes
As tuas moradias
Vestidas de azul e de amarello
Não contradizem
Os prazeres civilizados
[Pg 108]
Da Rua Nova
Nos teus parallelepipedos
Os melhores do mundo
Os automoveis
Do Novo Mundo
Cortam as pontes ancestraes
Do Capiberibe
Desenvoltura
Concreto sinuoso
Que liga o arranha-ceu
A’ bençam das tuas egrejas
Velhas
De abençoar
A gente corajosa
De Pernambuco
Escala
Sob um solzinho progressista
Ha gente parada no caes
Vendo um guindaste
Dar tiro no ceu
[Pg 109]
Versos bahianos
Tua orla Bahia
No beneficio destas aguas profundas
E o matto encrespado do Brasil
Uma jangada leva os teus homens morenos
De chapeu de palha
Pelos campos de batalha
Da Renascença
Este mesmo mar azul
Feito para as descidas
Dos hydroplanos de meu seculo
Frequentado rendez-vous
De Hollandezes de Condes e de Padres
Que Amaralina actualiza
Poste das saudades transatlanticas
Riscando o ocre photographico
Entre Itapoan e o pharol tropical
A bandeira nacional agita-se sobre o Brasil
A cidade alteia cupulas
Torres coqueiros
Arvores transbordando em mangas rosas
Até os navios ancorados
[Pg 110]
Forte de São Marcello
Panella de pedra da historia colonial
Cosinhando palmas
E as tuas ruas entreposto do Mundo
E os teus sertanejos asphaltados
E o teu anno de egrejas differentes
Com um grande dia santo
Cathedral da Bahia
Genuflexorio dos primeiros potentados
Confessionario dos inquisidores
Cathedral
E’s o fim do roteiro de Roberio Dias
Romance de Alencar
Encadernado em ouro
Por dentro
Mais grandiosa que São Pedro
Cathedral do Novo Mundo
Passa uma yole
Com remadores brancos
No occaso indigesto
De Itaparica
Noite no Rio
O Pão de Assucar
E’ Nossa Senhora da Apparecida
[Pg 111]
Coroada de luzes
Uma mulata passa nas Avenidas
Como uma rainha de palco
Talco
Facil
Arvores sem emprego
Dormem de pé
Ha um milhão de maxixes
Na preguiça
Que vem do fundo da colonia
Do mar
Da belleza de Dona Guanabara
Paixões de feerie
O Minas Geraes pisca para o Cruzeiro
Annuncio de São Paulo
Antes da chegada
Affixam nos offices de bordo
Um convite impresso em inglez
Onde se contam maravilhas de minha cidade
Sometimes called the Chicago of South America
Situada num planalto
2.700 pés acima do mar
[Pg 112]
E distando 79 kilometros do porto de Santos
Ella é uma gloria da America contemporanea
A sua sanidade é perfeita
O clima brando
E se tornou notavel
Pela belleza fóra do commum
Da sua construcção e da sua flora
A Secretaria da Agricultura fornece dados
Para os negocios que ahi se queiram realizar
Contrabando
Os alfandegueiros de Santos
Examinaram minhas malas
Minhas roupas
Mas se esqueceram de ver
Que eu trazia no coração
Uma saudade feliz
De Paris
LAUS DEO
NOTAS DE TRANSCRIÇÃO
Os erros tipográficos evidentes foram corrigidos.
A pontuação, a hifenização e a ortografia foram mantidas conforme o
texto original.
Foram acrescentados um índice geral dos poemas assim como das
figuras para fins de acessibilidade.