Project Gutenberg's Historias de Reis e Principes, by Alberto Pimentel

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Title: Historias de Reis e Principes

Author: Alberto Pimentel

Release Date: May 30, 2014 [EBook #45840]

Language: Portuguese

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*Notas de transcrio:*

O texto aqui transcrito,  uma cpia integral do livro impresso em 1890.

Mantivemos a grafia usada na edio impressa, tendo sido corrigidos alguns
pequenos erros tipogrficos evidentes, que no alteram a leitura do texto,
e que por isso no considermos necessrio assinal-los.


       *       *       *       *       *




Alberto Pimentel

HISTORIAS

DE

REIS E PRINCIPES

[Illustration]

PORTO

LIVRARIA GUTENBERG--Editora

Cancella Velha, 66

1890

INDICE


     I. Um rei e um conspirador          5

    II. Seis rainhas para um rei        31

   III. D. Beatriz de Portugal          67

    IV. Rei e pastor                   117

     V. Mi e filhos                   121

    VI. Tradio galante de D. Miguel  147

   VII. Maximiliano em Portugal        163

  VIII. Duas imperatrizes              195

    IX. O paiz dos meninos             265

     X. Um rei entre montanhezes       279

    XI. No harem de Marrocos           287

   XII. Idyllio de amor                295

  XIII. Na morte do Kronprinz          303

   XIV. El-rei D. Luiz nos Jeronymos   311

    XV. Rainha e viuva                 319




HISTORIAS DE REIS E PRINCIPES




    ... le roman est l'histoire des hommes
  et l'histoire le roman des rois.

      DAUDET--_Souvenirs d'un homme
          de lettres_.



<span id="chapI">I

UM REI E UM CONSPIRADOR


Ferno da Silveira, filho primogenito do baro de Alvito, foi escrivo da
puridade de D. Joo II, e figura como poeta no CANCIONEIRO de Garcia de
Rezende.

Estas circumstancias do-lhe fros de homem notavel no seu tempo. Mas a
todas sobreleva, perante a historia, a de ter sido um dos conspiradores que
mais incommodaram D. Joo II.

Parece que o rei no tinha sobejos motivos para confiar no seu escrivo.

Certo dia mandra chamar, por um moo da camara, Ferno da Silveira. D.
Joo II no se queria referir ao secretario particular, mas a outro Ferno
da Silveira, o coudel-mr, tambem poeta como o seu homonymo.

Comparecendo o escrivo da puridade em vez do coudel-mr, D. Joo II
agastou-se e perguntou ao moo da camara:

--A quem te mandei chamar?

--A Ferno da Silveira.

--No era este, replicou o rei, mas o _Bom_.

O escrivo da puridade julgou-se desconsiderado com estas palavras do rei
e, sahindo do Pao, como encontrasse no Rocio D. Martinho de Castello
Branco, desabafou com elle. D. Martinho procurou aquietal-o com bom
conselho, porm Ferno da Silveira insistiu em mostrar-se agastado contra o
rei, de quem jurou vingar-se.

--Mas o que podereis vs fazer? perguntou D. Martinho.

--Matal-o, respondeu o escrivo da puridade.

E correu d'alli a bandear-se com os conspiradores: o duque de Vizeu, o
bispo d'Evora D. Garcia, o irmo do bispo, D. Fernando de Menezes, D.
Guterres Coutinho, D. Alvaro Coutinho e seu filho, o conde de Penamacr e
seu irmo D. Pedro d'Albuquerque.

D. Joo II soube das conferencias mysteriosas dos conspiradores, celebradas
em Santarem, fra de portas.

Por mais de uma delao o soubera.

Tinha o bispo d'Evora certa manceba, de nome Margarida Tinoco, a cujo
irmo, Diogo Tinoco, ella revelra o segredo da conspirao. Foi este homem
que, disfarado em frade, procurou o rei no convento de S. Francisco em
Setubal, e lhe denunciou os conspiradores, recebendo em troca uma larga
merc, que a morte, devida talvez a peonha mandada propinar pelos
denunciados, lhe no deixou gozar.

D. Joo II recebeu outra denncia por D. Vasco Coutinho, a quem seu irmo
D. Guterres pozera ao facto da conspirao. D. Vasco arrecadou em premio o
condado de Borba, importando-se pouco com perder o irmo, que veio a acabar
preso na torre de Aviz.

Quando Ferno da Silveira teve conhecimento d'esta delao, e da exploso
da colera do rei para com o duque de Vizeu, exclamou:

--Soube D. Vasco aguar os pescoos!

Foi, como se sabe, em Setubal que D. Joo II quiz por suas proprias mos
fazer justia no duque de Vizeu. E comquanto emprehendesse esmagar a
conspirao na pessoa dos chefes, no se esqueceu o rei de outros
conspiradores menos qualificados. Enviou officiaes a casa de Ferno da
Silveira para que o prendessem. D. Joo II sentia-se profundamente
indignado contra o seu escrivo da puridade, que desde pequeno crera no
Pao, pelo que lhe ficra o appellido de _Moo_, honrando-o e agasalhando-o
na crte, onde o casra com D. Brites de Sousa, filha de Joo de Mello,
alcaide-mr de Serpa.

Os officiaes foram, e no acharam Ferno da Silveira. Encontraram apenas
uma barjoleta com muitos cruzados, que lhe havia confiado o duque de Vizeu
para occorrer s despezas da conspirao.

O escrivo da puridade, no tendo j tempo para fugir de Setubal, fra
esconder-se em casa de um velho escudeiro de seu pai, de nome Joo Pegas,
que no duvidou recebel-o, a despeito do perigo que por esse facto podia
correr.

Pegas metteu o filho de seu amo dentro de uma grande arca sem fundo.
Fingindo que guardava po na arca, alimentava todos os dias o conspirador.

Uma escrava preta, que havia em casa, cuidou ouvir gemidos, que sahiam da
arca. Disse-o a Joo Pegas que, receiando se descobrisse o segredo, ordenou
 preta que se calasse at que elle no dia seguinte verificasse se era
verdadeiro ou no o caso dos gemidos.

Ao outro dia, a escrava tornou a ouvir gemer. Foi dizel-o a Joo Pegas, que
se levantou do leito immediatamente, e a mandou buscar um balde de agua ao
poo.

Quando a escrava estava tirando a agua, Pegas precipitou-a no poo,
esperando cautelosamente que ella acabasse de escabujar na afflico
extrema dos afogados.

Logo que reconheceu que estava morta, gritou publicando que a escrava se
afogra.

Mas o segredo do escondrijo de Ferno da Silveira ficou no fundo do poo,
que era o que Joo Pegas queria conseguir.

Decorreu tempo, e o escudeiro tratou de fazer sahir de Portugal o seu
hospede. Valeu-se para isso de um mercador, que se chamava Bartolo, e que
levou comsigo para Sevilha Ferno da Silveira, disfarado em mendigo.

Salvo em Castella, o foragido foi bem acceito na crte de Izabel a
Catholica, e l lhe acudia com auxilios pecuniarios o conde de Benavente,
fidalgo castelhano, que fra grande amigo do pai de Ferno. Mandava-lhe
todos os mezes um saco com duzentos escudos, mas Ferno da Silveira s
tirava cinco, e devolvia o resto. O castelhano todos os mezes insistia em
igual remessa, e o portuguez no deixava de insistir na recusa da quantia
excedente a cinco escudos.

Comprehendeu o castelhano que era aquelle um homem retemperado de
invencivel altivez lusitana, e, para acabar de experimental-o, certo dia em
que se juntaram com outros fidalgos na ante-camara dos reis catholicos,
deixou o conde cahir uma luva. Ferno da Silveira, em vez de se dar pressa
em levantal-a, sentou-se n'um bufete. O conde de Benavente no desgostou
d'esta arrogancia to conforme ao espirito hespanhol, e celebrou-a. A
noticia do facto espalhou-se com applauso na crte de Castella, e chegou 
de Portugal, onde D. Joo II, comquanto sempre resentido dos aggravos
recebidos de Ferno da Silveira, e sempre implacavel nos seus projectos de
vingana, commentou a noticia com esta phrase sentenciosa:

--Ferno da Silveira aonde chegar ha de sempre ter lugar.

D. Joo II mandra citar por carta de ditos Ferno da Silveira, emquanto
estivera escondido em casa de Joo Pegas, para que se apresentasse perante
o rei e o seu conselho, no termo de quarenta dias, a fim de se livrar da
dita traio e maldade que contra ns e nosso real estado, e contra o bem,
paz, e assesseguo de nossos reinos cometera, e para sobre todo ser ouvido
com o dito procurador fiscal da nossa justia.

Passou-se o praso de quarenta dias, e Ferno da Silveira no appareceu.
N'essa no cahia elle, que bem sabia a sorte que o esperava se apparecesse.

Chegou o dia da audiencia, e o porteiro do tribunal, Joo Trancoso,
apregoou o ro. Como se no apresentasse, nem outrem por elle, o procurador
da justia offereceu o libello articulado sobre os seguintes factos
criminosos:

Que ns criramos o dito reo de moo pequeno, e que sempre lhe fizeramos
muita honra, gasalhado, e merc, casando-o, e dando-lhe muita renda com
vontade, e teno de o muito honrar, e acrecentar, e fiando ns d'elle
nossos segredos, e conselhos, encarregando-o muitas vezes de nosso escrivo
da Puridade, fiando ns nossa vida d'elle reo, e sempre o dito reo obrigado
a nos guardar lealdade no smente como nosso criado, mas ainda como
vassalo, e nosso subdito, elle o fizera muito pelo contrario, antes como
desleal desobediente Portuguez, fizera, tractra, ordenra e aconselhra
contra ns, e nosso Real Estado, bem, paz e assesseguo, e prol comunal
d'estes nossos reinos e senhorios, as coisas que se adiante seguem. A
saber, que elle dito reo com o Bispo d'Evora, e com D. Diogo, que foi Duque
de Vizeu, tractou, conjurou, e ordenou muitas desleadades contra ns, e
contra o Principe meu sobre todos muito Amado, e Prezado Filho, tractando,
e ordenando muitas vezes, assim na Cidade de Evora como nas Villas de
Santarem e Setubal, e outros lugares de nos matarem, e ao dito Principe meu
Filho, e de se alevantarem com as Villas, e Fortalezas que o dito Duque
tinha, e outras quaesquer, que podessem haver, tractando de metter gente de
fra d'estes reinos para poderem pr em obra o seu mau e desleal proposito,
e para contra quem quer que lh'o embargar quizesse, sendo o dito reo o que
principalmente tractava contra ns, induzindo para isso o dito Duque, como
do feito induziu, e outros seus amigos, de que se elle reo fiava, e o
principal conspirador e ajuntador, dos que no dito tracto e conspirao
eram contra ns, e sendo o recebedor, e o que dispendia os dinheiros que
para as ditas traies, e maldades eram juntos, e o pagador d'elles, a quem
era ordenado, como dos ditos dinheiros pagra quinhentos cruzados a Pero de
Albuquerque, para abastimento da Fortaleza do Sabugal, e assim a D. Alvaro
d'Athayde, certa somma de dinheiro que vier em verdade. E que logo como o
dito Duque D. Diogo foi morto, e o Bispo, e alguns dos outros conjurados
presos, pelas ditas maldades e traies serem reveladas a ns, elle dito
reo, temendo-se do que feito tinha, logo sem mais detena se partiu, e foi
d'estes reinos, e amarou sem mais nunca n'elles apparecer, nem ser visto de
seus parentes e amigos, e dos que com elle tinham conversao.[1]

Ouvido o libello pelo rei e seu conselho, foram julgados procedentes os
artigos de accusao, ordenando D. Joo II que se o ro tivesse artigos
contrarios, viesse com elles. Como no veio, correu o processo  revelia,
sendo admittida a prova do procurador da justia, o qual offereceu a
inquirio devassa que por este motivo havia sido tirada.

Ferno da Silveira teve conhecimento dos ditos de citao; mas s quando
se viu salvo em Castella ousou denunciar o seu paradouro, no escrevendo
uma justificao judicial, mas dirigindo particularmente ao rei uma carta
audaciosa, de que vamos extrahir alguns periodos:

... eu dias ha que estou n'esta Crte de El-Rei e da Rainha de Castella,
meus Senhores, e bem se sabe em Portugal: poderia tambem responder a elles
(ditos) por direito, outras razes poderia dar n'este caso, mas no quero
alongar a escriptura e ainda d'estes me quero lanar fra; smente digo que
os ditos contra mim postos so mandados pr por vs ante quem o direito
nem justia no vale nada, nem ousa ninguem de os julgar que claramente
sobre os ditos que contra Ruy Lopes Coutinho mandaveis pr, dizem de vs
os letrados que no era de direito de se prem na forma que querieis,
dissestes _que quem aquillo dissesse o mandarieis esfolar e cobrir a
cadeira de sua pelle_ e isto ao Doutor Nuno Gonalves, que quizestes lanar
a perder por uma sentena que deu segundo lhe parecia direito no feito de
Cezimbra; d'estas taes pudera dizer muitas, mas, sobre cousa to clara como
a vossa injustia, no cumpre muitas provas, bem se sabe que nenhum homem
em vosso reino no ha de julgar, seno o que vs quizerdes, e bem se sabe
que  o que vs quereis; e deixando todas estas cousas, smente digo que
apllo de vs para Rei direito e justioso, e que o merea e deve ser, e
ainda que para isto ahi no houvesse prova seno as obras que fazeis
abastariam afra outras cousas que tenho caladas para quando cumprir, assim
que vossos ditos para mim no so de nenhum valor, nem fora, e protesto
que cousa que n'elles digaes, nem sentena que por elles contra mim se der,
no me possa damnar nem empcer em nenhum tempo que seja.

Ora, Senhor, vos quero dar conta de mim e da causa que em minha sahida
d'esse Reino e o porque sei que tanto desejastes, e trabalhastes de me ver
 mo, o que principalmente foi, porque eu no contasse a verdade d'este
feito, e de como mal e como no devieis matastes o Duque de Vizeu que Deus
haja, e eu ouvindo a crueldade de sua morte e lembrando-me o mal que muito
tempo me querieis e mui sem causa, e quanto agora me quereis pelo bem que o
Duque me queria, pareceu-me que no devia estar  misericordia de quem no
tem nenhuma nem esperar vossas injustias e crueldade, as quaes em mim sei
que muito desejaveis executar que pela grande que com o Duque que Deus haja
tinha cuidaveis que saberia a causa da sua morte, a qual no foi outra
seno o grande mal que sempre lhe quizestes e os grandes aggravos e
deshonras que lhe fazieis, as quaes seriam cousa larga de contar, se
houvesse de contar das escripturas e doaes que lhe furtastes do cofre que
a Senhora Infanta sua me deixou em guarda da Rainha vossa mulher, e de
como nunca lhe confirmastes cousa que tivesse, antes lhe quebrastes cada
dia suas cartas e privilegios e mandaveis a letrados a revolver livros para
lhe tirar a vintena da Guin, afra na paga d'ella terdes tal forma que a
mr parte lhe levaveis, e quebrastes-lhe o trato da canella e fizestes que
em Crtes que vos requeressem que lhe tivesseis as saboarias e o montado, e
tirastes-lhe o desembargador que trazia na casa e tirastes-lhe a
jurisdico dos rendimentos das suas rendas, e dissestes que se vos no
tornasse a Ilha da Madeira por terras do Duque que lh'a deitarieis a
perder, e deixando estas cousas e outras muitas que contra elle tendes
feito e commettidas tocantes  sua fazenda, nas quaes ia a maior parte do
seu estado e em muitas todo lhe fazieis e ordenaveis outras em que lhe ia
honra e vida, so tratal-o mui descortez e soberbamente e fallares n'elle
mui feiamente chamando-lhe rapaz e necio, e que no era para nada, e
trazerdel-o em vossa Crte a seu pesar, que por preso o haviam todos, no
querieis consentir que casasse com uma filha d'El-Rei meu Senhor, e mui
honradamente casra, nem quizestes que casasse Irman com elle desejando-o
ella, e tendo vs promettido  Infante sua Me que farieis n'isso o que
pudesseis, fizestes o contrario, por onde visto est, que querieis que elle
no casasse com ninguem por no haver filhos que herdassem o seu, e d'isto
ha outra mui mais certa prova que estas, que  certo que lhe mandaveis dar
cousa para no haver gerao, e foi-lhe descoberto, depois lhe foi dito
como mandaveis alguns que o matassem de noite indo elle fra s, fingindo
que o no conheciam, e foi avisado, e guardou-se, e depois foi avisado
agora em Santarem, que com um cosinheiro trataveis para lhe dar peonha,
assim que claro est que dias ha que tinheis determinado de fazer o que
fizestes e mais o matastes porque vos elle devia matar que por querer
matar, que se elle tal quizera, no andra to mal apparelhado para tal
negocio nem viera s ver-vos e deixra-vos os mais dos seus em Palmella,
nem os que com elle culpaes no estiveramos to mal apercebidos, que eu
n'esse mesmo mez no mandra com meus Irmos os meus escudeiros e
encavalgados, nem lhe dra os meus cavallos e armas de minha pessoa e
quella hora estava em casa de meu Pai que Deus haja, sem saber que o Duque
era ido nem D. Alvaro de Athayde vos houvera de matar em Santarem nem D.
Pedro de Athayde inda no ventre, eu muitas cousas pudera dizer em prova
d'isto, mas abasta o que todo o mundo sabe, que matastes o Duque mal, e
como no devieis e por mau respeito, e isto pudera bem provar por direito e
leis e ordenaes, mas porque seria longura ser melhor que vamos pr a
batalha: eu estou aqui e affirmo uma duas ou tres vezes, que matastes o
Duque mal e como no devieis, e aleivosamente, e o defenderei a quem por
vossa parte me desafiar, e isto darei empreza para vs mandares tomar a D.
Vasco no j que elle tomou, e d'esta guiza me devieis vs mandar matar que
no  traio, _como me dizem que mandais_ e se por vossa pessoa isto
houvera de ser feito, bem sei que vos no porieis n'este risco, assim
porque sabieis a verdade como por ali, e se isto se ordenar para que venha
a fim, por aqui se saber a verdade, porque eu espero que ser n'isto to
inteiro juizo como em tudo, e se vos disto escuzardes n'elle espero que
mostrar tal juizo de vs o qual merecem essas obras, e que vingar no
sangue dos mortos, por mos dos vivos, etc...[2]

No final da carta, que  um documento importantissimo para a historia da
poca, allude Ferno da Silveira  phrase dita por D. Joo II ao moo da
camara, phrase que determinou o seu procedimento contra o rei:

... mas como natural e amigo d'esses reinos e por bem d'elles vos
desservirei em tudo o que puder, porque todo o desservio e nojo que fizer
a vs vem a essa terra e gente d'ella assim grandes como pequenos, os quaes
praza a Nosso Senhor livrar da sujeio e captiveiro em que vivem, e de mim
digo que serei sempre tal inimigo como devem de ser todos os _bons_...

O processo subiu concluso perante o rei em Relao com os do seu Conselho e
Desembargo, sendo proferida sentena condemnatoria a dez de junho de 1485,
dada na villa de Portel:

... condemnamos, e mandamos onde quer que fr achado, e tomado, e
comprehendido dentro em estes Reinos, e seus Senhorios, e em qualquer
Cidade, Villa, ou Lugar d'elles, logo morra cruel morte natural, e seja
esquartejado, e seus quartos de seu corpo sejam postos nas portas da
Cidade, Villa, ou Lugar onde fr preso, e a sua cabea seja posta no
Pelourinho: e isto sem elle mais ser ouvido, nem requerido, visto como este
maleficio  claro, e notorio, e que elle principalmente e primeiro o
commetteu, tratou, conspirou a dita maldade, e traio: e havemos todos
seus bens moveis, e de raiz, e assim os da Cora do Reino, se os trazia, e
os patrimoniaes, e declaramos por confiscados e applicados  Cora Real
d'estes nossos reinos, a que direitamente pertencem.

Dois annos depois, ainda Ferno da Silveira estava em Castella, protegido
pelos reis catholicos, que se recusavam a entregal-o a D. Joo II.

Em 1487, n'um conselho realisado em Santarem, ventilou-se a questo de
assentar no destino a dar s mulheres dos conspiradores, sobre as quaes
recahiam suspeitas de estarem em intelligencia com os maridos.

Os drs. Ferno Rodrigues e Nuno Gonalves foram de parecer que deviam ser
enviadas com os filhos aos maridos, no s _para no peccarem com outros_,
mas tambem porque no deviam pagar pelas culpas d'elles. E ainda porque os
filhos dos conspiradores constituiriam um foco permanente de conspirao
pelo desejo que teriam de vingar os pais.

Ao dr. Joo Teixeira, chanceller-mr, pareceu melhor no renovar a
lembrana de factos que o tempo ia esquecendo. Que, mais aquietadas as
paixes politicas, bem podiam os filhos dos conspiradores ser leaes
servidores d'el-rei.

Por isso entendia que se deixassem sahir com seus filhos e haveres as que
quizessem ir reunir-se aos maridos; mas que no fossem obrigadas a fazel-o
todas, indistinctamente.

Os restantes membros do conselho concordaram com este alvitre. O rei tambem
concordou.

Ento Ruy de Sousa disse saber que a mulher de Ferno da Silveira folgaria
de ir para o marido.

Ora um documento da poca, que suppomos inedito, diz qual foi a resposta de
D. Brites de Sousa:

Esta parte tomou el-rei de as no mandar constrangidamente, e mandou a
esta de Ferno da Silveira saber se se queria ir, e ella escolheu a parte
de estar no reino por ento.[3]

Uma tal resposta surprehendeu decerto o leitor, por no ser conforme com a
declarao que no conselho d'el-rei fizera Ruy de Sousa.

Tem comtudo uma explicao, e o leitor vai sabel-a.

D. Brites de Sousa tinha realmente manifestado desejo de ir viver com seu
marido em Castella.

Pesava-lhe a vida que levava longe d'elle, com um filho pequeno nos braos.
Chamava-se Joo o filho legitimo de Ferno da Silveira. O conspirador tinha
outro filho, illegitimo, que houvera de uma manceba de nome Izabel
Rodrigues, e que havia nascido em 1480.

D. Brites chegra a fallar aos do conselho d'el-rei para que lhe obtivessem
a concesso de passar a Castella. Mas obtida a concesso, soubera que
Ferno da Silveira tinha mandado ir a manceba e o filho.

O seu corao amantissimo no foi superior a este golpe. Resolveu no ir
para castigar a infidelidade do marido, que no homisio preferira as
consolaes da familia illegal s da familia legitima.

Eis-aqui a raso que determinou a recusa de D. Brites.

O certo era que Ferno da Silveira vivia em Castella sem disfarces de
mancebia. A sua existencia, cortada de continuos sobresaltos e receios, que
o faziam esperar a toda a hora o punhal assalariado por D. Joo II, achava
lenitivo nas expresses affectuosas da manceba, que na desgraa se tornra
mais dedicada.

Sabia o foragido que o rei de Portugal procurava constantemente actuar no
animo de Fernando e Izabel para leval-os a entregarem-lhe o conspirador.
Receiava que os reis catholicos viessem a ceder, e n'esse caso contava com
uma infallivel morte ignominiosa, com uma vingana terrivel que nem os seus
restos mortaes respeitaria. A pelle do seu corpo serviria para cobrir a
cadeira de D. Joo II.

Em Castella, nas horas em que no frequentava a crte, onde assiduamente
concorria para sondar a seu respeito o animo de Fernando e Izabel,
fraquejra por vezes aquelle homem forte, cuja altivez assombrra o conde
de Benavente, e merecra elogio ao proprio D. Joo II.

Perante a rigidez indomavel do rei de Portugal, antolhava-se-lhe desolador
o futuro. Se lograsse escapar aos sicarios armados pela colera de D. Joo
II, o que era muito pouco provavel, teria que viver e morrer longe da
patria com o labo de conspirador, sempre vexado pela necessidade de
receber agasalho e proteco.

As sombras da noite punham-lhe no espirito o constante receio de
emboscadas; atravessava as ruas com o sobresalto com que pde atravessar-se
um serto povoado de fras. No se permittia a fraqueza do medo, no
evitava as horas sinistras da noite, por mais que Izabel Rodrigues lh'o
pedisse; mas tinha sempre presente o espectro da morte por traio.

Quando recolhia a casa, esquecia nos braos carinhosos da manceba, que lhe
apresentava o filho, os sobresaltos d'aquelle dia, e repousava como o
naufrago n'um porto de abrigo.

s vezes tinha furias de raiva contra D. Joo II, o assassino do duque de
Vizeu, o flagello da nobreza portugueza, como elle lhe chamava. Retratava-o
moralmente como um tyranno sedento de sangue e poder. Justificava a reaco
da nobreza, e a sua, declamava como um verdadeiro jacobino do seculo XV,
como um _sans-culotte_ que se tinha antecipado trezentos annos aos da
demagogia franceza.

A manceba ouvia-o tremendo com o filho sentado nos joelhos, e procurava
aquietal-o com palavras brandas.

Mas Ferno da Silveira perguntava-lhe se poderia ter animo tranquillo e
sereno um homem a quem D. Joo II, se o apanhasse, faria esquartejar,
pregando-lhe os quartos nas portas de qualquer cidade ou villa, e a cabea
no pelourinho da praa publica.

Lembrava-lhe que o odio de D. Joo II costumava ser to profundo e
sanguinario, que no respeitava nem as regalias de nascimento nem os laos
de parentesco.

Perguntava-lhe se no sabia que o duque de Bragana fra decepado no
cadafalso da praa de Evora; que em Abrantes cevra D. Joo II a sua
vingana na estatua do marquez de Montemr j que, por se ter refugiado em
Castella, no podra ceval-a no seu corpo; que o duque de Vizeu, cunhado do
rei, fra por elle proprio assassinado em Setubal. Agradecia  Providencia
o ter-se encarnado na pessoa de Joo de Pegas para o salvar; seno,
haver-lhe-ia acontecido o que acontecra a D. Pedro de Athayde, que fugindo
de Setubal para Santarem fra preso no caminho, publicamente degolado e
feito em quartos.

Os fidalgos castelhanos continuamente estavam avisando Ferno da Silveira
das repetidas instancias que D. Joo II fazia junto dos reis catholicos
para que lh'o entregassem. O conspirador teimava em no querer parecer
fraco, deixava-se ficar, sempre intimamente sobresaltado e desconfiado.

Mas em 1488, como D. Joo II enviasse a Castella uma embaixada a pedir para
o herdeiro da cora a mo da filha primogenita dos reis catholicos, Ferno
da Silveira, receiando que pelo facto do casamento se estreitassem, como
era natural, as relaes de amizade entre as duas crtes, resolveu-se a
fugir para Frana acompanhado pela manceba e pelo filho.

No devia, porm, considerar-se muito seguro em Frana um conspirador
representante da nobreza insurgida contra o poder absoluto dos reis.

Luiz XI, que tinha morrido poucos annos antes, em 1483, havia sido um
inimigo implacavel dos poderosos senhores do seu reino, que formaram contra
elle a celebre liga do _Bem publico_. Sabe o leitor que Luiz XI se fizera
rodear de gente de baixa estofa, que continuamente atiava a colera do rei
contra a nobreza. Vivra mano a mano com o seu barbeiro Olivier Le Daim, e
tratava por compadre o preboste Tristan, executor dos seus planos
sanguinarios.

Estava ainda muito viva a lembrana das crudelissimas represalias de Luiz
XI,--da vingana que tirra do seu ministro Jean Balue, que de simples
presbytero chegra a ser cardeal de Santa Suzana e que, suspeito de ter
atraioado o rei com o duque de Borgonha, fra, no castello de Plessis,
encerrado n'uma gaiola de ferro, onde no podia conservar-se deitado nem de
p; do supplicio horrivel de Jacques d'Armagnac, duque de Nemours, e de
seus filhos, na fortaleza de Loches; finalmente do drama tragico-burlesco
dos ultimos tempos da sua vida n'aquelle mesmo castello de Plessis, onde
Jean Balue padecra, e onde Luiz XI, assaltado pelos terrores da morte,
fazia vigiar as avenidas pelo barbeiro Olivier e pelo compadre Tristan, que
se encarregavam de enforcar nas arvores do parque todo o individuo que
podesse inspirar-lhes desconfiana.

Luiz XI havia pois morrido em Plessis, onde passra os ultimos dias
passeiando ao longo d'uma vasta galeria, torturado pelo medo da justia
eterna, sem que podessem tranquilizal-o o espectaculo dos combates de gatos
e ratos, as danas dos camponezes, as oraes e as penitencias a que se
entregava, e sem que podesse avigoral-o o uso de beber o sangue das
creanas no intuito de fortalecer-se e remoar.

Nem este tonico vivificante, nem o soccorro do eremita da Calabria, que
mandra buscar para consultal-o, e ao qual pedia a vida chorando, haviam
podido salvar da morte Luiz XI.

O herdeiro do throno, Carlos VIII, tinha treze annos quando foi proclamado
rei, e sua irm, Anna de Beaujeu, investida na regencia, procurava
conservar intacto o poder real, dominando a nobreza.

Depois da batalha de Saint-Aubin, ferida em 1488, em que o duque de Orlans
cahira prisioneiro nas mos da regente, que o conservou dois annos
encarcerado, diz-se que, principalmente, para vingar-se dos seus desdens
amorosos, Ferno da Silveira entendeu como mais prudente abandonar uma
crte, onde a nobreza continuava a ser esmagada pelo poder real, e foi
estabelecer o seu _faux mnage_ em Avinho, a cidade sagrada, que um legado
do papa governava.

Em Avinho, Ferno da Silveira tinha horas de cerrada melancolia, quando
ermava contemplativo junto ao tumulo da Laura de Petrarcha, e aproximava o
seu destino do destino do poeta italiano, ambos infelizes, posto que por
differente motivo.

Petrarcha apaixonra-se aos vinte annos pela bella Laura, que nunca foi
sua, pois que desposra Hugues de Sade, a quem, victima da peste de 1348,
deixra viuvo com a descendencia bem pouco lyrica de onze filhos.

Ferno da Silveira, menos infeliz pelo que respeitava ao feminino, tinha
comsigo, em mancebia adulterina, a sua Laura, a qual procurava suavisar-lhe
as horas amargas da vida, que eram todas ou quasi todas.

Mas como poeta e exilado, comprehendia a solido dolorosa de Petrarcha em
Valchiusa,  beira de cuja fonte o portuguez ia muitas vezes sentar-se
juntando idealmente as suas angustias s do poeta que, tendo alli cantado
um seculo antes, vivra solitario como elle e como elle perseguido pela
fatalidade do destino.

Entrado o anno de 1489, o espirito de Ferno da Silveira principiou a ser
assaltado por sombrios presentimentos, que elle baldadamente procurava
reprimir.

Tinha frequentes accessos de colera, que o sorriso de seu filho, creana de
pouco mais de oito annos, no lograva serenar.

Imprecava violentamente D. Joo II, que continuava a denominar o tyranno de
Portugal.

Dizia muitas vezes a Izabel Rodrigues que a justia do co havia de cahir
tarde ou cedo sobre o tyranno, e feril-o na mais sensivel fibra do corao,
se aquelle corao tinha alguma coisa de humano. Parecia que Ferno da
Silveira adivinhava n'esse momento a catastrophe que, tempo depois, havia
de victimar em Santarem o joven principe D. Affonso, herdeiro da cora.

Recommendava-lhe que, no caso d'elle morrer assassinado por ordem de D.
Joo II, como presentia, educasse seu filho no odio ao tyranno e no amor da
liberdade.

Mostrava alimentar a esperana de que a sua morte e a dos outros
conspiradores seria vingada pelo veneno ou pelo punhal na pessoa do rei.

Ainda n'isto se no enganou Ferno da Silveira, porque os intestinos de D.
Joo II parece terem cedido lentamente  aco toxica das drogas preparadas
por mestre Joo de Masago de accrdo com o duque de Beja.

O inverno de 1489 havia sido cruel em toda a Europa. Estava-se em dezembro,
os dias eram plumbeos, as noites tempestuosas.

Ferno da Silveira dizia muitas vezes a Izabel Rodrigues:

--A cada silvo do vendaval sinto-me estremecer interiormente, como um predio
que vai desabar...  o presagio da morte, Izabel. Morro longe da patria,
longe da familia que eu constitui em tempos de felicidade. Morro ao p de
um filho, e tenho saudades de outro. O corao  assim feito. Foi o tyranno
que me casou, porque na crte dos reis poderosos nem o corao  livre.
Nunca tive nem podia ter por minha mulher a febre de amor com que tu me
incendiaste os sentidos.  a ti que eu amo, boa alma, que tanto te tens
dodo das minhas dres. Vivo comtigo com o mesmo direito com que o tyranno
abandonava a rainha para se ir emboscar em Cernache do Bom Jardim com D.
Anna de Mendona, a me do bastardo. Se alguem n'este ponto podesse
tomar-me contas, no era por certo o tyranno, to fragil com mulheres. Mas
da esposa que no amei nunca, tenho um filho que sempre tenho amado, e
peza-me que elle haja de arrastar na sociedade a infamia com que o tyranno
enlameou protervamente o meu nome. Outro filho tenho...  o teu,  o nosso,
Izabel, e d'esse me peza duplamente, porque s pde ser meu filho para
compartir da deshonra do pai com o irmo.

Izabel Rodrigues acudia com palavras carinhosas a desviar-lhe o espirito
para menos lastimosos pensamentos, mas o conspirador quedava-se triste,
calado, dando a perceber que continuava mentalmente os raciocinios que a
manceba meigamente pretendra interromper.

No dia 8 de dezembro, Ferno da Silveira lembrra-se saudosamente de
Portugal, recordando com grande nitidez de memoria muitos episodios da sua
vida da crte. Izabel Rodrigues tentou distrahil-o; e como no co,
anteriormente caliginoso, se fossem rasgando clareiras azues, lembrou-lhe
que sahisse a passeio.

Dos labios do conspirador escaparam em resposta estas palavras presagas:

--Sahir! Procurar a morte!

Mas como se de subito se envergonhasse da sua fraqueza, disse a Izabel
Rodrigues que sahiria.

Lembrou ella que levasse comsigo o filho, que bem podia attrahir-lhe a
atteno para as suas graas infantis.

Ferno da Silveira sahiu, e levou o filho.

Foram, caminho fra, conversando os dois.

Obedecendo  teimosia dos seus pensamentos, Ferno da Silveira ia fallando
de Portugal ao filho, gravando na sua memoria, a traos de fogo, o retrato
odiento do tyranno.

 volta de uma rua, encontraram-se a pequena distancia com um fidalgo
catalo, cujo nome e situao Ferno da Silveira muito bem conhecia. Era,
como elle, um conspirador, que andava foragido de Castella: o conde de
Palhaes.

O catalo, em vez de se dispr a saudar Ferno da Silveira, levou a mo
direita ao peito, insinuando-a no gibo. E, ao passar junto de Ferno da
Silveira, cravou-lhe rapidamente um punhal no corao.

No teve o portuguez tempo para resistir; cahiu desamparado na rua.

Mas o pequeno Alvaro, vendo o pai morto, desatou em gritos dilacerantes,
que despertaram as attenes, e chamaram gente.

O conde de Palhaes foi logo preso, conduzido ao carcere em nome do rei de
Frana, que no era j Luiz XI, como sabemos, porque Luiz XI havia morrido
seis annos antes.

A opinio publica alvorotra-se com este acontecimento, pela significao
que realmente tinha. O brao do conde de Palhaes fra manifestamente armado
por D. Joo II, que ao catalo fizera _merc de muita somma de ouro, em que
se primeiro concertou_, como escreve Garcia de Rezende. No podra o rei de
Portugal ser feliz nas negociaes que para haver  mo Ferno da Silveira
entabolra com os reis catholicos e com o rei de Frana. Ter-lhe-ia sido
por certo bem mais agradavel que essas negociaes houvessem surtido
effeito, porque lhe permittiriam vingar-se do escrivo da puridade pelo seu
proprio brao, como fizera ao duque de Vizeu, ou pelo brao do algoz, como
fizera ao duque de Bragana. Mas, posto falhassem os meios a que primeiro
recorrra, no desistra da vingana. Empregou outros, o da corrupo pelo
ouro, sob promessa talvez de que, alm do ouro, a sua proteco salvaria o
sicario.

N'este ponto enganou-se D. Joo II.

Morto Ferno da Silveira pelo conde de Palhaes, o rei de Portugal quiz
effectivamente valer-lhe, como decerto havia promettido. Mas o mais que
pde conseguir foi que a regente, em nome do rei de Frana, lhe commutasse
a pena de morte em priso perpetua.

 natural que o catalo dsse ao diabo a empreza, vistos os resultados. O
ouro que recebra no podra ganhar-lhe a liberdade; e D. Joo II apenas
logrra salvar-lhe a vida.

Alvaro Rodrigues, o bastardo de Ferno da Silveira, fra conduzido a casa
por pessoas compassivas que o acompanharam. Levava o fato salpicado de
sangue do pai, e impressos para todo o sempre na memoria os pormenores do
seu tragico assassinato.

A me abraou-se chorando ao filho, e rompeu em apostrophes violentas
contra o tyranno que assalarira o sicario para que elle,  luz do dia,
perpetrasse um homicidio dentro da cidade dos papas.

Na memoria infantil do pequeno Alvaro condensaram-se, em torno da
recordao do cadaver do pai, todos estes lugubres accessorios, que as
lagrimas e os clamores da me a cada momento renovavam.

Quando a noticia chegou a Portugal, outra me, D. Brites de Sousa,
esquecendo na sua dr as infidelidades do marido, recordou a Joo da
Silveira, seu filho, a historia lacrimosa do pai. Era ento menino de
poucos annos Joo da Silveira, mas a recordao do pai, sempre avivada pela
narrativa da viuva, fez-lhe grave e triste o caracter. Demais a mais, Joo
da Silveira herdra o talento poetico do pai. Foi, mais tarde, um dos
glosadores dos seres da crte, e um dos poetas do CANCIONEIRO de Garcia de
Rezende.

Educou-o a expensas suas D. Diogo Lobo, seu tio, e tambem poeta.

D. Manoel, subindo ao throno, tratou de rehabilitar os conspiradores. A
Ferno da Silveira rehabilitou-o na pessoa do filho legitimo, que comeou a
sua carreira publica por ir servir em afim. Joo da Silveira chegou a ser
commendador de Montalvo, governador de Ceylo, trinchante de D. Joo III,
e seu embaixador em Frana. Morreu em Evora, e foi sepultado na capella do
Espinheiro.

Os dois filhos de Ferno da Silveira nunca se deram. A bastardia de um
explica naturalmente o facto. Izabel Rodrigues, recolhendo a Portugal, no
recorreu  proteco de D. Brites de Sousa, nem D. Brites de Sousa lh'a
offereceu.




<span id="chapII">II

SEIS RAINHAS PARA UM REI


O que eu vou contar  uma historia verdadeira, to verdadeira como ter
havido em Inglaterra um rei chamado Henrique VIII, que casou com seis
mulheres e que, sem ter morrido a primeira, passou a segundas nupcias,
contra a vontade do Padre Santo.

Aqui principia, pois, todo o interesse do conto, porque, por causa de uma
mulher, como sempre acontece, separou-se a Inglaterra da communho
catholica de Roma.

Aquelle rei dos bretes, que ao depois havia de sahir to voluvel e
tyranno, foi na sua mocidade um bom principe, muito amante da musica e das
letras e, no respeitante a religio, muito orthodoxo. Seu pai, o primeiro
soberano Tudor, acabra dominado pela mania da ambio, que o levra a
vexar o povo, de modo que sorrira com Henrique VIII a esperana de uma nova
poca melhor auspiciada, tanto mais que o rei, acclamado em 1509, tinha
casado aos dezeseis annos com a viuva de seu irmo o principe de Galles, D.
Catharina de Arago, princeza virtuosa, que o devia aconselhar
prudentemente, sendo que este casamento era duplamente vantajoso, porque
d'elle dependia a alliana com a Hespanha e porque evitava que a Inglaterra
tivesse que restituir o dote da princeza.

To orthodoxo era o joven rei Henrique, que se condecorava com o titulo de
_defensor da f_ porque, tendo rebentado o grande scisma de que Luthero
fra a cabea visivel, escrevra contra o lutheranismo, guiado pelas suas
predilectas leituras de S. Thomaz d'Aquino, um livro que intitulou _De
septem sacramentis_.

O cardeal Wolsey, arcebispo de York, que procedia de baixo nascimento, era
junto de Henrique VIII um ministro absoluto. Ora  rainha Catharina pesava
que todo o poder residisse de facto nas mos d'esse homem ambicioso, e como
o cardeal o soubesse, espreitou occasio propicia para tirar vingana da
rainha.

Conhecendo que Henrique VIII estava namorado de Anna Boleyn, filha do
gentilhomem Thomaz Boleyn, procurou despertar na alma do rei certas duvidas
a respeito da legalidade do seu casamento com D. Catharina d'Arago,
casamento que alis havia sido realisado por auctoridade de uma bulla do
papa Julio II.

A rainha Catharina, mais velha seis annos do que Henrique VIII, tinha-lhe
dado cinco filhos, mas s uma sobrevivra: a princeza Maria. N'isto quiz o
cardeal Wolsey vr castigo do co, porque o Levitico fulmina penas contra
todo aquelle que desposar a viuva do irmo. S. Thomaz d'Aquino, o auctor
predilecto do rei, parece que tambem diz a este respeito alguma coisa. Mas
dissesse que no dissesse. O que o cardeal queria era explorar em proveito
proprio a paixo do rei por Anna Boleyn.

Henrique VIII gostou de encontrar uma porta aberta ao divorcio. E sem mais
demora apparentou os seus escrupulos  rainha.

D. Catharina d'Arago disse que apenas um anno fra casada com o principe
de Galles, que, pelo seu mau estado de saude, no podra consummar o
matrimonio. Que depois, para o segundo casamento, houvera dispensao de
Roma. O rei objectou que desejava vr a bulla. E a rainha expediu logo, a
buscal-a, um gentilhomem seu que se chamava Montoya, e que dentro de vinte
dias viera a Hespanha e voltra a Inglaterra com a bulla.

Ento Henrique VIII procurou um novo subterfugio: que queria saber de Roma
se a bulla era falsa ou verdadeira.

E ordenou que, durante dez dias, ninguem, a no ser o seu emissario de
confiana, podesse sahir para Roma.

A rainha, como isto soube, valeu-se ainda de Montoya para que sem demora
partisse occultamente para Antuerpia, e d'alli, tomando um navio flamengo,
procurasse chegar a Roma primeiro do que o postilho do rei.

Assim aconteceu. O papa, recebendo Montoya, disse-lhe que a bulla era
verdadeira, e que a enviaria a Inglaterra por mo do cardeal Campeggio. E o
mesmo respondeu ao emissario de Henrique VIII, que ficou desesperado quando
teve conhecimento do modo como as coisas haviam corrido.

A rainha, para segurar a vida de Montoya, mandou-lhe recado que se
demorasse em Brugges, e ahi esperasse ordens suas.

Entretanto chegra a Inglaterra o cardeal Campeggio. O rei tomra por seu
patrono o cardeal Wolsey, a rainha o cardeal Campeggio, e marcou-se o praso
de um mez para que cada um dos conjuges litigasse o seu direito.

Catharina de Arago mandou procurar em Brugges um advogado que, tendo medo,
no acceitou a procurao, de modo que a rainha ficou sem outro defensor
alm do cardeal Campeggio.

E reunido um conselho de dezeseis lettrados, oito por parte do rei, oito
por parte da rainha, declarra um dos lettrados do rei que o principe de
Galles, segundo duas testemunhas podiam jurar, tivera conversao com D.
Catharina, porque certa manh, sahindo da alcva, dissera alegremente que
tinha passado a noite em Hespanha...

A rainha, ouvindo isto, levantou-se indignada, replicando:

--Que o testemunho era aleivoso, por quanto o rei Henrique bem sabia como a
havia encontrado.

E, ouvidos tambem os debates theologicos entre os cardeaes inglez e
italiano, o conselho dos lettrados reconheceu a dispensao por boa e
authentica, ficando resolvido que aquelles dois dignitarios da Igreja
dariam sentena no dia seguinte.

O cardeal de Wolsey, vencido n'esta lucta, foi desculpar-se junto do
monarcha, que o repelliu agrestemente, accusando-o de no ter sabido levar
a cabo o seu plano.

E Henrique VIII, como cada vez estivesse mais namorado de Anna Boleyn,
chamou os duques de Norfolk e Suffolk, e outros grandes senhores do reino,
para que no dia seguinte, quando os dois cardeaes se reunissem, lhes
dissessem da sua parte que no queria que dessem sentena.

Os duques e os outros grandes senhores cumpriram a ordem do rei, e os
cardeaes no ousaram dar a sentena, indo o de Wolsey lanar-se de joelhos
aos ps de Henrique VIII para que lhe perdoasse e o deixasse sahir incolume
da crte.

Ora o rei, apesar do que se tinha passado, dissera em segredo a Anna Boleyn
que estivesse certa de que elle a havia de desposar e fazer coroar rainha.

Despedindo o cardeal Campeggio, Henrique VIII fez-lhe saber que estava
resolvido a no reconhecer por mais tempo a auctoridade do bispo de Roma, e
logo, reunindo o seu conselho, communicra-lhe esta resoluo, bem como a
de desposar Anna Boleyn.

Foi resolvido que se convocassem crtes.

Mas, para no perder tempo, o rei Henrique, que estava ento em Greenwich
com a rainha, ordenou que Catharina de Arago partisse sem demora para
Kimbolton, a vinte e seis leguas da crte, sahindo elle proprio para
Richmond.

A pobre Catharina de Arago partiu com os seus fieis criados, e o rei casou
em Richmond com Anna Boleyn, sendo celebrante o arcebispo de Cantorbery.

O rei Henrique teimra em passar atravs de todas as difficuldades.

Uma d'ellas suggeriu-lh'a a propria mi de Anna Boleyn, filha do duque de
Norfolk, que lhe pedira reflectisse no que ia fazer.

--Porque, disse a mi de Anna, se vossa magestade examinar bem a sua
consciencia, ha de achar que minha filha tambem  sua filha.

Mas o rei no achou nada.

Henrique VIII, voltando a Greenwich, mandou dizer  cidade de Londres que
passaria n'aquella cidade para ir a Westminster coroar a nova rainha, e
Londres apercebeu-se pomposamente para receber o rei Henrique e a rainha
Anna.

Tres dias depois, Henrique VIII embarcou com Anna Boleyn no bergantim real,
seguido de uma flotilha flammante, sendo saudado to estrondosamente pela
artilheria, que no ficou n'aquelle dia vidraa inteira desde Greenwich at
Londres.

O rei e a rainha pernoitaram na Torre e, no dia seguinte, Henrique VIII foi
no bergantim real para Westminster, sahindo pouco depois Anna Boleyn com
igual destino, n'umas andas descobertas, precedida de toda a cavallaria e
de gentishomens e damas em hacaneas e coches.

Anna Boleyn levava um vestido de brocado carmezim constellado de pedraria,
no collo um collar de perolas maiores do que amendoas, na cabea uma
grinalda  maneira de cora, e nas mos um _bouquet_ de flres raras e
bellas.

Na rua de Cheapside havia um arco triumphal, no sitio onde a cidade costuma
dar aos reis que vo coroar-se mil libras sterlinas, que lhes so entregues
por um anjo que desce do arco.

A rainha Anna recebeu a bolsa com o dinheiro, e guardou-a. Logo o povo, que
se lembrava de que a rainha Catharina havia mandado distribuir igual
quantia, quando lh'a deram, pelos alabardeiros e lacaios, ficou ainda mais
desconfiado do que estivera at ahi, dizendo com os seus botes que aquillo
era outra loia de rainha.

 porta de Westminster, o rei Henrique VIII esperava a rainha Anna, e,
dirigindo-se todos para o templo, foi a rainha coroada, havendo durante
oito dias grandes justas e torneios, coisa espantosa de se vr.

Ora o parlamento confirmou tudo quanto o rei havia feito: ratificou o
casamento com Anna Boleyn, jurou a legitimidade da successo que d'elle
resultasse, reconheceu a Henrique VIII o titulo e o poder espiritual de
chefe supremo de igreja anglicana, e outorgou-lhe os rendimentos outr'ora
destinados ao thesouro pontificio.

Como alguns catholicos permanecessem firmes na sua antiga crena, e no
quizessem jurar, foram presos e executados: entre outros Joo Fisher, bispo
de Rochester, e o chanceller e escriptor Thomaz Moore, a quem Erasmo
dedicou o _Elogio da loucura_, e que fra, junto de Henrique VIII, o
successor do cardeal de Wolsey.

Tambem quiz o rei obrigar a rainha Catharina e os seus fieis criados a
reconheceram por juramento Anna Boleyn como rainha, e elle como chefe da
igreja anglicana. Catharina de Arago recusou-se dignamente, mas no queria
sacrificar os criados. Elles limitaram-se a jurar que o rei se tinha feito
cabea da igreja, negando-se porm terminantemente a reconhecer Anna Boleyn
como rainha de Inglaterra.

Roma fulminra terriveis excommunhes contra Henrique VIII. Paulo III, como
j havia feito Clemente VII, anathematisra o rei de Inglaterra, citando-o
a comparecer perante o tribunal de Roma.

Mas o rei Henrique fez ouvidos de mercador, e ordenou que a filha de Anna
Boleyn, que veio depois a reinar com o nome de Izabel e o cognome de
_Virgem_ (que virgem!) fosse jurada princeza de Galles, sendo declarada
bastarda madama Maria, que tambem foi rainha, filha de Catharina de Arago.

Desde que na rua de Cheapside a rainha Anna tinha arrecadado a bolsa com as
mil libras sterlinas, que lhe dera a cidade de Londres, ficou-se sabendo
que, na balana do seu corao, o amor ao rei no pesava mais do que o amor
ao dinheiro.

Assim foi que ella cobiou a corda e as joias que pertenciam  rainha
Catharina.

Ora a rainha Catharina podia, como a condessa de Chateaubriand, quando
Francisco I lhe pediu todas as joias para as dar a Anna de Pisseleu, tel-as
mandado derreter no fogo. Mas no fez assim, devolveu-as honradamente, com
excepo da cora, porque estava guardada da mo de lord Rutland, que no a
quiz entregar emquanto a rainha Catharina foi viva.

Lord Rutland  o Martim de Freitas inglez.

Mas aquelle e outros golpes acabaram por dilacerar o corao atormentado da
boa rainha Catharina, cujos padecimentos se aggravaram mortalmente.

No seu leito de agonia escreveu ao rei uma carta, que o abbade Millot com
razo classifica de _lettre touchante_, mas que ns, graas  chronica
hespanhola de Julian de Pliego, to sabiamente annotada pelo marquez de
Molins, podmos reproduzir na integra:

Senhor meu e rei meu e marido amantissimo:

O profundo amor que vos tenho faz-me escrever-vos n'esta hora e agonia de
morte, para admoestar-vos e lembrar-vos que tenhaes conta da saude eterna
da vossa alma mais que de todas as coisas fallazes d'esta vida e de todos
os regalos e deleites de vosso corpo, por cuja causa me haveis dado tantas
penas e fadigas e vos haveis embrenhado n'um labyrintho e plago de
cuidados e angustias. Perdo-vos de boa mente tudo o que tendes feito
contra mim, e supplico a Nosso Senhor que tambem vos perdoe. O que vos rogo
 que olheis por Maria, nossa filha, a qual vos recommendo; e vos peo que
para com ella tenhaes cuidados de pai. Tambem vos recommendo as minhas tres
criadas, e que as cazeis honradamente, e todos os outros criados, para que
no padeam privaes; e alm do que se lhes deve, desejo que se lhes
entregue o salario inteiro de um anno. E, para concluir, senhor,
certifico-vos e affirmo-vos que no ha coisa mortal que os meus olhos mais
desejem do que vs.

Boa e santa alma de mulher, que morre amando o seu verdugo!

No co--e, se o ha, deve ser para os martyres que se volvem anjos--foi
Catharina gozar a eterna felicidade: aquellas grinaldas, de que falla
Shakspeare, e que ella esperava ser digna de gozar.

Porque, a proposito vem dizel-o, uma das tragedias de Shakspeare tem por
assumpto e titulo Henrique VIII. Foi Izabel, a filha de Anna Boleyn, que
lhe pediu que a escrevesse. Ora a obra do tragico inglez, a respeito de
Henrique VIII,  um producto convencional, destinado  filha da rainha
intrusa que depoz Catharina de Arago.

Anna Boleyn tinha estado na crte galante de Frana, fazendo parte da
comitiva da princeza Maria, irm de Henrique VIII, ultima esposa de Luiz
XII, e saborera ahi nas festas ruidosas do castello de Blois a vida alegre
e frivola cuja effervescencia  capitosa. Quando a viuva de Luiz XII, que
por amor d'ella se extenura, voltou a Inglaterra, Anna Boleyn, educada 
franceza, acompanhou-a. Vinha _coquette_. De mais a mais Henrique VIII era
um marido que se saciava de afogadilho, e que nos seus caprichos amorosos
tinha azas como a borboleta, para voar de flr em flr.

Anna Boleyn, que comera amando a dana e a musica, acabou por amar os
danarinos e os musicos.

Assim era que bailava nos seus aposentos com sir Henry Norreys, com Weston
e William Brereton, dois gentishomens de segunda ordem, ao som de uma
orchestra de tangedores, de que fizera parte Marcos Smeaton, um
aventureiro, filho de um carpinteiro pobre, mal vestido e afadistado.

Este Marcos Smeaton foi levado  presena da rainha para exercer a sua
prenda de menestrel, emquanto ella bailava com o primeiro gentilhomem do
rei, sir Henry Norreys; mas a rainha, impressionada pelo filho do
carpinteiro, quiz bailar com elle, mandando a uma dama que tangesse.

No v cuidar-se que esta democracia reles era privativa da crte dos
bretes.

Conta Andr de Rezende, na _Vida do Infante D. Duarte_, que este infante
tomra por companheiro um tangedor castelhano de appellido Ortiz, que lhe
tocava na guitarra _fados_ contra o papa, e trocava em sucia com o principe
graolas obscenas de calo fadista.

Marcos Smeaton entrra com o p direito nos aposentos e nas danas da
rainha Anna, porque, pouco tempo volvido, uma servilheta velha, alcoveta
industriosa, levava de noite o Marcos at ao leito da rainha.

Sir Henry Norreys e William Brereton descobriram mouro na costa, e
recalcitaram. Armou-se uma embrulhada de ciumes, tanto maior quanta era a
pompa de vestuario e galanices que o Marcos exhibia, indicando tolamente as
boas fortunas de que gozava junto da rainha Anna.

A ousadia pimpona de Marcos Smeaton desbragou-o a ponto de se mostrar
altaneiro com lord Thomaz Percy, conde de Northumberland.

Ora ainda n'esta ousadia chibante do menestrel andava o ciume, porque
Thomaz Percy, antigo namorado de Anna Boleyn, logrra ser,  sombra de
Henrique VIII, o mais feliz dos amantes.

A rainha ordenou com descaro a Percy que no maltratasse o Marcos, mas
Percy, ferido talvez mais pelo ciume do que pela desconsiderao, foi
denunciar os novos amores da rainha a Thomaz Cromwell, ministro do rei
Henrique.

Cromwell attrahiu a Londres Marcos Smeaton e, pondo-o na tortura,
arrancou-lhe a confisso das relaes adulterinas da rainha com os
tangedores e bailarinos da crte, incluindo elle.

D'alli foi Marcos Smeaton mandado para a Torre de Londres, onde no
tardaram a ser igualmente encerrados Henry Norreys, William Brereton e o
poeta Thomaz Wyat, muito protegido do ministro Cromwell.

N'este lance da nossa historia precisamos conversar um pouco a respeito do
poeta Wyat, alis famoso, comquanto amorosamente fosse mais pateta do que
poeta.

Creado desde pequeno com Anna Boleyn, estabeleceu-se entre os dois um
d'aquelles idyllios infantis de que Bernardin de Saint-Pierre deixou uma
photographia generica na pastoral de Paulo e Virginia.

Mas os devaneios d'essa idade so gorgeios de rouxinol que ascendem ao
azul, e por l ficam pairando n'uma alada melodia, que lembra toda a vida
com maior _fiasco_ do que saudade.

Emquanto a pureza dos idyllios platonicos se libra nos ares, as mulheres
positivas que os inspiraram vo c na terra saboreando as iguarias do
peccado com grande menospreo pelos poetas bucolicos que no souberam ir
alm do platonismo pigas.

Conta Pliego que a alcoveta de Anna Boleyn, na noite em que introduzira na
camara da rainha Marcos Smeaton, e no momento de o occultar com o espaldar
do regio catre, dissera para disfarce, pondo junto ao leito uma bandeja:
Senhora, aqui est a marmelada.

A marmelada era Marcos Smeaton.

Foi a isto que eu chamei metaphoricamente iguarias do peccado.

O pobre Wyat, quando Anna Boleyn subiu de marqueza de Pembroke a rainha de
Inglaterra, o mais que fez foi chorar sobre as ruinas do seu proprio
platonismo. Compoz, ahi por 1535, uma elegia com o titulo de _Forget not
yet_, que, em verso descolorida, sa pouco mais ou menos assim:

  No te esquea a constancia que meu peito
            No amor provado tem.
  Trabalhos que soffri alegremente
            No esqueas tambem.

  No te esquea do meu antigo affecto
            Seu antigo soffrer.
  Quanto implorei captivo e atormentado
            No deves esquecer.

  Provas por que passei, desdens, supplicios
            Na memoria retem.
  _Delongas que soffri pacientemente_
            No esqueas tambem.

  No esqueas o tempo que vai longe
            No seu longo correr.
  _Que jmais julgou mal meu pensamento_,
            No deves esquecer.

  No te esqueas do eleito teu d'outr'ora,
            Do amor que teve e tem.
  Do seu peito a constancia inquebrantavel
            No esqueas tambem.

Mas o sentimentalismo levava Wyat por caminho errado. Anna Boleyn, na crte
de Inglaterra, gostava mais dos musicos que das elegias.

Pensam alguns auctores que Thomaz Wiat nunca mais se avistra com Anna
Boleyn. O chronista castelhano desfaz, porm, este equivoco, dando conta da
priso de Wyat, pouco antes da propria rainha ser presa em Greenwich, onde
acabava de se celebrar um torneio e onde a sua ultima galanteria fra
deixar cahir o leno, como favor concedido aos seus amantes. Mas quem
categoricamente tira todas as duvidas  o proprio Wyat n'uma carta que
escreveu ao rei.

Quando os escandalos da rainha chegaram ao conhecimento de Wyat, aggravados
at pela suspeita de incesto commettido com o visconde de Rochford, seu
irmo, achou elle que o melhor que tinha a fazer era chorar menos e
atirar-se mais.

Uma noite, estando Anna Boleyn a oito milhas de Greenwich, Wyat montou a
cavallo e, dirigindo-se ao palacio da rainha, teve artes de se introduzir
na sua camara. Glosou-lhe,  beira do leito, uma nova declarao de amor.
Mas como a rainha se calasse, e como quem cala consente, ousou apolegar-lhe
as carnes. Estavam as coisas em bom caminho, quando de repente ouviu bater
com o p no pavimento do andar superior. E a rainha, que esperava de certo
este signal, levantou-se do leito e desappareceu por uma escada interior.
Wyat esperou por ella uma hora, mas Anna Boleyn, quando voltou, despediu-o
ariscamente.

Os platonicos, mesmo quando se propem mudar de escla, passam por uma
iniciao desastrada e ridicula.

Mas oito dias depois, como era justo, pois que tanto chorra e esperra, o
poeta Thomaz Wiat no foi menos feliz do que Marcos Smeaton e outros
musicos.

Tudo isto contou Wyat ao rei, n'uma carta escripta da Torre de Londres, e o
rei, depois de a lr, mandou soltar o poeta e ficou estimando-o tanto, que
em 1541 o enviou como embaixador  crte de Carlos V, mas Wyat morreu dos
incommodos d'esta viagem.

Os outros cumplices de Anna Boleyn no tiveram igual felicidade: o visconde
de Rochford, Henry Norreys, William Brereton e Marcos Smeaton foram
degolados. A alcoveta Margarida foi queimada.

Presa na Torre de Londres, Anna Boleyn negou os crimes de que a accusavam.
Ao bispo de Cantorbery disse ella:

--Eu bem sei a causa de tudo isto. O rei anda namorado de Joanna Seymour, e
achou este meio de se desfazer de mim.

A accusao e a defeza eram por igual verdadeiras.

De nada valeu  rainha encarcerada a carta que da Torre de Londres
escrevra ao rei, e que o rei leu sem commoo.

Sobre o cadafalso, Anna Boleyn pronunciou um discurso muito habil para no
enganar Deus nem os homens.

--No penseis, bom povo, que me peza morrer, nem que eu fizesse coisa que
merecesse esta morte: tudo procede da minha grande ambio e do grande
peccado que commetti fazendo com que o rei abandonasse a boa rainha
Catharina por minha causa. Rogo a Deus que ella me perde. E para que todos
o ouaes, digo que sou injustamente accusada. A principal razo da minha
morte  Joanna Seymour, como eu fui a razo da morte da boa rainha
Catharina.

E assim, humilhando-se diante de Deus sem se penitenciar diante dos homens,
foi decapitada no dia 19 de maio de 1536.

Dividem-se as opinies a respeito do comportamento de Anna Boleyn.

Os escriptores protestantes divinisam-lhe as virtudes; os catholicos pem
em evidencia o desbragamento das suas libertinagens.

A sentena condemnatoria, assignada por Henrique VIII, accusa Anna Boleyn
de traio, adulterio e incesto.

Guilherme Cobbett, comquanto protestante, faz resaltar o contraste da
devassido dos costumes da rainha Anna com a existencia virtuosa da rainha
Catharina.

David Hume, o notavel historiador inglez, lana as graves accusaes
levantadas contra Anna Boleyn  conta das apparencias de _coquetterie_, que
em grande parte ella havia aprendido em Frana, e das machinaes facciosas
dos seus inimigos, incluindo a viscondessa de Rochford, cunhada da rainha,
que insinuou a suspeita do incesto.

Na chronica castelhana de Julian de Pliego vem a designao de que o
auctor, talvez acobertado pelo pseudonymo, fra contemporaneo dos factos
que narra.

 certo que elle commette alguns anachronismos, como nota o marquez de
Molins, mas no padece duvida que na sua chronica, facilmente escripta, com
uma discreta sobriedade de rhetorica, pouco vulgar nos historiadores
hespanhoes, ha grande copia de preciosas noticias, de interessantes
pormenores, que a fazem estimabilissima.

Em Portugal Anna Boleyn ficou sendo, na tradio popular, sob a
translitterao de _Anna Bolena_, o typo da mulher corrupta e corruptora,
enredadeira e devassa, perturbadora e intrigante.

No que, porm, todos os historiadores esto de accordo  em attribuir a
summaria decapitao de Anna Boleyn ao amor que o rei alimentava por Joanna
Seymour, filha de sir Joo Seymour, dama formosissima, que fazia parte da
casa da rainha Catharina.

No dia da execuo de Anna Boleyn, Henrique VIII, para mostrar a alegria do
seu corao, e porventura a pureza das suas intenes, vestiu-se de
branco; e no dia seguinte desposou Joanna Seymour.

David Hume observa, para fazer elogio  consciencia de Henrique VIII, que
este rei no queria conhecer outras ligaes alm das do casamento. A
desculpa afigura-se pueril e inexacta, porque o rei viveu tres annos
amancebado com Anna Boleyn, antes de se divorciar de Catharina de Arago.

Fizeram-se grandes festas para solemnisar o casamento de Henrique VIII com
Joanna Seymour, que, tendo sido _dama de honor_ da rainha D. Catharina, se
mostrava muito affeioada  princeza Maria, a qual o rei seu pai no tinha
visto havia mais de tres annos.

Esta princeza, que, como se sabe, depois do casamento de Henrique VIII com
Anna Boleyn apenas recebia o tratamento de _madama_, foi educada mais ou
menos sob a influencia dos conselhos de sua mi, D. Catharina de Arago, de
quem Rivadaneyra publca uma carta, dirigida  filha, na qual se l o
seguinte periodo: D recommendaoes minhas  condessa de Salisbury:
dize-lhe da minha parte que tenha firmeza de animo, porque no podmos
ganhar o reino dos cos sem cruz e attribulaes.

A condessa de Salisbury, Margarida Plantagenet, virtuosa dama, fra aia da
princeza Maria. Morreu justiada aos setenta annos de idade, em 1539, por
odio do rei, nas luctas contra os catholicos, aos parentes do cardeal Pole,
que era filho da condessa.

Graas  interveno de Joanna Seymour, a recepo feita pelo rei 
princeza Maria, que no sem repugnancia se havia submettido ao scisma, pois
que a sua educao tinha sido catholica, pareceu ser muito cordeal.

E logo, invertendo facilmente os papeis, ordenou o rei que a filha de Anna
Boleyn passasse a receber o tratamento de _madama_, e a filha de Catharina
de Arago o de princeza.

Mas Joanna Seymour dra tambem  luz um filho, _o mais lindo que jmais se
viu_, diz Julian de Pliego.

O nascimento de um herdeiro varo causou alegria a Henrique VIII, no
obstante as difficuldades que esse facto trazia para resolver a questo
dynastica, e ter custado a vida de Joanna Seymour, que morreu doze dias
depois do parto.

Como diz Hume, a dr do esposo foi absorvida pela satisfao do pai, que
fez jurar principe de Galles o filho de Joanna Seymour, concedendo por essa
occasio a dignidade de conde de Hertford a Eduardo Seymour, irmo da
mallograda rainha, j anteriormente nomeado lord Beauchamp.

O baptisado fez-se com grande pompa, recebendo a creana o nome de Eduardo,
que foi o sexto rei d'aquelle nome, e veiu a morrer aos dezeseis annos sem
deixar successo. A princeza Maria, a cuja guarda Henrique VIII confiou o
filho, tocou por madrinha; o conde de Hertford, irmo de Joanna Seymour,
por padrinho.

De todos as mulheres de Henrique VIII foi Joanna seguramente a mais
estimada. Encontram-se de accordo n'este ponto os historiadores. Mas a
razo est decerto, attenta a volubilidade do rei, em que elle no teve
tempo para se enfastiar.

Assim foi que Joanna Seymour logrou morrer rainha, como observa Cobbett, _e
na sua cama_, felicidade que outras esposas de Henrique VIII no gosaram.

Mas o rei, apesar do grande sentimento que lhe causra a morte de Joanna
Seymour, pensou logo em casar.

Deitou primeiro as suas vistas para a duqueza viuva de Longueville, filha
do duque de Guise. Mandou pedil-a a Francisco I. A resposta foi que a
duqueza estava j promettida ao rei da Escocia. Henrique VIII ficou
desesperado, e enviou a Frana um emissario para o informar da impresso
que a duqueza produzia. O emissario disse que era bonita e gorda. Esta
ultima informao coroou a primeira, porque o rei, que estava ento muito
nutrido, preferia uma esposa de gordura condigna  sua.

Francisco I, posto reconhecesse que a alliana da Inglaterra lhe seria mais
proveitosa do que a da Escocia, manteve a sua palavra, mas offereceu a
Henrique VIII, para lhe calmar o animo, Maria de Bourbon, filha do duque de
Vendome.

Henrique VIII, sabendo, porm, que o rei Jacques da Escocia, seu sobrinho,
havia recusado Maria de Bourbon, rejeitou a proposta.

Ento Francisco I offereceu-lhe qualquer das duas irms mais novas da
duqueza de Longueville.

Henrique VIII respondeu pedindo a Francisco I uma entrevista em Calais, e
indicando-lhe que se fizesse acompanhar das duas princezinhas de Guise e de
todas as mais bellas mulheres da crte de Frana, para elle escolher.

Queria um bazar de mulheres, uma feira de noivas!

Francisco I no obtemperou ao pedido. _Picou-se_, como dizem os francezes,
fosse que lhe repugnasse o papel de alcaiote officioso ou que, sendo elle
proprio galanteador do bello sexo, lhe desagradasse a ida de expr
mulheres _comme des chevaux au march_.

Ento Henrique VIII lanou vistas para a Allemanha, o que politicamente no
deixava de convir-lhe para encontrar allianas nos principes da liga
protestante contra o imperador Carlos V.

Cromwell indicou-lhe Anna de Cleves, filha do duque d'este titulo.

Mandou-se pedir um retrato. Executou-o Holbein, celebre pintor, que se
gozou das boas graas de Henrique VIII e da amisade de Thomaz Moore e
Erasmo. Conta-se at que estando Holbein a trabalhar um dia no seu
_atelier_, fra bater-lhe  porta um dos primeiros senhores da crte.
Holbein desculpou-se de no poder abrir por estar trabalhando. O fidalgo
insistiu. Holbein, impacientado, abriu a porta, e atirou-o pela escada
abaixo. Receioso das consequencias d'essa imprudencia, correu a pedir a
proteco de Henrique VIII, a quem o fidalgo foi sem demora queixar-se. O
rei tentou congraar o fidalgo com o pintor, mas, vendo que os seus
esforos eram inuteis, disse ao fidalgo, que se vangloriava do titulo de
conde:

--Eu posso facilmente fazer sete condes como vs; mas de sete condes no
poderei fazer um Holbein.

Holbein, comquanto cultivasse a pintura historica, no faltando quem pense
que elle seria o auctor do famoso quadro da Misericordia do Porto, foi
principalmente notavel nos retratos. Pois apesar da habitual fidelidade do
seu desenho e da exacta expresso do seu pincel, Holbein, no retrato de
Anna de Cleves, obedeceu um pouco  adulao palaciana que mandava alindar
os retratos das princezas, embora ficassem menos parecidos.

Um seculo depois dizia o joven Luiz XIV a respeito de Margarida de Saboya:
_Elle est agrable, et, contre l'habitude, ressemble  ses portraits_. O
nosso grande Jos Estevo, apesar de inventada j a photographia, disse uma
vez no parlamento que todas as princezas eram formosas.

Depois de examinado o retrato, justou-se o casamento, sem embargo da
opposio do eleitor de Saxe, chefe da liga protestante, casado com uma
irm do duque de Cleves.

Impaciente de vr a sua quarta noiva, Henrique VIII dirigiu-se
mysteriosamente a Rochester, e esperou-a ahi. Viu-a, e no gostou.
Arrependeu-se ento de ter confiado no retrato em vez de adoptar o
expediente que anteriormente havia proposto a Francisco I.

Alm de feia, a princeza s fallava o hollandez, lingua que Henrique VIII
no entendia.

O rei reuniu conselho para vr se seria possivel romper o contracto de
casamento, mas acobardou-o uma considerao politica.

Carlos V e Francisco I estavam ento reconciliados. Como surgissem novas
perturbaes na Hollanda, principalmente em Gand, Carlos V, que residia em
Hespanha, quiz ir pessoalmente calmal-as. Mas como a viagem por Italia e
Allemanha seria muito longa, o imperador pediu ao seu prisioneiro de Pavia
licena para atravessar a Frana. Francisco I mostrou-se magnanimo, deu a
licena pedida e recebeu com grandes festas Carlos V. Alexandre Dumas, como
o leitor deve estar lembrado, descreve-as no seu romance _Ascanio_. Ora,
dada a conciliao de Francisco I e Carlos V, bem podiam estes dois
principes, movidos pelo zelo religioso, cahir sobre a Inglaterra com todo o
pezo dos seus exercitos.

Portanto, mais do que nunca, importava a Henrique VIII uma alliana com os
principes allemes, para o que dsse e viesse.

Henrique resignou-se por algum tempo, vivendo separado da rainha de dia e
de noite. Dava como desculpa a suspeita de que Anna de Cleves no estava
virgem quando a desposou. E secretamente mandou  Allemanha um emissario de
confiana, o gentilhomem Vaughan, para averiguar o que podesse a este
respeito.

O rei, j a esse tempo enamorado de Catharina Howard, sobrinha do duque de
Norfolk, queria encontrar um pretexto para repudiar Anna.

Partiu Vaughan com dinheiro  ufa e, chegando a Cleves, reuniu em banquete
alguns gentishomens, com o proposito de os embriagar. _In vino veritas._
Depois de haverem esgotado os picheis, elles diriam o que soubessem. Assim
aconteceu. Um d'elles, mais expansivo na embriaguez, posto fosse criado do
duque de Cleves, disse  mesa que a princeza havia desposado um cavalleiro,
que morrra na Allemanha de desgosto quando soube que acabavam de casal-a
com Henrique VIII.

Surprehendido este fio da meada, Vaughan procurou desfial-a, fazendo-se
acompanhar de cartas justificativas.

Interrogada a propria Anna por Henrique VIII, respondeu que tinha sido
desposada com o duque de Lorena, mas que lhe disseram que elle havia
morrido, e que de mais nada sabia.

Hume assevera que o casamento com o duque de Lorena fra effectivamente
tratado com Anna de Cleves, quando ambos estavam na infancia, e desfeito
depois por commum accordo.

Todavia isto bastou para que Henrique procurasse divorciar-se da rainha
Anna, allegando que no dra o seu consentimento interior para o casamento,
e que no o consummra.

Esta ultima desculpa no  menos absurda do que a primeira, visto que
Henrique VIII declarra que Anna de Cleves j no estava virgem.

O duque de Norfolk, aproveitando o amor do rei pela sobrinha, conspirou
contra o ministro Cromwell, e empolgra o poder que elle, proscripto por um
bill, fra obrigado a largar. O clero e o parlamento ratificaram o
divorcio, e Anna de Cleves foi, sem se importar muito com isso, enviada
para Cornwall, onde viveu entregando-se ao prazer, fazendo alegres partidas
de caa.

O seu temperamento frio de allem no soffreu pois grandemente com o
divorcio, mas altivo, como todos os de sua raa, levou-a a no querer
voltar para a Allemanha.

Diz-se que escrevra uma carta ao irmo, pois que o pai tinha fallecido,
affirmando-lhe que fra sempre bem tratada na Inglaterra.

A situao politica da Europa tinha mudado; a reconciliao de Francisco I
com Carlos V no havia sido duradoura. Foi o que valeu a Henrique VIII,
porque as suas relaes com os principes da liga protestante esfriaram
depois do divorcio. E o que valeu a Anna de Cleves foi o receio que
Henrique tivera dos principes allemes. Se assim no fosse, em vez de ir
para Cornwall, teria ido para a Torre de Londres, e d'ahi para o cadafalso.

Henrique VIII estava ento nos seus quarenta e nove annos. Mas as
velleidades amorosas eram as de um moo. Indo uma vez a casa da princeza
Maria, a cuja guarda estava confiado o principe de Galles, disse a
Catharina Howard, ento viosa donzellinha de quinze annos, que ajoelhra:

--No mais, Catharina, quero que tornes a ajoelhar-te; bem ao contrario,
ajoelharo diante de ti todas as damas e cavalleiros do meu reino.

Tal foi a exploso amorosa do corao do rei.

O casamento fez-se logo, e Henrique VIII delirava de jubilo por possuir uma
esposa bella e graciosa, julgava-se o mais feliz dos maridos, instituira na
capella real uma orao em aco de graas, e exigira que o bispo de
Lincoln compozesse, pelo mesmo motivo, um hymno gratulatorio.

Catharina, vendo cingidos os seus cabellos com a cora de Inglaterra,
pompeou esplendores de _toilettes_ e joias nunca vistas. Era uma _coquette_
de peior estofa que Anna Boleyn. No precisra ter estado em Frana para se
desmoralisar; o vicio era-lhe ingenito. _Coquette_ e dominadora. Ciosa das
honras dispensadas  princeza Maria e ao principe de Galles, fez com que o
rei lhes pozesse casa  parte. E o rei, preso nos seus amavios,
obedecera-lhe.

Comprehende-se facilmente que um marido de cincoenta annos no bastasse s
exigencias voluptuosas de uma _coquette_ como Catharina Howard.

Aquillo j vinha de traz.

Frequentava a crte um gentilhomem, de nome Colepeper, que havia merecido
favores amorosos a Catharina Howard, quando solteira. Colepeper, depois que
Catharina fra desposada por Henrique VIII, sentira, como sempre acontece,
maior paixo por ella e, na crte, mostrava-se melancolico para significar
 rainha a sua saudade pelas felicidades do passado.

Catharina Howard trocava com elle olhares furtivos, mas brilhantes de
esperana, scintillantes de promessas.

Animado por este estimulo, Colepeper resolveu-se a escrever  rainha, e um
dia, danando com ella, entregou-lhe uma carta, a que Catharina respondeu,
decerto confirmando as promessas dos seus olhares. A resposta foi entregue
a Colepeper pela rainha, tambem n'um sarau danante em que bailaram
emparceirados.

Henrique VIII foi uma victima da dana,--sempre que as rainhas danavam.

Certo dia Catharina procurou sondar uma criada sua, Maria se chamava ella,
dizendo-lhe:

--Se soubesse que no me denunciarias, confiava-te um segredo.

A criada respondeu:

--Guardarei segredo do que me disserdes, comtanto que no toque pelo rei.

Sangrava-se em saude, a criada, lembrando-se certamente de que a confidente
de Anna Boleyn havia sido queimada.

A rainha disfarou:

--Outro dia fallaremos n'isso. Mas no  coisa que toque pelo rei.

Passado tempo, Catharina tentou sondar outra criada:

--Joanna, desejo fazer-te bem e conseguir que el-rei te case honestamente.

E, juntando os factos s palavras, deu-lhe alguns vestidos e joias.

Corridos dias, a rainha abriu-se confidencialmente com a criada.

Disse-lhe que amava Colepeper, que pensra mesmo em casar com elle antes do
rei a requestar. E pediu-lhe que a auxiliasse para ter uma entrevista com
Colepeper, visto que o rei ia sahir para Rionsirche.

A criada teve medo, recusou-se e foi denunciar a rainha ao arcebispo do
Cantorbery. Mas parece que outra criada, menos timida, favorecra os
intentos de Catharina, porque depois se averiguou, como vamos vr, que a
rainha tivera effectivamente um _tte--tte_ com Colepeper.

O arcebispo soube mais por um individuo chamado Lascelles, cuja irm havia
estado ao servio da velha duqueza de Norfolk, e lhe revelra segredos da
vida de Catharina quando solteira, que dois officiaes da casa da duqueza,
Derban e Mannoc, haviam sido admittidos no seu leito, sem que d'isso
fizessem mysterio.

Julgou o arcebispo, depois de ter conferenciado com o conde de Hertford, e
com o chanceller, que devia contar tudo ao rei, e fel-o com certo embarao,
como era natural. Henrique VIII mostrou-se incredulo, no primeiro momento,
mas o arcebispo, desejando justificar-se, activou decerto novas
investigaes. Lascelles foi a Sussex fallar com sua irm, a qual no s
confirmou mas at ampliou as revelaes anteriores. Mannoc e Derban, presos
e interrogados pelo chanceller, disseram tudo o que podiam dizer. Revelaram
pormenores escandalosos. Contaram que tres jovens criadas da duqueza de
Norfolk conheciam o segredo da devassido de Catharina, porque tinham
algumas vezes passado a noite entre Catharina e os seus amantes.

Averiguou-se mais que a rainha realisra a entrevista com Colepeper, e,
como era natural, suspeitou-se do facto de haver Catharina escolhido
Derban, um dos antigos amantes, para seu criado.

Todos os depoimentos foram lidos ao rei que, apesar de estar habituado a
estes lances, chorou.

Interrogada a rainha sobre as accusaes que lhe eram feitas, negou-as a
principio; mas quando lhe apresentaram todas as provas, confessou que
effectivamente se havia conduzido mal antes do casamento, insistindo,
porm, na declarao de que no tinha trahido o rei.

O parlamento, vingador das infelicidades conjugaes de Henrique VIII, tomou
conhecimento do facto.

A rainha, a viscondessa de Rochford, cunhada de Anna Boleyn, sua inimiga, e
confidente dos amores de Catharina, Colepeper, Derban, a duqueza de
Norfolk, av da rainha, lord William Howard, seu tio, a mulher de lord
Howard, a condessa de Bridgewater, e mais nove pessoas, foram proscriptos.

Como Anna Boleyn, Catharina Howard subiu ao cadafalso, em Tower-hill.

A dois passos do garrote e do algoz, fallou ao povo.

Confessou o seu amor por Colepeper, e que a ambio de ser rainha a
perdra. Lamentou no ter casado com Colepeper, pesando-lhe que elle por
sua causa morresse. Accrescentou que morria rainha, mas que preferiria
morrer mulher do homem que tinha amado e que a amava.

Um idyllio sobre o cadafalso!

No outro dia foi decapitado Colepeper, que se limitou a pedir ao povo que
rogasse a Deus por elle.

Tambem morreu decapitada a viscondessa de Rochford, com applauso do
publico, que se lembrava de que fra ella quem mais contribuira para a
perda de Anna Boleyn.

Henrique VIII, afim de se precaver contra novos desastres conjugaes, levou
o parlamento a votar uma lei em que a todos os cidados se impunha a
obrigao de denunciarem secretamente ao rei quaesquer infidelidades da
real consorte, e  real consorte o dever, sob pena de alta traio, de
revelar ao rei as faltas que porventura houvesse commettido antes do
casamento.

O povo inglez, vendo atravs d'esta lei o projecto de um novo casamento,
desatou s gargalhadas.

Ora Henrique VIII algumas vezes dizia rindo que ainda havia de cahir n'uma
viuva. Chalaa do rei, porque a bem dizer a maior parte das suas mulheres
no eram outra coisa. E no deixa de ser curiosa a coincidencia de que dois
reis femeeiros, Henrique VIII e Luiz XIV, acabassem ambos por desposar uma
viuva authentica, Henrique VIII Catharina Parr, viuva duplicada, de lord
Nelvill e de lord Latimer; Luiz XIV a viuva Scarron.

Catharina Parr ia muitas vezes  crte visitar a princeza Maria. O rei
escolheu-a para sexta esposa, confiado em que, por ter j conhecido dois
maridos, e contar trinta e seis annos, no prevaricaria extra-canonicamente
no sexto mandamento como as outras.

O casamento fez-se um pouco  capucha. Sem embargo, Anna de Cleves assistiu
e, longe de se mostrar pezarosa, gracejou sobre o caso.

--Que grande peso, disse ella, vai tomar Catharina Parr!

Anna de Cleves fizera um _calembour_, porque o rei estava descommunalmente
obeso.

Posto de parte o _calembour_, a situao de Catharina Parr no era para
invejar. Deviam passar-lhe pela imaginao os espectros das duas esposas
decapitadas de Henrique VIII, tanto mais que, sendo Catharina partidaria de
Luthero, os seus inimigos catholicos no deixariam de trabalhar para
perdel-a.

E quasi o tiveram conseguido.

Henrique VIII, comquanto adversario do papa, zelava a orthodoxia dos
dogmas. Succedra que Catharina Parr fallra um dia com certa franqueza e
favor a respeito da reforma, acabando por emittir o seu parecer cerca da
eucharistia.

Soube-o o rei e queixou-se a Gardiner de que a rainha tivesse a ousadia de
pensar de maneira differente d'elle. Chegaram a formular-se officialmente
artigos de accusao contra a rainha; e passou-se a respectiva ordem de
priso. Este documento cahiu, porm, da algibeira do chanceller, e foi
encontrado por um partidario da rainha, o qual correu a mostrar-lh'o.

Catharina dirigiu-se immediatamente aos aposentos do rei, que, por ser esse
o seu gosto, e para experimental-a, fallou de assumptos theologicos.

Catharina esquivou-se tenaz e artificiosamente a entrar na questo,
dizendo:

--As mulheres esto sujeitas ao homem desde a origem do mundo. O homem foi
creado  imagem de Deus, e a mulher  imagem do homem;  pois ao esposo que
cumpre regular as opinies da esposa. Mas, como quer que seja, o dever da
mulher  adoptar cegamente os principios do marido. Quanto a mim, obriga-me
um duplo dever, pois que tenho a felicidade de possuir um esposo que, por
sua intelligencia e saber, pde illustrar no smente a sua familia, mas
at os mais eruditos espiritos de todas as naes.

O rei, muito lisongeado, respondeu:

--Por Santa Maria! sois mais sabia do que o doutor Kate, e estais mais no
caso de dar que de receber lies!

Catharina Parr declinou o elogio por immerecido, dizendo ao marido que o
seu unico empenho era distrahil-o por alguns instantes dos seus grandes
trabalhos e soffrimentos.

Henrique VIII replicou com alegria:

-- pois assim?! Bem est. D'aqui por diante seremos dois bons amigos.

No dia seguinte, o rei e a rainha, completamente reconciliados, conversavam
no jardim quando o chanceller chegou acompanhado de quatro homens, para
prender Catharina.

O rei obeso rebolou-se para elle, e desfechou-lhe epithetos injuriosos.

Quando o chanceller sahiu corrido, a rainha esforou-se por tranquillisar o
rei.

Henrique VIII disse-lhe:

--Pobre tontinha! Nem tu sabes o que deves a este homem!...

No sabia a rainha outra coisa! Mas a sua astucia feminil e a experiencia
de um terceiro casamento seguram-lhe a cabea sobre os hombros.

Desde esse dia o chanceller ficou desprestigiado aos olhos do rei.

E Catharina redobrou de amabilidades para com seu marido, servindo-o 
mesa, curando-lhe carinhosamente as feridas que elle tinha na perna
esquerda e cantando-lhe trovas, para o adormecer, quando o rei, insomnioso,
difficilmente rebolia na cama a sua incommoda rotundidade.

Conta Pliego que Henrique VIII, sentindo avisinhar-se a morte, no anno de
1547, se despedira ternamente da rainha, recommendando-a aos grandes do
reino, e ordenando que lhe dessem sete mil libras, todas as suas joias e
vestidos, se quizesse tornar a casar.

Accrescenta ingenuamente o chronista castelhano: E a boa rainha no pde
responder pelo muito que chorava.

A sinceridade d'essas lagrimas avalia-se pela fogosa paixo que Catharina
Parr desentranhou pelo almirante Thomaz Seymour, que era amante de Isabel,
filha do rei e de Anna Boleyn. O almirante desposou a rainha viuva, mas os
ciumes de Isabel e a inveja que sua cunhada, a duqueza de Somerset, tinha
da rainha atormentavam-n'o grandemente. Catharina Parr morreu envenenada,
segundo se diz. Havia dado  luz uma creana que no vingou, sem que se
soubesse ao certo se era filha do rei ou do almirante, to pouco tempo
depois da morte do rei casra ella com o almirante.

Catharina Parr, a respeito de casamentos, lia pela cartilha de Henrique
VIII. A terra lhe seja leve, j que os maridos o no foram.

O almirante teve motivos para sentir a morte da esposa, porque lhe
arrebatou o rendimento annual de sete mil libras. Como compensao,
mancommunou-se com os piratas e ia feito nas extorses que elles
praticavam. Enriqueceu. Vendo-se rehabilitado, quiz casar com a princeza
Izabel, sua amante, talvez para conseguir que fosse entregue aos seus
cuidados o joven rei Eduardo VI, sendo que estava usufruindo esta honra seu
irmo o duque de Somerset, condecorado com o titulo de protector. O irmo e
a cunhada, para cortar-lhe o vo das ambies, perderam o almirante,
accusado de cumplice nas extorses dos piratas. O proprio duque assignou a
sentena de morte do irmo, que foi decapitado.

Henrique VIII deve ter-se encontrado no outro mundo com as suas seis
mulheres, que, se l se julga melhor, como eu creio, do que c em baixo,
ho de tel-o visto condemnado pela justia eterna.

As atrocidades sanguinarias que commettra contra os catholicos e a bagagem
dos seus vicios far-lhe-iam decerto grande carga.

Elle mesmo, ao expirar, se accusou de no ter poupado algum homem na sua
colera, nem alguma mulher nos seus desejos.

Mas, como quer que fosse, a igreja catholica, inspirando-se na misericordia
christ, deve perdoar-lhe, tanto mais que Henrique VIII, que depois de
velho no cria no Purgatorio, deixou muitas missas com medo d'elle.

Eu at me sentia disposto a rezar um Padre-Nosso por alma de Henrique VIII,
se me no lembrasse de que alfim deve j l em cima ter recebido alguma
compensao de haver sido casado seis vezes, quasi sempre com maior peso do
que o que canonicamente era justo.




<span id="chapIII">III

D. BEATRIZ DE PORTUGAL


I

Todos ns fomos litterariamente educados com a MENINA E MOA, de Bernardim
Ribeiro, o mavioso livro das saudades. Temos de cr, pelo menos, as
primeiras palavras d'esse livro galante e cavalheiresco: Menina e moa me
levram de casa de meu pai para longes terras... Todos ns nos costummos
a vr na MENINA E MOA, de Bernardim, a infanta D. Beatriz de Portugal,
filha do rei D. Manuel.

Diogo Barbosa Machado, na BIBLIOTHECA LUSITANA, deu curso  lenda,
assignalando a fonte onde a bebra. E digo _fonte_ para no desaproveitar
um _calembour_, por isso que se trata da _Fuente de Aganipe_, de Faria e
Sousa.

Por sua parte diz Barbosa Machado:

  Arrebatado de impulsos amorosos (Bernardino ou Bernardim Ribeyro)
  passava muitas noites entre a espessura e solido dos bosques, explicando
  junto  corrente das aguas, com suspiros e lagrimas, a vehemencia de
  paixo to violenta que o obrigou a emprehender impossiveis dedicando os
  seus affectos  infanta D. Beatriz, filha do serenissimo rei D. Manuel,
  como elegantemente o contou Manuel de Faria e Sousa...

Costa e Silva, no ENSAIO BIOGRAPHICO-CRITICO, reproduziu a lenda d'esses
suppostos amores do poeta, desventurosos por desiguaes. Conta-nos o seu
desespero quando o rei de Portugal concedeu a mo da infanta ao duque de
Saboya; o seu ermar solitario pela serra de Cintra, bradando s penhas e
entalhando no tronco das arvores o nome de Beatriz; finalmente, a partida
do trovador para Saboya, sob o disfarce de peregrino, e o seu furtivo
encontro em Saboya com D. Beatriz:

  Chegando alli depois dos trabalhos e perigos de to longa jornada,
  indagou qual era a igreja onde a duqueza costumava ouvir missa, e
  esperando-a na porta, lhe pediu esmola quando passou. A duqueza, que logo
  o conheceu, apesar da differena do traje e do transtorno que as maguas e
  saudades haviam feito em suas feies, parou, e, dando-lhe esmola, lhe
  disse baixo em portuguez:

  --J l vai o tempo dos antigos galanteios.

Segundo a verso de Costa e Silva, Bernardim Ribeiro, recolhendo  patria,
e voltando  serra de Cintra, ahi _terminou em breve os seus dias_.

Era natural, como aconteceu, que esta antiga lenda to profundamente
sentimental se impozesse  imaginao dos escriptores portuguezes que
floresceram ao tempo de fazer-se entre ns a evoluo romantica.

De facto, Garrett, no canto nono do CAMES, ensancha-a com felicidade na
descripo de Cintra:

  Tradio  que nomeado vate,
  D'alta beldade mysterioso amante,
  Entre as fragas ergura a manso triste,
  Onde cevou de tristes pensamentos
  O corao cortado de saudades.
  _Saudade_ pelas pedras entalhada
  Se lia em caracteres bem distinctos;
  E o nome de _Beatrix_, tambem gravado
  Na silice do monte, lhe responde,
  Como echo das endeixas namoradas
  Do cantor da soido.

Garrett no podia esquecer o poetico episodio da partida de Bernardim
Ribeiro para Italia:

  Subito um dia, de bordo na dextra,
  Na opa de peregrino disfarado
  Desce os montes da Lua, e mais erguidas
  Serras demanda; em romaria aos Alpes
  Parte, a levar o corao votado
  A quem talvez, na purpura, suspira
  Pelos andrajos do mendigo amante.
  Vel-o-ha, o objecto de suspiros tantos,
  De saudade to longa, da romage
  Devota, mas s vl-o, e adeus eterno,
  E para sempre adeus!... Crueis lhe vedam
  Mais que esse adeus. Voltou  patria, e morre.

Na respectiva nota da primeira edio do CAMES, Garrett d como factos
assentes o isolamento de Bernardim Ribeiro na serra de Cintra e a sua ida
de peregrino aos Alpes. Na segunda edio, porm, revela duvidas a respeito
dos derradeiros dias do poeta, dizendo que eram a parte menos decifrada e
decifravel do _enigma_ de sua vida e desculpando-se com ter seguido no
texto do poema a tradio mais vulgar.

No AUTO DE GIL VICENTE, representado com grande applauso no theatro da rua
dos Condes, Bernardim Ribeiro inspira uma dupla paixo a Paula Vicente,
filha de Gil Vicente, e  infanta D. Beatriz. A dedicao de Paula pela
infanta vai at o ponto de sacrificar o seu proprio corao  paixo que a
infanta nutre pelo trovador. Todo o entrecho d'esta pea inicial do moderno
theatro portuguez  fornecido por um auto de Gil Vicente, de que a seu
tempo nos occuparemos. O casamento da infanta realisa-se, e ella parte para
Italia a bordo do galeo Santa Catharina. Bernardim conseguiu ir a bordo
dizer o ultimo adeus  infanta; mas el-rei D. Manuel chega pouco depois
para se despedir da filha. Bernardim encontra-se n'uma situao
desesperada, receiando comprometter a infanta e Paula Vicente. Prefere
morrer a desacredital-as: precipita-se no Tejo.

O lance  de effeito para um final d'acto, que de mais a mais  o ultimo. E
a responsabilidade historica de Garrett salva-se de algum modo, porque
Bernardim Ribeiro pde no ter perecido no Tejo. Isto mesmo diz Garrett em
nota  segunda edio do CAMES: ... Bernardim Ribeiro lana-se ao mar, no
AUTO DE GIL VICENTE, mas nenhum _nuncius_, nenhum _koros_ veio fra, como
na comedia ou tragedia antiga, dizer ao publico: Bernardim Ribeiro
afogou-se com effeito; _nunc plaudite_.

Ora em uma das annotaes com que o AUTO DE GIL VICENTE sahiu impresso,
escreveu Garrett:

  Em a nota E, ao canto nono do poema CAMES, no 1. vol. d'esta
  colleco, pag. 275, se promette illustrar o ponto d'estes amores de
  Bernardim Ribeiro e da sua romanesca vida. Mas no me atrevo por ora a
  cumprir tal promessa. Aqui atirei com elle ao mar, porque me era preciso:
  e o publico disse que era bem atirado.  o que me importa. Se elle foi ou
  no a Saboya depois, como eu j cuidei averiguado, se andou doido pela
  serra de Cintra, tambem me no atrevo a certificar.--O que parece mais
  certo  que _no morreu de paixo_, porque depois foi feito commendador
  da ordem de Christo, e governador de S. Jorge da Mina, onde talvez
  morresse de alguma carneirada: materialissimo e mui prosaico fim de to
  romantica, saudosa e poetica vida.

  Aprendei aqui,  Beatrizes d'este mundo!

No terceiro volume do ROMANCEIRO encorporou Garrett dois romances
extrahidos da MENINA E MOA, de Bernardim Ribeiro: A AMA, AVALOR; e o solo
CUIDADO E DESEJO, que se encontra entre as eclogas do poeta, appensas 
edio da MENINA E MOA, feita em 1852 pela empreza da _Bibliotheca
portugueza_ (Lisboa).

Todas estas tres composies so precedidas de pequenos prefacios
elucidativos.

Fica pois bem accentuada a grande influencia que a tradio poetica dos
amores de Bernardim Ribeiro exerceu no espirito delicado e na imaginao
romantica de Garrett. O caso, em verdade, no era para menos. Cintra, a
formosissima Cintra, como tablado; como actores, uma princeza e um
trovador. E depois ainda a corrente tradicional dos costumes trovadorescos:
no estava to longe o tempo em que princezas e rainhas ouviam sem enfado
e acceitavam sem desaire as homenagens dos trovadores.

Alexandre Herculano, no 3. volume do PANORAMA, escreveu um artigo a
respeito dos amores de Bernardim Ribeiro com a infanta D. Beatriz. Acha
escuro este problema historico, mas acceita a lenda. Lamenta que Garcia de
Rezende, que to curiosas informaes nos legou sobre a partida da infanta
para Saboya, se abstivesse, talvez por consideraes palacianas, de tocar o
assumpto. Cita Damio de Goes para mostrar que o casamento fra mal
recebido dos portuguezes, que no reconheciam no duque de Saboya qualidades
nem de nascimento nem de posio para tomar por mulher uma filha do rei D.
Manuel. E no lhe parece que estas razes fossem as unicas que imperaram no
animo dos portuguezes para desestimar o casamento. Copa, em reforo da sua
opinio, um codice da primeira metade do seculo XVI, existente na
bibliotheca real, da qual transcreve os seguintes periodos com relao 
viagem da infanta:

  ... e a um domingo, dia de S. Miguel, de setembro do anno de 521,
  chegaram a Villa-Franca de Nia, porto do duque de Saboya, a uma hora
  depois do meio-dia; e assi das nus como da villa se fez gro festa
  d'artilharia. E o duque mandou pedir  infante, que no dormisse na nau;
  e ella se escusou de sair por aquella noite; e vendo o duque sua escusa,
  foi l em pessoa com alguns gentishomens, e lhe pediu que com toda
  maneira saisse: ella o fez por conselho do conde, contra sua vontade, e
  de todos, e saiu com tochas; onde achou doze facas guarnecidas, para si,
  e para as damas, e alguns chibaos para os fidalgos, porque d'alli a Nia,
  onde era a povoao, pelo rio acima, era meia legua; e ahi foram ter. E a
  duqueza de Nemuns (_Nemours_) irman do duque, e me d'el-rei de Frana,
  que ahi estava, saiu fra ao terreiro das casas, onde o duque pousava, a
  receber; e ahi se fizeram grandes ceremonias e cortezias. E alli foi com
  a infante para dentro, e assi a rainha por hospeda aquella noite. Ao
  outro dia pela manh foram ouvir missa a um mosteiro de S. Domingos,
  pegado com as casas; e um cardeal, que ahi era, disse missa, e os
  benzeu...

  O duque  homem pequeno de corpo, e alvo; de rosto comprido, e fo de
  tudo: tem um hombro mais alto que o outro, e  um pouco azumbado, e as
  pernas delgadas, e muito prudente. A este casamento, eram vindos um
  cardeal e tres bispos, e um marquez, e tres condes, e logo se tornaram.
  Em Nia estiveram oito dias, nos quaes alguns justaram, e o duque deu
  banquete aos portuguezes: e a cabo dos oito dias partiu com a infante
  para Piamonte: e  partida a infante se achou s em uma faca, com dous
  moos d'estribeira; e como ia de c acostumada de andar d'outra maneira,
  achava-se corrida, e no soube que fazer, seno tornar-se s lagrimas,
  porque a mr parte dos portuguezes eram j embarcados para se tornar. E
  alguns outros que por a servir aqui se iam acompanhar, no o consentiram,
  que assi lhes era ordenado do duque: e ao passar de uma ponte, uns cem
  alabardeiros lhes pozeram as alabardas nos peitos, e no consentiram que
  passassem vante. As damas iam em chibaos d'aluguer, com varas nas mos,
  sem nenhuma companhia d'homem, caindo a cada passo por seguir a infante
  pranteando e chorando sua orfandade, e a pouca honra e gasalhado que dos
  saboianos recebiam; e dizendo d'elle muitas pragas, e a pouca virtude e
  honra com que os tratava.

D'estas passagens do codice tira Alexandre Herculano as concluses que
fazem ao seu proposito. Ainda explica a repugnancia da infanta em
desembarcar por estar informada da figura despicienda do duque; mas para
explicar a dureza com que Carlos de Saboya trata D. Beatriz, poucos dias
depois de casada, sendo certo que empregra grandes esforos para obter a
sua mo, recorre Alexandre Herculano  conjectura de que a noticia dos
amores da infanta com um cavalleiro portuguez teria chegado aos ouvidos do
senhor Vallaison (Claudio) que revelaria a seu amo, depois das nupcias, o
terrivel segredo que levra de Portugal, e porventura o receio de que entre
os que na viagem a acompanharam existisse o seu rival, e de que alguma das
damas o favorecesse.

O quadro da desamoravel lua de mel, que a infanta D. Beatriz, segundo o
author do manuscripto, tivera em Saboya, no obstante a tradicional
formosura da infanta, contrastaria asperamente com as alegrias com que os
esponsaes foram celebrados na crte de Portugal, onde Gil Vicente fez
representar a tragicomedia das CRTES DE JUPITER, um dos autos que, a nosso
vr, melhor caracterisam a funco truanesca que Gil Vicente desempenhava
no pao, pelas alluses pessoaes a personagens importantes que elle
irrisoriamente converte em peixes,--baleia, raia do alto, afio, etc.

Veremos porm at que ponto, graas a um auxilio poderoso, lograremos
esmiuar a verdade.


II

Em 1867 publicava Camillo Castello Branco o livro intitulado COUSAS LEVES E
PEZADAS, e ahi, em nota  pagina 17, escrevia o seguinte:

  O meu parecer  que Bernardim, tambem Bernaldim Ribeiro, ou Bernardim
  Reinardino Ribeiro, como Faria e Sousa o chama, nem foi governador de S.
  Jorge da Mina, nem amou a infanta D. Beatriz, nem sahiu da sua terra,
  para Lisboa, seno depois que ella j tinha sahido de Lisboa para Saboya.
  Corre-me obrigao de pr as clausulas d'este meu juizo, to encontrado
  com o de doutos investigadores. Fal-o-hei em pouco, porque no cabe
  n'este genero de escriptos grande cavar em terra d'onde o que sae, para o
  cummum dos leitores,  pedregulho.

  Em primeiro, tenho como provavel que Bernardim Ribeiro, sob o pseudonymo
  de Jano, falla de si na ecloga 2. Ahi diz elle:

    Quando as fomes grandes foram,
    Que Alemtejo foi perdido,
    Da alda que chamam Torro
    Foi este pastor fugido:
    Levava um pouco de gado, etc.

  E contina:

    Toda a terra foi perdida;
    No campo do Tejo s
    Achava o gado guarida.
    Vr Alemtejo era um d;
    E Jano para salvar
    O gado que lhe ficou,
    Foi esta terra buscar, etc.

  Temos, pois, o poeta allegorico do Torro--naturalidade que todos os
  biographos unanimemente do a Bernardim Ribeiro--em Lisboa no anno das
  grandes fomes, que foi em 1522. Ora, D. Beatriz, em 9 de agosto de 1521,
  tinha sahido para Saboya.

  Nenhum biographo at agora assignou o anno do nascimento ou da morte de
  Bernardim Ribeiro. Pde, se o meu modo de decifrar a ecloga  plausivel,
  marcar-se-lhe o anno do nascimento em 1500, ou 1501 mais exacto, porque o
  pastor, n'outro ponto da mesma ecloga 2., diz:

    Agora hei vinte e um annos,
    E nunca inda at agora
    Me acorda de sentir damnos... etc.

  Quanto ao governo de S. Jorge, capitania-mr das armadas da India e
  commenda de Villa Cova,  tudo isso um equivoco do auctor da BIBLIOTHECA
  LUSITANA, com o qual se bandeou a boa f de escriptores de grande porte.
  O Bernardim Ribeiro, governador de S. Jorge da Mina, assistiu em 1526 ao
  crco de Mazago, d'onde sahiu abrasado d'uma exploso de polvora. (Veja
  a CHRONICA DE D. SEBASTIO, por D. Manuel de Menezes).

Innocencio Francisco da Silva, no tomo VIII do DICCIONARIO BIBLIOGRAPHICO,
pag. 379, no acceitra como definitivos os reparos de Camillo Castello
Branco e appellra para investigaes ulteriores.

No 10. vol. das NOITES DE INSOMNIA, Camillo Castello Branco voltou ao
assumpto, dizendo:

  Ulteriores investigaes que fiz em cartapacios genealogicos e coevos,
  levaram-me da certeza  evidencia de que Bernardim Ribeiro, o poeta, no
  era Bernardim Ribeiro Pacheco, o commendador de Villa Cova, da ordem de
  Christo e capito-mr das naus da India, casado com D. Maria de Vilhena,
  filha de D. Manuel de Menezes, nem ainda o outro Bernardim Ribeiro,
  governador de S. Jorge.

Camillo estuda em seguida a genealogia dos tres Bernardins, que andam
fundidos no auctor da MENINA E MOA.

O snr. Theophilo Braga publicou em 1872 o volume dedicado, na sua HISTORIA
LITTERARIA DE PORTUGAL, a Bernardim Ribeiro.

Ahi, procurando reconstruir a biographia do poeta pela interpretao
critica das suas obras, sustenta que Bernardim Ribeiro viera do Torro para
Lisboa em 1496, quando tinha vinte e um annos (Ecloga 2.), o que permitte
fixar a poca do seu nascimento em 1475.

Parece ao snr. Theophilo Braga que j o poeta teria tido em 1496 o primeiro
amor, inspirado por D. Maria Gonalves Coresma, que casra com um viuvo do
Alemtejo, chamado Alvaro Mendes Casco.

Suppe que D. Maria Coresma seja a _Cruelsia_ da MENINA E MOA, abandonada
pelo poeta, a quem _Aonia_ enfeitira com a sua belleza.

E explica por esta situao moral, em que Bernardim Ribeiro se encontrava,
o vilancete que Boutlerweck publicou na sua HISTORIA DA LITTERATURA
PORTUGUEZA e que vem reproduzido na edio das obras do poeta, feita em
1852 pela _Bibliotheca portugueza_:

  No sou casado, senhora
  Pois inda que dei a mo
  No casei o corao.

  Antes que vos conhecesse
  Sem errar contra vs nada,
  Uma s mo fiz casada,
  Sem que mais n'isso mettesse.
  Dou-lhe que ella se perdesse,
  Solteiros os versos so,
  Os olhos, e o corao.

  Dizem que o bom casamento
  Se ha de fazer por vontade,
  Eu a vs a liberdade
  Vos dei, e o pensamento.

  N'isto no me achei contento
  Que se a outra dei a mo,
  Dei a vs o corao.

  Como, senhora, vos vi,
  Sem palavras de presente
  Na alma vos recebi,
  Onde estareis para sempre.
  No, dei palavra smente,
  No fiz mais que dar a mo,
  Guardai vs o corao.

  Casei-me com meu cuidado
  E com vosso desejar,
  Senhora, no sou casado,
  No m'o queiraes acuitar.
  Que servir-vos, e amar
  Me nasceu do corao
  Que tendes em vossa mo.

  O casar no faz mudana
  Em meu antigo cuidado,
  Nem me negou esperana
  Do galardo esperado:
  No ma engeiteis por casado,
  Que se a outra dei a mo,
  Dei a vs o corao.

Francamente, a interpretao que o sr. illustre escriptor Theophilo Braga
deu a este vilancete, parece-nos forada.

A affirmao do poeta, na hypothese de que o vilancete seja realmente seu,
 to categorica:

  No me engeiteis por casado,
  Que se a outra dei a mo,
  Dei a vs o corao

que no se acceita sem certa repugnancia a explicao de que elle se
referia apenas ao galanteio que tivera com D. Maria Coresma, solteira ou
casada, mas a quem, em todo caso, no havia _dado a mo_ de esposo.

Este ponto julgamol-o ainda escurentado de grandes duvidas.

Mas, como quer que seja, o snr. Theophilo Braga, occupando-se dos segundos
amores do poeta com a _Aonia_ da MENINA E MOA, suppe que _Aonia_  o
anagramma de Joanna, e que esta dama  D. Joanna de Vilhena, prima d'el-rei
D. Manuel, e filha de D. Alvaro de Portugal, a qual viera para a crte no
tempo do casamento da princeza D. Izabel (Beliza) com o principe D. Affonso
em 1491.

D. Joanna de Vilhena casou em 2 de fevereiro de 1516 com D. Francisco de
Portugal, primeiro conde de Vimioso, um dos poetas do CANCIONEIRO de Garcia
de Rezende.

Este casamento  a _catastrophe_ que ensombra a vida do poeta. Na MENINA E
MOA, _Bimnarder_, anagramma de Bernardim, sabendo do casamento de _Aonia_
se foi, e no no viram mais.

Francisco Antonio Varnhagem, que morreu visconde de Porto Seguro, publicou
um livro, que precedeu o do snr. Theophilo Braga, pois que este escriptor a
elle se refere desfavoravelmente (pag. 107), e que se intitula DA
LITTERATURA DOS LIVROS DE CAVALLARIA (Vienna, 1872).

Varnhagem, que se dedicou muito ao estudo da nossa historia litteraria,
interpretou do seguinte modo os anagrammas da MENINA E MOA:

  _Aonia_ por Joanna.
  _Arima_ por Maria.
  _Avalor_ por Alvaro.
  _Beliza_ por Izabel.
  _Boslia_ por Lisboa.
  _Cruelsia_ por Lucrecia.
  _Donanfer_ por Fernando.
  _Enis_ por Ines.
  _Fartesia_ por Tisfara (?)
  _Godivo_ por Dioguo.
  _Jenao_ por Joane.
  _Lamberteu_ por Bartelmeu.
  _Loribaina_ por Briolanja.
  _Narbindel_ por Bernaldin.
  _Olania_ por Anjola (?)
  _Bomabisa_ por Ambrosia.
  _Tasbio_ por Bastio.
  _Zicelia_ por Cezilia.
  _Lamentor_, modificao de _Lamendor_, por Manuel.

O snr. Theophilo Braga interpreta _Bimnarder_ como outro anagramma de
Bernardim, e _Olania_ por Oriana. Eis os pontos de divergencia entre as
duas interpretaes.

Varnhagem commenta:

  Seja como fr: o certo  que, decifrados os anagrammas, apparece
  Bimnarder apaixonado de certa Joanna, irm de Izabel, mulher de
  _Lamentor_. Ora, se admittirmos que este fosse el-rei D. Manuel,
  resultariam os amores de Bernardim, no com a filha d'este rei, mas sim
  com sua cunhada D. Joanna, a mi de Carlos V, mulher de Filippe o
  _Bello_, e filha (como a rainha D. Izabel sua irm) dos reis catholicos
  Izabel e Fernando. Em tal caso o mesmo Filippe corresponderia ao _Fileno
  e Orphileno_ (marido da Aonia da novella), etc.

No acha natural Varnhagem que Bernardim Ribeiro se apaixonasse por D.
Beatriz, que nascra em 1504 e a cantasse, quando ella era menina de menos
de doze annos, no CANCIONEIRO de Rezende, que sahiu impresso em 1516.

Mas a verdade  que na MENINA E MOA se diz: que a senhora Aonia ainda
ento era donzella d'antre treze ou quatorze annos e que _menina e moa_ a
levaram de casa de seu pai para longes terras.

Entende tambem o snr. Theophilo Braga que os dizeres com que abre a MENINA
E MOA no se podem referir  infanta D. Beatriz, que contava dezesete
annos, quando foi levada para Saboya.

Como se v, a opinio dominante nos ultimos quinze annos  contraria 
lenda dos amores de Bernardim Ribeiro com a infanta D. Beatriz.

O snr. Theophilo Braga explica a formao da lenda pelo supposto facto de
ter o poeta amado uma dama altamente collocada na crte, parenta de el-rei
D. Manuel, D. Joanna de Vilhena; pela prohibio, no _Index_ de 1581, da
novella MENINA E MOA, o que lanou suspeitas sobre o contedo da novella;
e pela coincidencia de Bernardim Ribeiro ter sahido de Portugal quando a
infanta, em 1521, partiu para Saboya.

A lenda, recolhida no seculo XVI por Faria e Sousa, resuscitra com o
romantismo pela reviviscencia das lendas nacionaes.

Acha o snr. Theophilo Braga que a idade do poeta e da infanta, em 1521,
eram incompativeis entre si e a tresloucada paixo que a lenda attribuia a
um homem de quarenta e seis annos por uma donzellinha de dezesete. Acha
outrosim que a ingenita altivez do caracter de D. Beatriz no lhe
permittiria descer at acceitar o galanteio de um trovador, de mais a mais
amadurecido em annos.

No amor no ha incompatibilidades possiveis. Na historia de Portugal
abundam estes desacertos de idade e de condio em assumptos amorosos.

A ns no nos repugna o facto de Bernardim Ribeiro, um poeta, se ter
apaixonado por uma dama da crte, que todavia, como diremos, no suppomos
fosse a infanta, no obstante a desproporo das idades.

Mas, se D. Beatriz foi a inspiradora da paixo do poeta, o que podmos
provar com documentos historicos  que ella o esqueceu em Saboya, se algum
dia o amou ou se soube que foi amada por elle.

No  natural que D. Beatriz, to magoada como o codice publicado por
Herculano nol-a pinta, se absorvesse to profundamente, e to estranha ao
seu proprio passado, nos deveres de esposa e princeza, como realmente
acontecra em Saboya, e como vamos mostrar.

 verdade que a lenda romantica conta que a duqueza de Saboya, reconhecendo
o poeta no disfarce de mendigo  porta de um templo, lhe dissra, dando-lhe
esmola:--J l vai o tempo dos antigos galanteios.

Mas to empenhada a vamos encontrar nos negocios politicos e domesticos da
crte de Saboya, to despreoccupada de recordaes amorosas, to adaptada
moralmente ao meio em que se encontrava, que estamos convencido de que, se
Bernardim Ribeiro a amou, no foi correspondido ou s ephemeramente o foi,
o que no seria natural n'uma princeza educada nos seres galantes do Pao
da Ribeira, sabendo-se amada por um poeta, e vivendo sacrificada na
companhia de um marido, que no era poeta, e cujo desgracioso feitio as
chronicas memoram.

Se, como quer o snr. Theophilo Braga, a _Aonia_ da MENINA E MOA  D.
Joanna de Vilhena, primeira condessa de Vimioso, a _Condessa Santa_,
completo foi o seu esquecimento do amor que inspirra ao poeta.

Emquanto viveu o conde, escreve o padre Francisco da Fonseca na EVORA
GLORIOSA, o imitou, e acompanhou em todas as obras virtuosas, attendendo
cuidadosamente  educao de seus filhos, e ao prudente governo da sua
familia, e casa, que debaixo da sua direco era convento com apparencias
de palacio. Era inimicissima do ocio, e por isso assim ella, como todas as
suas criadas, se occupavam continuamente nos exercicios proprios do seu
estado, umas cosiam, outras fiavam, outras faziam rendas ou fios para curar
os necessitados. O mesmo usava com as senhoras, que a vinham visitar, dando
a cada uma d'ellas algum trabalhinho, com que se entreter; e entretanto, ou
lhe lia algum capitulo dos documentos, que o conde tinha composto, e lhe
contava algum exemplo, ou historia santa, com que adoar o trabalho; o que
fazia com tanta graa, que assim sua irm D. Brites, duqueza de Coimbra e
Aveiro, com todas as mais senhoras continuavam e frequentavam com gosto a
escla de D. Joanna. Morto o conde, se deu totalmente a Deus, e, abraando
a terceira ordem de Santo Agostinho, fez uma vida verdadeiramente de santa.
Remendava por suas proprias mos os habitos dos frades, e lhes fazia o
comer, quando estavam enfermos, amando-os e consolando-os a todos, como se
fossem seus filhos: o mesmo praticava com as religiosas de Santa Catharina,
e porque viu as lagrimas e suspiros da pobreza eborense por causa da falta
que lhe fazia a morte de seu querido esposo, tomou muito a sua conta
enxugar-lhe as lagrimas com opportuno remedio: escolheu para capelles e
esmoleres a dous sacerdotes exemplares, em cuja companhia ia todos os dias
visitar os enfermos da sua parochia: seguiam-n'a dous escravos, carregados
de tudo aquillo de que podiam necessitar os enfermos, e ella por si mesma
lhe repartia todos os mimos e os regalos: com estas, e outras muitas santas
obras, continuou a nossa condessa a sua exemplarissima vida at os 24 de
julho de 1559 em que Deus a chamou para a gloria.

A dama que inspirra a paixo de Bernardim Ribeiro tinha os olhos verdes.

No capitulo XXI da MENINA E MOA encontra-se o romance

  Pensando-vos estou filha

que Garrett reproduziu no terceiro volume do ROMANCEIRO com o titulo de _A
Ama_.

N'esse cantar,  maneira de solau, como o classifica Garrett, encontra-se a
seguinte alluso:

  Mas no pde ser, senhora,
  Para mal nenhum nascerdes,
  Com esse riso gracioso
  Que tendes sob _olhos verdes_.

Entre as eclogas de Bernardim Ribeiro encontra-se outro romance, que
Almeida Garrett tambem reproduziu com o titulo de _Cuidado e desejo_, e ahi
depara-se-nos uma outra referencia  cr dos olhos da sua dama:

  Seus _olhos verdes rasgados_
  De lagrimas carregados, etc.

Conhecemos dois retratos da infanta D. Beatriz de Portugal, duqueza de
Saboya.

Um foi publicado no periodico litterario UNIVERSO PITTORESCO. O artigo que
o acompanha tem a assignatura do fallecido escriptor S. J. Ribeiro de S.

O artigo nada adianta, mas o retrato  copia do que se encontra em Turim na
galeria dos retratos dos duques e duquezas de Saboya. Enviou-o para
Portugal o snr. Miguel Martins Dantas, hoje ministro de Portugal em
Londres, e ento addido  legao de Sua Magestade Fidelissima em Turim.

O snr. Dantas fez acompanhar a copia d'esse retrato, que deve considerar-se
authentico, das seguintes indicaes:

  Rosto claro, _olhos castanhos escuros_, cabellos castanhos claro, bonet
  de velludo preto adornado de pedraria, e uma pluma branca; no pescoo um
  adresse de pedras roxas engastadas em oiro, acabando com uma perola. Uma
  especie de leno, ao que parece de cambraia, com muito feitio occupa o
  espao do decote--em roda uma bordadura de ouro. O vestido  de fazenda
  (no velludo) cr de castanha, atirando para roxo, com tufos brancos nas
  mangas, rematados com pedras roxas tambem engastadas em ouro, punhos
  brancos de renda, collar de perolas acabando com tres pedras iguaes s
  outras: desde a cintura at ao cho ha um cordo formado de pedras
  azuladas engastadas em ouro.

Pela descripo d'este retrato, existente na galeria de Turim, e que para
todos os effeitos, repetimos, se deve considerar authentico, sabemos que os
olhos da infanta D. Beatriz no eram _verdes_, como os que descreve
Bernardim Ribeiro, mas _castanhos escuros_.

D'aqui, pois, se pde tirar um novo argumento para reforar a opinio,
alis hoje dominante, de que no foi a infanta D. Beatriz a mulher amada
pelo poeta das saudades.

Do outro retrato s ha pouco tempo tivemos conhecimento.

No leilo da livraria do fallecido visconde de Juromenha compramos,
unicamente attrahidos pela indicao do respectivo catalogo, um livro
intitulado--NOTIZIE STORICHE INTORNO ALLA VITA ED AI TEMPI DI BEATRICE DI
PORTOGALLO DUCHESSA DI SAVOIA, CON DOCUMENTI PER IL BARONE GAUDENZIO
CLARETTA, MEMBRO DELLA R. DEPUTAZIONE SOVRA GLI STUDI DI STORIA
PATRIA--Torino, 1863, tipografia Eredi Botta, Palazzo Carignano.

No tinhamos a menor noticia d'este livro, que versava um dos mais
interessantes assumptos da historia de Portugal, no obstante haver sido
publicado em 1863.

E como temos por indispensavel estudar a historia portugueza, para apural-a
com segurana, pelo confronto do que escreveram os nossos historiadores com
os dos paizes que comnosco tiveram relaes politicas em determinadas
pocas, fossem essas relaes devidas a um casamento, a um tratado, a uma
guerra ou a qualquer outra causa--systema este em que principalmente
baseamos o nosso estudo historico cerca da Excellente Senhora, _Rainha sem
reino_,--procuramos a todo o custo obter esse livro, para ns desconhecido,
cujo titulo nos agura a curiosidade e o interesse de possuil-o.

Mal diriamos n'essa occasio que, tambem pela venda de um espolio,
adquiririamos pouco depois outro livro do mesmo author cerca de uma poca
no menos notavel da historia portugueza.

O baro Gaudenzio Claretta d n'aquelle seu livro noticia de duas medalhas
que o duque de Saboya Carlos III mandra cunhar para perpetuar a memoria de
sua esposa.

Uma d'ellas tem de um lado a effigie de D. Beatriz com a legenda: _Beatrix
dux Sabavdie_ e do outro os escudos de Saboya e Portugal com esta
inscripo; _Lvsitani regis filia an sv t. 36_.

A segunda medalha, que se encontra reproduzida no ante-rosto do livro,
representa a duqueza de Saboya, ricamente vestida, com a legenda: _Beatrix
decvs Portvgallie ducissa Sabavdie_.

Um argumento salta desde j aos bicos da penna.

Se Carlos III tivesse menospresado sua mulher pela revelao do segredo dos
seus amores com um cavalleiro portuguez, como Herculano deprehende do
codice por elle publicado no PANORAMA, no haveria decerto manifestado pela
morte da duqueza um to profundo sentimento como aquelle que se traduz pelo
facto de haver mandado cunhar no apenas uma s medalha commemorativa--mas
duas.

A effigie de D. Beatriz, gravada na segunda medalha,  claro que nada pde
aproveitar para tirarmos a limpo a cr dos seus olhos. Mas a este respeito
basta o testemunho fidedigno, a que j nos referimos, do snr. Miguel
Martins Dantas. Em todo caso, a medalha  muito interessante, pois que
reproduz, e devemos suppr que com fidelidade official, as feies da
infanta portugueza e a sua _toilette_.

A medalha representa-a com um toucado de pedras preciosas, que lhe
circumdam os cabellos apartados ao meio e cahidos em madeixas sobre os
hombros. Vestido de decote escanteado. Um pequeno cabeo de recortes com
tres voltas de pedraria. Collar pendente. A meio do peito uma cruz suspensa
da orla do decote.

As feies do retrato enviado pelo snr. Dantas ajustam-se inteiramente s
da effigie que a medalha representa: Nariz comprido, bocca pequena e
grossa, testa alta, sobrancelhas pouco espessas e arqueadas, pescoo alto e
bem lanado, estatura erecta, porte gentil.


III

Vamos porm  historia do casamento da infanta D. Beatriz de Portugal com
Carlos III, duque de Saboya.

So conhecidos os pormenores da viagem da infanta pelo opusculo de Garcia
de Rezende, que anda nas suas obras, intitulado HIDA DA INFANTE D. BEATRIZ
PERA SABOYA; e pelo capitulo LXX, quarta parte, da CHRONICA DE D. MANUEL,
por Damio de Goes.

J tivemos tambem occasio de referir-nos ao auto de Gil Vicente que tem
por assumpto a viagem de D. Beatriz.

No tomo II das PROVAS DA HISTORIA GENEALOGICA encontra-se a pag. 439 o
_Contrato do casamento_, e a pag. 445 a longa enumerao dos objectos que
constituiam o opulento enxoval da infanta.

At aqui o que conhecemos dos livros portuguezes.

Agora passemos a soccorrer-nos da MEMORIA do baro Gaudenzio Claretta, a
fim de a divulgarmos em Portugal, por ser realmente muito pouco conhecida
entre ns.

O casamento realisou-se no 1. de outubro de 1521, na igreja dos
dominicanos de Niza, lanando a beno nupcial o bispo de Vercelli,
Bonifacio Ferrero, que mais tarde se tornou conhecido pelo nome de cardeal
de Ivrea.

Realisaram-se pomposos festejos publicos, primando entre elles, pelo seu
luzimento, o torneio celebrado junto  porta Marina, no qual cavalleiros
hespanhoes, portuguezes e italianos quebraram lanas em honra dos augustos
esposos.

O codice citado por Herculano conta que a infanta, tendo chegado a Villa
Franca pela uma hora da tarde do dia de S. Miguel (29 de setembro), no
queria sahir da nau, o que fizera a instancias do duque de Saboya.

D'ahi inferiu Herculano que a a m vontade com que ella desembarcou mostra
que este casamento no lhe era demasiadamente grato.

Vejamos porm o que diz o texto da MEMORIA de Claretta:

  Seguendo ora il racconto del Revelli, narra questo storico che il giorno
  29 verso _le tre ore di notte_ sbarc la principessa a Villafranca, dove
  di comandamento del Duca eransi portati per riceverla e complimentarla
  Lodovico dei Malingri, Gioanni d'Orli, il vescovo Geronimo d'Arsagis,
  Onorato Cays ed i consoli seguiti dai primi gentiluomini del paese. L'ora
  era gi avanzata, _ma pur volle l'infante Beatrice_ la sera medesima
  recarsi a Nizza traversando il colle di Montalban al chiaror di molte
  faci, ed assisa su di una sedia soppannata di velluto e d'armellino,
  sostenuta da quattro gentiluomini portoghesi. Giunta la comitiva ai
  molini di Riquieri le acclamazioni pi vive degli astanti annunziarono
  l'incontro del Duca, il quale era giunto quella sera all'abbazia di San
  Ponzio e non aveva voluto far l'ingresso nella citt prima che fosse
  arrivata la sposa.

Vo grifadas as expresses que contrariam a verso do codice publicado por
Herculano.

Como vimos, Claretta apoia-se na narrao de Revelli, e no podmos suppr
que Claretta occultasse a verdade, por isso que elle a patenteia com
inteira franqueza em varios lances da sua MEMORIA, especialmente, como
veremos, quando se refere  decadencia da crte de Carlos III.

O condado de Niza offereceu  duqueza, como brinde de casamento, a somma de
cinco mil florins.

Pier Leone di Cavagli, conego de Santa Maria della Scala de Milo, recitou
uma orao e um epithalamio, de que existe um exemplar na bibliotheca real,
sendo o opusculo que contm as duas peas litterarias muito raro na Italia.
_Oggidi assai raro_, diz em parenthesis Claretta.

A orao  em latim. Claretta d alguns extractos, e commenta-os. Por
exemplo:

  ... habes uxorem pulcherimam (_ei gli dice_) venustissimamque ut cernere
  est virtutis lacte et cura ut scimus nutritam (_e questo era vero_)
  fcundam ut optamus.

Claretta publca na integra o epithalamio, tambem latino, que foi recitado
pela menina Veronica Leone, de quatro annos de idade apenas--_giovinetta di
quattro anni_.

N'esse epithalamio so grandemente exaltadas a belleza e castidade da
infanta D. Beatriz.

Claretta ainda cita outras congratulaes poeticas que por essa occasio
foram publicadas.

A tres de outubro fizeram os duques de Saboya a sua entrada solemne na
cidade de Niza pela porta _Pairoliera_.

Segundo Revelli, cerca de tres mil portuguezes, ricamente vestidos, tomaram
parte no cortejo. Mas outros muitos, no menos ricamente vestidos,
assistiram como espectadores ao desfilar do prestito.

Agora vem algumas linhas de Claretta, que reproduzimos no texto para que
n'ellas sobresaia a impresso profunda, conservada pela tradio, que
causra em Niza o apparato que os portuguezes exhibiram n'esse acto:

  Soggiunge il citato storico (Revelli) che i Portoghesi sommarono a ben
  cinque mila, e che fu cosa ammirabile il vedere tanti ornamenti d'oro,
  gemme, selle de cavalli com briglie, staffe, speroni e cose simili tutte
  formate di lame e piastre di puro oro, uccelli ed animali peregrini,
  quantit incredibile de aromi di specie diversa, in una parola, tutto che
  di prezioso dall' Africa e dalle Indie, con l'occasione dell' navigazioni
  alle pi remote parti, era stato apportato al re di Portogallo.

Ahi fica mais essa recordao do nosso passado esplendor n'um tempo em que
a riqueza dos cavalleiros igualava a dos arreios dos cavallos, tudo
constellado do ouro e pedrarias, que o descobrimento da India nos permittia
exhibir por entre nuvens de exquisitos perfumes orientaes.

Segundo Claretta, foi no dia 8 de outubro que os noivos partiram de Niza
para o Piemonte.

Esta indicao confere com a do codice publicado no PANORAMA.

 porm durante a jornada que o author do codice se refere a violencias
praticadas contra os portuguezes que acompanharam a infanta.

Claretta cita os nomes dos personagens italianos que fizeram squito aos
noivos at Vigone, um dos quaes personagens era o governador de Niza, com o
seu logar-tenente. Parece natural que aquelle funccionario e alguns mais
retrocedessem depois de haverem acompanhado os duques por algum tempo.
Accrescenta Claretta que em Vigone se despediu o cortejo, ficando ahi os
noivos, podendo suppr-se que no gso da sua lua de mel, livres finalmente
das impertinencias officiaes, que durante oito dias os tinham rodeado.

A 10 de fevereiro de 1522 expedia Carlos III patente de assentamento, a
favor de D. Beatriz, da quantia de nove mil e setecentos florins, com
hypotheca sobre diversos rendimentos publicos, e a 22 de abril passava
quitao ao rei de Portugal da somma de cento e cincoenta mil ducados, com
que a infanta fra dotada por seu pai.

Os duques demoraram-se em Vigone at ao mez de maro, recebendo ahi D.
Beatriz, por parte do estado do Piemonte, um donativo de cincoenta mil
florins, e o duque outro de duzentos mil.

Claretta diz que a entrada dos noivos em Turim fra saudada pela populao,
mas que as festas publicas bem depressa tiveram de ser ensombradas pela
noticia da morte do rei de Portugal, occorrida no mez de dezembro, _e pela
peste que os portuguezes haviam deixado em Niza, cujos habitantes
flagellra por longo tempo_.

A scena da ponte, descripta no codice do PANORAMA, quando uns cem
alabardeiros pozeram as alabardas aos peitos dos portuguezes, que queriam
acompanhar a infanta, teria uma explicao inverosimil pela verso de
Herculano, visto como o duque no havia ainda regulado a situao
financeira de um casamento que tanto lhe convinha e por que tanto instra.

Sendo tamanha, como refere Claretta, a multido de portuguezes que
assistiram  recepo da infanta D. Beatriz, explica-se facilmente o acto
de violencia praticado pelos alabardeiros como medida prophylatica adoptada
pelo duque contra a invaso de uma epidemia que desde longos annos no
tinha deixado de fazer grande numero de victimas em Portugal. Pde mesmo
ter acontecido que um ou outro caso de peste se houvesse manifestado entre
os cinco mil portuguezes que por occasio das festas do casamento se
encontravam em Niza, incluindo os marinheiros dos dezoito navios que
constituiam a frota portugueza.  porm natural que os portuguezes se
offendessem com essa precauo, e desfigurassem as intenes de Carlos III
tomando-as  conta de descortezes para com a infanta, e de hostis para com
elles.

As condies hygienicas de Portugal eram realmente deploraveis ento. A
peste tinha devastado o reino annos antes, e, referindo-se  morte de D.
Manuel, diz Garcia de Rezende na _Miscellania_:

  N'este anno se finou
  o gran rei D. Manoel,
  quantos comsigo levou
  a morte triste, cruel?
  que rei, que gente matou?
  duzentos homens honrados,
  em que iam muitos d'estados,
  vivos que ento se finaram
  de modorra, e escaparam
  muitos j quasi enterrados.


IV

 certo que em torno da infanta D. Beatriz se levantaram desde o principio
algumas recriminaes. Mas no partiam do duque de Saboya nem procediam de
ciumes. Partiam do povo.

D. Beatriz tinha sido educada na opulencia e, como era natural, no perdra
facilmente esse habito. Os saboyanos achavam-na altiva, orgulhosa, e
criticavam n'ella os costumes de Portugal.

O duque, bem ao contrario dos sentimentos que lhe attribue o codice citado
por Herculano, transigia com a esposa.

Elle proprio, quando a crte se dirigiu a Genova, seguia o coche rico que
conduzia a duqueza, montando uma mula, acompanhado pelo abbade de Beaumont.

Os genovezes, segundo o testemunho de Spon, censuravam que Carlos III
dispendesse em pompas, para honrar sua esposa, o dinheiro que melhor seria
empregado em fortificar a cidade.

No obstante estas censuras, as festas continuaram.

Por sua parte, a duqueza devia sentir-se contrariada porque, tendo sido
educada no esplendor dos Paos da Ribeira, via-se agora condemnada a viver
n'uma crte pobre e endividada, no sem que o povo murmurasse  menor
despeza que ella fazia.

Mas,  Claretta quem o confessa: a experiencia no devia tardar em
corrigil-a. D. Beatriz inteirou-se das circumstancias, como mostra a sua
correspondencia, que Claretta examinou com cuidado, e que elle proprio
divide em politica e particular.

Desprendida de todos os defeitos de educao, mostrando um espirito
desassombrado, como o de quem no est impressionado por a saudade de um
amor infeliz, como teria sido o de Bernardim Ribeiro, Beatriz de Portugal
principia a cuidar seriamente dos negocios internos do paiz.

Logo em 1524 escrevia ao marquez de Pescara para que fizesse cessar as
violencias que os soldados do imperador Carlos V, depois da victoria de
Pavia, commettiam no ducado de Saboya com grande vexame para os habitantes.
Carlos III implorava tambem no mesmo sentido.

A 13 d'agosto d'esse mesmo anno, D. Beatriz instava de novo, dirigindo-se
ao capito imperial Fernando d'Alenon para que deixasse de opprimir os
povos do Piemonte, em particular os de Borge e Bognolo _in maniera che li
nostri subdicti li quali gia tanto hano patito non seano in tutto ruynati_.

O imperador, cada vez mais solicitamente instado pelos duques de Saboya,
respondia com boas palavras apenas: em carta, datada de Toledo a 7 de
fevereiro de 1526, diz a Carlos III que tem por elle e por a duqueza sua
cunhada a maior considerao; que os vexames commettidos no Piemonte o
contrariam tambem; mas que espera pr-lhes termo logo que v a Italia.

A 12 d'esse mesmo mez de fevereiro, a duqueza de Saboya, D. Beatriz,
escrevendo ao commendador de Murel, dizia-lhe: _Vous n'aues pas a ignorer
les insultes et peilleages que alcuns souldars estantz dans Carmagnole
auecques leurs complices ont fait sur le pays de Monseigneur de maniere que
tous les chemins sont rompuz qui est grant scandalle por tout le pays ce
qui ne voulons plus en durer_.

Mas os vexames, as humilhaes continuavam.

A 22 de fevereiro, a duqueza energicamente recommendava  communa d'Ivrea
que lhe enviasse duzentos homens, dos melhores, a fim de policiarem os
logares vexados pelos soldados do imperador.

Em abril, como continuassem as coisas no mesmo p, D. Beatriz escrevia ao
marquez del Guasto, pedindo-lhe que fizesse retirar as tropas que
devastavam Racconigi.

Sempre valeram as supplicas repetidas e instantes de D. Beatriz junto de
Carlos V.

O imperador calmra um pouco a sua vingana, pois que tivera contas a
ajustar com Carlos III, ao qual em 1521 havia escripto, tratando-o no por
principe italiano, mas por seu _visinho d'Italia_, pedindo-lhe que obstasse
 passagem do exercito de Francisco I: no que fareis o vosso dever, e a mim
me dareis singular prazer, que no ser esquecido.

O duque de Saboya no s no obstou  passagem do exercito francez, seno
tambem o forneceu de viveres e munies.

D. Beatriz, logo que pde inteirar-se dos negocios politicos do paiz, e
intervir n'elles, procurou corrigir o desacerto do marido. Como vimos,
dirigia-se supplicante ao imperador ou aos seus capites, e tanto captivra
Carlos V, que elle, comquanto sempre dissimulado, acabou por attender-lhe
as supplicas.

Em 1524 D. Beatriz dera  luz um filho.

Os seus deveres de mi no a inhibiam comtudo de interferir solicitamente
nos negocios politicos do ducado,--com tal zelo, com tal dedicao, que no
deixa no nosso espirito sombra de suspeita de que ella, no caso de ter sido
amada por Bernardim Ribeiro, podesse lembrar-se ainda do infeliz trovador
portuguez.

O duque de Saboya tinha fixado a sua residencia em Chambery, cujo clima
molestava D. Beatriz, nascida e educada nas regies temperadas do
occidente. Alm do que, conservando-se no Piemonte, podia Carlos III
observar de mais perto os acontecimentos da Italia.

Esta ausencia obrigada contrariava muito D. Beatriz, como se v de uma
carta sua escripta ao duque a 21 de fevereiro de 1526: ... _votre retour
qui mest si long que plus ne pourroit_. J no podia supportar a ausencia
do marido. Como estaria esquecido Bernardim Ribeiro, se alguma vez tivesse
sido lembrado! No fim da carta falla-lhe do filho. _Du surplus votre filz
se porte tres bien_, etc. Deixou para o fim, como as mulheres sempre fazem,
o pensamento que mais podia attrahir o marido.

Carlos III, reconhecido  interveno de sua mulher junto do imperador,
escreveu-lhe de Chambery para Turim, em 19 de junho, uma carta que
completamente esmaga a suspeita de qualquer resentimento amoroso.

Diz a carta:

  Ma femme. J'ay receu toutes vos lettres par Chasteaufort et par luy
  entendu de vos nouuelles que me sont a tel aise et plaisir que plus me
  porrient mesmes vous voyant en bonne sant et les afferez reduitz a
  souhet dons auons a louer notre seigneur et de tant plus quaues heu si
  bon heurt que de faire vne si belle oeuure au bien et soulagement des
  subgectz et a votre gros honneur et reputation. Que vous sera succes et
  accroissement de vertu. Jay ausplus veu vos aduys et vous asseure que
  estre ces gens entierement vuydes ie ne tarderay a vous aller veoir et
  cependant ie men vey des demain Annessy car a... se fait le baptesme qui
  na este retarde que pour attendre les ambassadeurs des ligues et ne fault
  au demorant quaye nul soucy de ma personne car aidan Dieu elle vos sera
  conseruee et de notre fils. Je vous asseure quil fait graces a Dieu
  auquel ie prie qui vous donne ma femme le bien que ie vous desire De
  Cambery le XVIIII jour de juins--Votre bon mary, _Charles_.

A situao era realmente difficil para Carlos III. Precisava um Cyrineu
dedicado, e encontrou-o em sua mulher, D. Beatriz de Portugal.

A duqueza acompanhava, de Turim, todos os acontecimentos importantes, e
aconselhava resolutamente o marido.

Citaremos um trecho de uma carta sua, varonilmente energica, escripta ao
duque:

  Quant a la ligue de sept cantons suisses quoy que le pape saiche dire ie
  vous conforte si vous la pouvez conclure a la fere car la nature du
  marchant n'est que de voir a grandir vos voisins et sa mayson pour ruiner
  s'il pouvait la votre ou votre etat et tous les aultres quelque
  dissimulation quil face au contraire.

Como se sabe, depois do tratado de Madrid, to vexatorio para a Frana,
recomera a lucta entre Francisco I e Carlos V.

Foi pela Italia que as hostilidades principiaram, sangrentamente. Toda a
gente conhece as crueldades commettidas pelo exercito de lutheranos, que o
duque de Bourbon commandava. E toda a gente sabe que pelo desastre de
Landriano foram os francezes expulsos da peninsula italica.

Carlos V, victorioso, entrou na Italia, realisou a sua annunciada visita,
que tinha por fim fazer com que os senhores dos pequenos estados italianos
reconhecessem a sua suzerania e com que o papa Clemente VII o coroasse rei
de Italia e imperador.

Ento, a Frana teve de assignar um novo tratado pouco menos vexatorio que
o de Madrid: o de Cambrai.

Todavia, a situao do Piemonte no melhorra. As devastaes continuavam.
Carlos III lembrou-se de recorrer  intercesso de D. Joo III de Portugal.
Para isso solicitou uma carta de sua mulher, para o irmo, carta de que foi
portador um cavalleiro saboyano, de nome Honorato Cays,

O resultado d'esta misso diplomatica, em que D. Beatriz interveio, no o
conheceu Claretta.

Mas era esse o momento em que Carlos V devia realisar a definitiva
submisso da Italia.

Todos os principes d'aquella peninsula rodeiaram o imperador suzerano:
Carlos III, teve, junto de Carlos V, um logar de honra. D. Beatriz
offereceu ao imperador uma coberta de leito, do valor de dez mil escudos, e
Carlos V presenteou-a, em troca, com quatro vestidos de igual valor.

Terminada a ceremonia da coroao, D. Beatriz regressava a Turim, _sempre
intendendo all'amministrazione e buon governo dello statto_, diz Claretta.

Mas D. Beatriz no havia perdido politicamente o tempo que estivera em
Borgonha. Induzira o imperador a ceder-lhe, e aos seus descendentes, o
condado de Asti e o senhorio de Chevasco e Ceva, que, pelo tratado de
Cambrai, a Frana havia cedido a Carlos V.

A carta de doao, escripta em latim, e assignada pelo imperador, tem a
data de 3 de abril de 1531. Carlos V encarregou o gentilhomem D. Gutierres
Lopes de Padilla de legalisar a investidura, que foi celebrada
solemnemente.

Os habitantes do condado de Asti festejaram este acontecimento com
demonstraes de grande jubilo, e resolveram fazer  duqueza D. Beatriz uma
doao de dez mil escudos de ouro.

Em verdade, bem precisada estava de auxilios pecuniarios D. Beatriz.

N'uma carta ao duque dizia ella:

  Touchant ma despense Monseigneur j ay prins le premier payement de ceulx
  de Cargnan pour contenter partie de ce quest deheu tant seullement du vin
  et vous plaira nen estre marry vous asseheurant que la crierie et
  lextremit y estoit plus grosse que je ne vous ay jamais escript...

Parece mais uma carta de uma boa mi de familia burgueza, informando seu
marido, com uma grande dedicao conjugal, do mau estado das finanas
domesticas, do que a carta d'uma princeza, bella e joven, dirigida a um
marido pobre e _um pouco azumbado_, como lhe chama o author do codice
citado por Herculano.

A figura lacrimavel do desditoso trovador Bernardim Ribeiro apaga-se
lentamente, at diluir-se no esquecimento, se procuramos enxergal-a atravs
da dedicao politica e domestica com que D. Beatriz de Portugal encarou os
seus deveres de esposa de Carlos III de Saboya.

Ahi tem o leitor a plena confirmao de quanto lhe haviamos annunciado.

N'essa mesma carta refere-se D. Beatriz aos disturbios que occorriam entre
os habitantes de Fossan, sendo que os banidos da povoao tinham derrubado
uma grossa muralha. E accrescentava:

  Mais la difficult y est quil ny a moyen d'auoir argent por leuer gens
  pour y enuoyer et sans y fere quelque bonne entreprinse et demonstration
  de iustice la chose ne peult tomber que a pis.

As circumstancias pecuniarias da crte de Saboya tornaram-se cada vez mais
apertadas, a ponto de no haver dinheiro para pagar aos fornecedores.

D. Beatriz, filha do opulento rei D. Manuel, no tinha uma palavra de
queixume cerca da m situao financeira da sua casa, como seria natural
que tivesse, especialmente n'essa conjunctura, se, contrariando uma paixo
mallograda, houvesse sido compellida a um casamento que lhe repugnasse.

Oiamol-a:

  Au regard du duc d'Albanie sil treuue peu pour bien trecter et par
  faulte d'argent et mon poullalier ne voult plus fournir a cause qui lui
  est deheu pres de mil florins et a mon bouchier environ quatre ou cinq
  cens escuz auquel j ay rebattu sa part de la composition du Carignan
  tousiours en deduction de ce quen luy doibt et por non auoir argent soue
  constrainte dacheter sur la place de ceste ville a mespris.

Devendo ao fornecedor de aves e at ao talho--oh prosa vil das realidades do
mundo!--a bella princeza de Portugal via-se obrigada a mandar comprar 
praa, como toda a gente!

Tendo de receber como hospedes alguns capites do imperador, que a
encontraram em Rivoli e a acompanharam por distinco palaciana at Turim,
dizia D. Beatriz ao marido:

  Reste Monseigneur que ie suis assez mal en ordre de caddretz dune
  naugiere potz flascons platz chandelliers et aultre veisselle dargent. Et
  ne scay si le duc de Millan viene comme le pourray recepuoir a votre
  honneur et myen. Semblablement nya icy aulcune tappisserie ny donzelletz
  de soy combien que iay fait accoustrer le chasteau au myeulx que ma este
  possible.

Nem baixella, nem tapearia, nada! A isto estava reduzida uma filha de D.
Manuel de Portugal, forada alis, pela sua alta posio social, a receber
como hospedes os generaes de Carlos V.

Mas no era s a falta de dinheiro a unica difficuldade que tinha a vencer.

No dia 15 de agosto de 1532, foi D. Beatriz, com seu filho,  igreja de S.
Joo. Ahi travou-se uma grave rixa entre os senhores de Racconigi, de
Masino, o governador de Asti e o conde de Tenda. Houve quem dissesse 
duqueza que essa rixa seria um pretexto para ferir o principe, seu filho,
que tinha comsigo. D. Beatriz, mostrando uma intrepidez admiravel, mandou
suspender a missa, e retirou-se para o cro com o filho, com o prior de
Lombardia, com o abbade Capris, e alguns mais personagens. Acudindo alguns
cidados armados, que guardaram as pessoas da duqueza e do principe, D.
Beatriz ordenou que o templo fosse evacuado e, com a interveno do bispo
de Niza, fez reconciliar os contendores.

Ella propria deu noticia d'este acontecimento a seu marido dizendo-lhe:

  ... et le commancement du debat a tyrer les epes ont este les vallets de
  sorte quy sont venus aus meytres tant quy ly auet byen synt sans espes
  desgenes dedans le glisse et de sorte quy la faglu layser de dyre ma
  messe pour me retirer et jey heu peur pour ce que _tous me disoynt que je
  retyrasse mon fys cuydant quy fut este fet tout espres totefoys ce na
  este synon chosse quy tochet a tus memes_...

Quando a gente deletrea  luz d'esta realidade cruel a biographia de D.
Beatriz de Portugal, como que sente em torno de si um esvoaar de aves que
fogem amedrontadas, para no mais voltar.

Sao as fices da sua lenda poetica--a lenda com que a nossa infancia foi
embalada--que debandam, espavoridas e batidas, para o paiz azul d'onde
vieram...

Emquanto Carlos III, que continuava no Piemonte, via escapar-se-lhe das
mos a alliana dos genovezes, a duqueza de Saboya, esposa dedicada,
estremecia de cuidados pela saude do duque: ... quil vous plaise ne
trauailler tant votre personne que tomberiez en aulcune malladie car le
plus gros malheur qui sceust venu et a vos enfants seroit qui fussiez mal
despos.

N'uma outra carta da duqueza ha ainda um trecho mais expressivo do seu
carinho conjugal: ... si devan lundy ie nen ay nouuelles je deslivre me
mectre en chemin que ne sera encoures bien au long iusquez ie soie aupres
de vous _quest la chose que plus ie desire en ce monde_.

Se no recebesse noticias, que a tranquillisassem, a respeito da saude do
duque, D. Beatriz dar-se-ia pressa em partir para reunir-se ao marido, pois
que era essa a felicidade que mais desejava n'este mundo.

No corao da infanta portugueza no podiam existir, em face d'estes
documentos authenticos, vestigios de qualquer paixo, absorvente e
mallograda, sobredourada pelo encanto com que a saudade costuma revestir a
imagem dos ausentes queridos. No se v, atravs d'estas cartas, a amante
lendaria de Bernardim Ribeiro; o que se v  a esposa carinhosa do duque de
Saboya.

Sempre envolvido nas agitaes politicas da Italia, Carlos III viu-se a
braos com uma nova controversia. Disputava agora com o duque de Mantua a
successo do Monferrato pela extinco da linha masculina dos Paleologos. A
soluo foi favoravel ao duque de Mantua, e os partidarios de Carlos III
aconselhavam-no a empregar a fora das armas, a recorrer  violencia.

D. Beatriz de Portugal, que, de longe, acompanhava todas as questes
politicas em que o marido se via lanado, revelava o heroismo do seu animo
apoiando o conselho com resoluta firmeza: le vrai expedient et moyen de
vostre affere et ni ayez respect ni regard a personne ni a chose du monde.

Uma dama de to rija tempera, como D. Beatriz se mostrou em Saboya, no s
nos negocios politicos, mas tambem nos domesticos, no menos apertados e
difficeis, se se houvesse apaixonado por Bernardim Ribeiro, se tivesse
acceitado os galanteios do famoso trovador portuguez, haveria tido a
coragem de resistir a todas as vicissitudes que combatessem os designios do
corao amoroso.

Ao contrario de sua mulher, Carlos III, sempre vacillante, continuava
hesitando entre a Frana e a Hespanha, entre Francisco I e Carlos V.

D. Beatriz tinha, a este respeito, opinies definidas, e expunha-as com
clareza ao marido. Ella era pela Hespanha. E n'este sentido aconselhava ao
duque: ... mais que si vous aviez deliber vous entretenir envers France
comme aviez faict jusqu'ici que ce vous serait chose bien difficile pour
vivre avec tous deux neanmoins j espere selon votre accoutume prudence
vous y scaurez bien conduire.

Todavia as circumstancias eram de geito para entibiar qualquer animo menos
forte que o de D. Beatriz de Portugal.

Longe do marido, soffrendo pela saude e pela situao politica d'elle
continuados sobresaltos; luctando com a falta de recursos pecuniarios cada
vez mais aggravada; tendo perdido seu filho Luiz, que expirra em Hespanha,
na companhia de Carlos V, em dezembro de 1536; compromettida, no anno
seguinte, a sua delicada saude pelo extremo estado de gravidez em que se
encontrava; D. Beatriz de Portugal luctra, emquanto pudera, com animo
varonil e esforado, mas, presentindo a morte, que se avisinhava,
preparou-se serenamente para a viagem eterna, ditando as suas disposies
testamentarias.

Era, nas circumstancias em que se encontrava, uma princeza pobre.

Mas, pela leitura do testamento, reconhece-se toda a humildade dos seus
sentimentos religiosos, na recommendao que faz cerca da modestia dos
funeraes, e nos pequenos legados, nas ultimas recordaes com que
testemunha o seu affecto pelas pessoas que a rodeavam, as suas criadas
particulares, taes como a ama do fallecido principe Luiz e a mulher do
barbeiro do duque.

Herdeiro universal o marido. Aos filhos legava a tera. E recommendava que
se do proximo parto nascesse uma filha, no a casassem sem consentimento de
Carlos V; e sempre com um principe igualmente illustre em nascimento. De
contrario, preferiria que fosse freira.

Legitimo orgulho de uma princeza portugueza que, alongando os olhos para
alm do tumulo, procurava evitar que uma filha sua desposasse um d'esses
pequenos principes que enxameavam na Italia. Mi dedicada, queria que a sua
prole estremecida tivesse um destino mais tranquillo do que ella tivera.

O testamenteiro nomeado por D. Beatriz foi Francisco de Carvalho,
embaixador portuguez junto  crte de Saboya.

A duqueza dra  luz uma creana do sexo masculino, que recebeu o nome de
Joo Maria. Mas a saude de D. Beatriz estava de tal modo damnificada, a sua
fraqueza era tamanha, que rendeu a alma ao Creador no dia 8 de Janeiro de
1538.

O duque no assistiu ao passamento de D. Beatriz; o duque, a quem ella
_sempre cosi teneramente aveva amato_, diz Claretta. Sendo informado do
perigo que corria a vida da duqueza, Carlos III dera-se pressa em partir
para Niza, mas foi no caminho, em Genova, que recebra a fatal noticia.

O duque ficou fulminado. _Dicesi che il dolore da cui il buon Carlo III era
oppresso fosse talmente profondo che dava non poco a dubitare della sua
esistenza._  o testemunho de Claretta.

Comquanto fossem precarias as circumstancias da crte de Saboya, Carlos III
ordenou pomposos funeraes. Mas, aggravadas com esta despeza as finanas do
duque, no foi possivel dar inteiro cumprimento  ultima vontade de D.
Beatriz, quanto aos legados que ordenra em testamento.

Para memoria eterna de saudade conjugal, Carlos III mandou gravar em honra
de D. Beatriz, como j dissemos, duas medalhas.

Do casamento de Carlos III com a infanta de Portugal nasceram nove filhos:
seis do sexo masculino, sendo um d'elles o celebre Manuel Felisberto, o
vencedor de S. Quintino, e tres do sexo feminino.

Aqui fica pois reconstruida, graas  monographia de Claretta, a vida da
infanta D. Beatriz depois que sahiu de Portugal.

 o proprio Claretta quem confessa que a duqueza de Saboya tem sido
apreciada por modos diversos; mas a sua opinio exala-lhe a memoria.
Notando que Brantome faz referencia  altivez de D. Beatriz, diz que, tendo
a duqueza seguido a causa de Hespanha, este facto explica o resentimento de
Brantome. Dueros, na sua HISTOIRE D'EMMANUEL PHILIBERT, explica essa
altivez pela firmeza de caracter, que contrastava com a indeciso do
marido, e entende que D. Beatriz deve ser collocada a par das mulheres
fortes que a historia celebra.

Hoje, conhecidos os importantes documentos que Claretta deu  estampa, a
lenda d'essa paixo contrariada, em que D. Beatriz e Bernardim Ribeiro
durante tantos annos figuraram como victimas, recebeu por certo mais um
golpe.

Se o trovador tivesse sido amado pela infanta, se, como suspeitava
Alexandre Herculano, houvesse chegado at Saboya o segredo d'esses amores
infelizes, de que Carlos III quereria tirar represalias, o caracter de D.
Beatriz, em vez de se dobrar em carinhosas demonstraes de affecto para
com o marido, haveria reagido pelo desdem, e at pelo desprezo.

Mas no  isso o que vemos das proprias cartas da infanta.

E, se por hypothese, D. Beatriz se soube algum dia amada de Bernardim
Ribeiro, a noo do dever apagou completamente no seu corao a recordao
d'esse amor infeliz. Seria, n'esse caso, um idyllio que tivera a durao de
um meteoro, e cujas propores a historia, rigorosamente descarnada, no
pde avultar.

A nossa convico, pelos factos que longamente indicamos,  que a tradio
dos amores de Bernardim Ribeiro e D. Beatriz pertence aos dominios da
lenda; que se alguma paixo vehemente infernou a existencia do poeta da
MENINA E MOA, no foi D. Beatriz que a inspirou; mas no achamos
sufficientes os elementos at agora apurados para nos determinarmos pela
opinio de Varnhagem ou pela opinio do snr. Theophilo Braga, quanto ao
nome da dama que deve occupar o lugar em que a lenda collocou, no corao
do poeta, a infanta D. Beatriz.




<span id="chapIV">IV

REI E PASTOR

      O rei James V, que morreu de trinta e tres annos em 13 de dezembro
  de 1542, era um joven rei, tunante e magano, que se disfarava em trajos
  de mendigo, de adello, ou que taes, para andar correndo baixas aventuras
  pelas aldeias ou pelos bairros escusos das cidades.

  GARRETT.


I

  Ao p do freixo umbroso e da sonora fonte,
  Que do sombra e frescura s boninas do monte,
  Glycera, a moa loira, Amyntas, o pastor,
  Juravam-se um ao outro o seu eterno amor.

  Sobre a relva assentada, a formosa Glycera
  Tecia de jasmins e verdes folhas de hera
  Grinaldas e festes, cantando uma cano
  Em que menos cantava a voz que o corao.

  Assim tambem se eleva o cantico suave
  De uma ave que estremece  espera de outra ave
  Nas alcvas em flr que tece o mez de abril.

  No tardou que chegasse,  volta do redil,
  Amyntas, o pastor, j recolhido o gado.
  --Grinaldas! Para que?
                                --Para o nosso noivado
  Crando de pudor, Glycera respondeu,
  E emquanto elle a fitava, ella os olhos desceu.
  --Disseste muito bem, minha amada Glycera,
  Vamos ambos colhr jasmins e folhas de hera.
  Sim!... Tu no sers de outro?  minha a tua mo?
  De mais ninguem ser?
                              --Eu te juro que no.
  --Agora sou feliz! Vou dar-te, porque s minha,
  Aquella ovelha branca, ess'outra malhadinha
  Que valem um milho! Iguaes inda no vi!
  Mas, porque tu s minha, eu dou-t'as para ti.
  Olha, que lindas so! Valem um bom rebanho
  Na cr, na timidez, no pello e no tamanho!
  S teu, de mais ninguem,  o fresco laranjal,
  Que d to dce sombra ao meu... ao teu casal.
  Dou-te do meu redil os dois novilhos bravos,
  E as colmas que tenho, e todo o mel dos favos,
  As arcas, o bragal, peculio do pastor,
  E, acima d'isto tudo, o meu eterno amor.
  E, sorrindo enlevada, a formosa Glycera
  Alternava jasmins com verdes folhas de hera.


II

  Era o rei James V um joven rei feliz,
  Que de lendas de amor encheu todo o paiz
  Da sua bella Escocia, alcantilada e fria,
  Onde o seu corao a neve derretia.

  Soam trompas de caa, e em clere tropel
  Passa o rei cavalgando o seu veloz corcel
  Entre nuvens de p; e seguem-no monteiros
  E pagens de libr e mastins e rafeiros.

  Do freixo  verde sombra, assentada no cho,
  Glycera, de medrosa, ouvia o corao.
  --Bons dias, pegureira.
                            --Os mesmos vos desejo.
  Disse-lhe ella crando ou com medo ou com pejo.
  --Que fazes por aqui? Esperas teu pastor
  N'este ermo pinheiral?!
                              --No espero, senhor.
  --Como te chamas tu?
                            --O meu nome  Glycera.
  --Que linda e que gentil! Tu s da primavera
  A mais formosa irm!...
                              --Merc que me fazeis.
  --Se alguem te rouba aqui?
                            --Sou pobre, bem sabeis.
  Ninguem rouba  pobreza. Ella de si  escassa.
  --Excepto quando  o rei que n'estes sitios passa...
  --Piedade!
            E o louco rei, sem resposta volver,
  Aos monteiros bradou:--Prendei-me essa mulher,
  Conduza-m'a um de vs sentada na garupa
  Do cavallo. A galope! vante, corceis! Upa!

  E tudo se perdeu n'um turbilho de p
  Ao longo do caminho. O pinhal ficou s.


III

  Em noites de luar, noites de primavera,
  Ouvia-se dizer:--Onde ests tu, Glycera?
  N'esse ermo pinheiral, e um longo choro aps.
  Finda a verde estao, calou-se a triste voz,
  E nunca se ouviu mais sahir d'entre os pinheiros.

  Um dia, por acaso, um rancho de vaqueiros
  Passou alli, e viu estendido no cho
  Amyntas, o pastor. Chamaram-no em vo,
  Que elle no respondeu. Era gelado, frio.
  Dizem que succumbiu ao vr chegar o estio
  Sem Glycera voltar. E tinha a luz do sol
  Por cirio funeral, e folhas por lenol.

  Mas o rei James V, em seu palacio bello,
  Ao p do lago azul, que espelhava o castello,
  Estranhava a Glycera esse to louco amor,
  Que nos braos de um rei pranteava um pastor.




<span id="chapV">V

MI E FILHOS


I

A MI

Domingo, 23 de dezembro de 1888,  hora em que um bello sol de inverno
doirava pallidamente o co de Lisboa, convidando a despreoccupada populao
a fazer o _trottoir_ da Avenida, achava-me eu na igreja do extincto
convento de Agostinhas Descalas, no sitio do Grillo, em frente do caixo
onde tm repousado esquecidos os restos mortaes de D. Luiza de Gusmo,
rainha de Portugal.

No vo suppr que me estou dando ares de poeta funebre da realeza ou de
philosopho merencorio dado a scismar no problema da morte: _to be or not to
be_. Nada d'isso. Sou apenas um _dilettante_ de estudos historicos; tenho
por vezes o mau gosto de preferir os dramas do passado aos do presente, e
as epopas da historia s _partituras_ de S. Carlos.

Sabendo que se tratava de remover para S. Vicente de Fra os restos mortaes
da rainha D. Luiza de Gusmo, e que o feretro ia ser aberto para se
verificar se havia sido violado como constava s justias da Boa Hora, no
quiz perder a occasio de examinar por meus proprios olhos os ultimos
despojos d'essa notavel dama do seculo XVII, to energica junto de seu
marido, to resoluta na fragilidade do seu sexo, mas to sincera na firmeza
da sua justa ambio.

Fui.

Antes que o acto judicial principiasse, aproveitei o tempo visitando o
convento, a que D. Luiza de Gusmo se recolheu a 17 de maro de 1663, e
onde tres annos depois fallecra.

 vasto o convento, sem que todavia nada tenha de monumental. As Agostinhas
Descalas no ostentavam pompas monasticas. Ha no interior do convento todo
o aspecto de uma clausura severa: longos corredores sombrios, cellas
estreitas e mal allumiadas, tendo sobre a porta e o fundo da parede alguma
legenda biblica, alguma inscripo religiosa, por exemplo--_Da cella ao
co--No pde o servo servir a dois senhores_.

A abundancia de altares--pois vimos n'um a designao de 193--denunca que o
culto era alli fervoroso, e que no se podia dar um passo no interior do
convento sem ter diante dos olhos a imagem de um santo, de uma santa ou do
Redemptor.

Mas os nichos dos altares esto vazios, as imagens e as reliquias
desappareceram; convento e igreja foram brutalmente despojados; diz-se que
at o sino, apesar do campanario ser alto, desapparecra!

A rainha D. Luiza de Gusmo, afastada duramente da crte pelos conselheiros
de seu filho D. Affonso VI, acabou por decidir-se a entrar n'aquelle
convento, mas nada ha alli que denuncie grandeza de aposentos reaes.
Pareceu-nos que esses aposentos seriam uns que ficam voltados ao Tejo--por
serem um pouco melhores do que os outros--constando de uma sala com chamin
e uma pequena cella, contigua  sala, da qual recebe luz por uma janella
interior.

D. Luiza de Gusmo vivra pois modestamente entre as Agostinhas Descalas.

Poucos conventos, porm, teriam uma claustra mais vasta do que o do Grillo;
todo o pavimento terreo, que  enorme, serve hoje de deposito de
artilheria, est cheio de peas de campanha.

Algumas freiras, como as inscripoes tumulares indicam, jazem sob as
carretas.

Havia no Grillo s um cro, pequeno e modesto.

Mas, em compensao, a igreja, comquanto no seja grande,  boa, coberta de
azulejos de valor e de quadros, hoje completamente estragados pela
humidade. A teia do cruzeiro  magnifica, de bano e mosaico florentino,
com as armas de Portugal e da casa de Medina-Sidonia.

Era dentro da teia que estava o caixo da rainha, coberto com um rico
panno, deteriorado pelo tempo, e encimado pela cora real, sobre almofada
de estofo igual ao do panno.

Levantada esta cobertura com as formalidades judiciaes que o acto exigia,
reconheceu-se que o caixo, de pau Brazil, excellentemente conservado,
tinha sido violado nas fechaduras lateraes, pelo menos em duas que estavam
encravadas com pregos de arame.

Aberta a tampa do caixo, forrada interiormente de sda branca lavrada,
apenas emergia de uma espessa camada de cal a caveira, a cuja fronte havia
adherido a renda preta do vo, dando a impresso,  primeira vista, de que
uns restos de cabello a povoavam ainda. A illuso era completa.

A cal estava remexida junto do hombro direito da rainha, e na altura da mo
esquerda.

Verificou-se que o craneo se achava desarticulado da columna vertebral.

A cal afogava completamente as vestes do cadaver, e s por uma estreita
orla, que ficra a descoberto na extremidade inferior do caixo, se pde
conhecer que o vestido era de seda cr de castanha.

Da energica e virtuosa rainha de outro tempo restava apenas aquillo!

A renda do vo dava a illuso, como j disse, de que a testa da rainha era
de uma estreiteza simiana, quando em verdade D. Luiza de Gusmo, como se
sabe pelo retrato existente na Bibliotheca Nacional de Lisboa, reproduzido
por Benevides nas RAINHAS DE PORTUGAL, fra uma bonita mulher, de feies
muito regulares: testa espaosa, olhos grandes e pretos, bocca pequena,
rosto redondo.

O que ns hoje podmos apenas estranhar n'esse retrato so as exaggeradas
dimenses dos _bandeaux_, que eram moda n'esse tempo, sendo costume
adornal-os com murabuths e estrellas de pedras preciosas.

D. Luiza de Gusmo no morrra de idade que a velhice a tivesse podido
deformar: tinha apenas 53 annos. E a proposito citarei um documento, por
ser pouco conhecido entre ns:  a certido de idade, que encontrei,
segundo os meus apontamentos, na HUELVA ILLUSTRADA, por D. Juan Agustin de
Mora (Sevilha, 1762):

  Que en un libro de baptismos, que comenz ao 1602, y acab en 1626, que
  no est foliado, como  la mitad de sus hojas est una partida, que  la
  letra, es como se segue:

  En la villa de Huelva, jueves veinte y quatro dias del mes de octubre,
  ao de Nuestro Salvador Jesu Christo de mil y seiscientos y trece aos,
  yo el Lic. Diego Muniz de Leon, Visitador General del Arzobispado de
  Sevilla, baptiz  la seora Doa Luiza Francisca, hija del seor D.
  Manoel Alonso Perez de Guzman el Bueno, y de la seora Doa Juana de
  Sandoval, condes de Niebla: fu su padrinho el seor D. Gaspar Alonso
  Peres de Guzman el Bueno, Marqus de Casaza, y le adverti la cognacion
  espiritual, y lo firm: fecho ut supra.--Lic. Diego Muniz de Leon.

Por este documento fica rectificado o nome do pai de D. Luiza de Gusmo,
que o snr. Benevides diz chamar-se Joo Manuel Peres de Gusmo.

Os restos mortaes d'aquella mulher illustre, abstrahindo mesmo da sua
qualidade de rainha, inspiravam respeito.

A sua vida no fra uma inutilidade grandiosa. No. Junto de seu marido, D.
Luiza de Gusmo fra uma conselheira cheia de coragem e de energia,
indispensavel para completar o caracter irresoluto e medroso do duque de
Bragana. Na regencia do reino, todas as crtes estrangeiras faziam justia
ao seu animo forte, ao seu espirito esclarecido. S como mi fra infeliz.
Viu morrer o primogenito prematuramente, e os outros dois filhos no
rodearam de carinhos filiaes os ultimos momentos da rainha, que morreu ao
abandono da sua propria familia!

Nas MONSTRUOSIDADES DO TEMPO E DA FORTUNA e na CATASTROPHE DE PORTUGAL vem
transcriptas as cartas em que D. Luiza de Gusmo chamava do seu leito de
agonia o rei Affonso VI e o principe D. Pedro para os abenoar.

Sabe-se que a CATASTROPHE  um livro parcial contra o rei, mas, descontada
a paixo politica do author, o principe D. Pedro no se mostra muito
superior ao rei em extremos de amor filial.

A historia fornece-nos sobejas provas de que D. Pedro II no sabia
respeitar melhor do que seu irmo os vinculos de familia.

O bispo do Porto D. Fernando Corra de Lacerda diz na CATASTROPHE que o rei
e o infante acompanharam o cadaver da mi at ao coche funebre:

  Na segunda feira se dispozeram os funeraes com religiosa, e decente
  pompa, e  tera  noite depois d'el-rei e S. A. lanarem agua benta ao
  cadaver, e o acompanharem  liteira, foi levado  igreja do mosteiro do
  Sacramento de religiosos Carmelitas Descalos, que havia edificado,
  d'onde se sepultou por deposito, at se acabar a igreja das religiosas
  Descalas da recoleco de Santo Agostinho, de que era fundadora, na qual
  tinha mandado escolher a ultima sepultura.

Ora o desconhecido author da ANTI-CATASTROPHE (livro de que Camillo
Castello Branco diz com razo: tem relanos que inspiram crena; mas l vem
outros que a desluzem) no menciona o nome do principe, como assistente 
agonia da mi, e a respeito do rei descreve-o gastando tres dias de
Salvaterra a Lisboa, sem pressa nenhuma de chegar, porque mandava fazer
paragens para ouvir os musicos; e conclue por dizer: Foi para palacio,
porque, nem ainda morta a quiz vr.

O auctor das MONSTRUOSIDADES DO TEMPO E DA FORTUNA, qualquer que seja, diz
que nenhum dos filhos lhe assistiu, supposto chegassem uma hora antes da
rainha expirar, _por estorvados de quem sabia que os conselhos d'aquella
hora, como mais desenganados, so fielmente cridos e ficam na memoria mais
estampados_.

A verdade deve estar no meio termo: os dois filhos importaram-se pouco com
a morte da rainha, quer lhe deitassem agua benta quer no.

Ns  que lh'a no podemos deitar a elles para absolvel-os de to grave
falta.

Pois esta illustre princeza que tanto luctra toda a sua vida, com o
marido, com o cunhado D. Duarte[4], com Castella, com o irmo e com os
filhos, alli estava reduzida aos seus ultimos despojos, tocados pela mo de
vandalos que remexeram na cal para encontrar decerto alguma joia com que a
rainha tivesse sido amortalhada. O marido, bem menos sympathico do que
ella, est no pantheon real de S. Vicente, mas a benemerita Medina-Sidonia,
que, ainda descontado o natural interesse egoista de antes querer ser
rainha uma hora do que duqueza toda a vida, foi uma collaboradora
importante na restaurao da monarchia nacional, tem jazido no esquecimento
e no abandono, to sem repouso, que o seu cadaver vai agora fazer a
terceira jornada, porventura definitiva[5].


II

A FACA DO MARQUEZ DE CASCAES

O marquez de Cascaes  que fallou claro a el-rei D. Affonso VI.

Entrou, com uma faca na mo, na camara real, em occasio que o monarcha
dormia profundamente.

Sacudiu-o, accordou-o, e pediu licena para dizer uma grande verdade.

D. Affonso VI, se fosse um rei a valer, teria mandado cortar immediatamente
a cabea ao ousado fidalgo que o ia accordar no melhor do seu somno, no
para lhe levar um copinho de leite quente, mas para lhe dizer uma grande
verdade muito fria!

Era coisa que um rei podesse soffrer! Nem um vassallo a soffreria de boa
mente, quanto mais um rei! Imaginemo-nos accordados por um crdor,
violentamente, para nos dizer que lhe devemos ainda o capital e os juros. 
l coisa que possa tolerar-se!

Mas D. Affonso VI, recebendo a faca que o fidalgo trazia na mo, limitou-se
a dizer:

--L vem o marquez com alguma das suas!

Ora se tudo isto no basta para caracterisar um rei! Accordam-no de
repente, e no se zanga! mettem-lhe uma faca na mo, e fica com ella!
pedem-lhe licena, ainda por cima, para dizer-lhe uma grande verdade, e o
rei responde bonacheironamente: Pois diga l!...

 preciso no ter... alma!

Vai o marquez, e diz:

--Senhor, vs nascestes tolo.

E o rei contina ouvindo, pacientemente, de faca na mo!

Podia o marquez ter-se ficado por aqui, que j no era pouco nem mau, mas
carregou na tecla, visto ter achado brando o teclado.

--Sois doente, e cheio de enfermidades, accrescentou.

E o rei, sempre de faca na mo, pediu mais.

Ento o marquez queimou o seu ultimo cartucho:

--Nem sois para casado.

Era o mais que se podia dizer! Como havia de servir para rei um homem que
no servia para marido?! Rua com elle: era a traduco.

E o rei, diz o author das MONSTRUOSIDADES DO TEMPO E DA FORTUNA, concordou
com o marquez de Cascaes!

N'esse mesmo dia, 23 de novembro de 1667, D. Affonso VI assignou um termo
de desistencia em favor de seu irmo.

Eis-aqui a synthese de um reinado.

A faca do marquez de Cascaes ha de ficar eternamente na historia portugueza
como symbolo de boa administrao: corte-se tudo o que no presta.

Fizesse-se assim sempre, e em tudo, e as coisas iriam melhor...

Sabe a gente estes e outros factos, que testemunhas contemporaneas deixaram
memorados; sem embargo, D. Affonso VI tem uma tradio galante, de
aventuras amorosas... armadas no ar como os castellos de Hespanha.

Eu sei que me corre o dever de ser mais discreto do que a historia. Sei
isso. No irei revolver as monstruosidades escandalosas da nullidade do
casamento de D. Affonso VI. Nada d'isso. Procurarei apenas, na vida do
successor de D. Joo IV, o que possa haver de contavel em materia de
galanteria com mulheres.

Supponham que nasceu n'um monturo uma flr. Tem-se visto. Eu arrancarei
delicadamente a flr, sem tocar no monturo.

O snr. Andrade Corvo, n'um bello romance historico que eu anteponho, com
muita proeminencia, a varios livros do mesmo genero,  MOCIDADE DE D. JOO
V  por exemplo, conta as proezas galantes que D. Affonso VI fizera por amor
da _Calcanhares_, uma hespanhola.

Agora, que esto publicadas as MONSTRUOSIDADES DO TEMPO E DA FORTUNA,
sabe-se que o facto  inteiramente verdadeiro, porquanto o author d'este
livro, seja frei Alexandre da Paixo ou no seja, escreve com toda a sua
authoridade de contemporaneo:

  Acabado o dia soube a rainha que em uma janella do Pao estivera vendo a
  festa uma mulher conhecida tanto pelo nome, como pela vida, celebrada
  pela alcunha de _Calcanhares_, sustentada para feitio de sua magestade.

A este simples periodo de um manuscripto do seculo XVII foi o snr. Corvo
buscar habilmente todos os magnificos episodios a que, no seu romance, a
_Calcanhares_ serve de pretexto.

Muita gente, sempre de p atraz com D. Affonso VI, perguntava, depois de
ter lido _Um anno na crte_: Mas esta _Calcanhares_ existiu ou no existiu?

Ahi fica dada a resposta.

O sr. Corvo foi at excessivamente meticuloso como romancista historico.
Andou procurando nos codices do seculo XVII, escrupulosamente, certas
minucias, que ento no estavam ainda divulgadas, como hoje, pela
publicao das MONSTRUOSIDADES DO TEMPO E DA FORTUNA.

Assim, por exemplo, o rei, referindo-se no romance do snr. Corvo  rainha
D. Maria de Saboya-Nemours, trata-a por _Brichota_, com sem-ceremonia
contraria  etiqueta.

Brichota era synonymo de _estrangeira_.

Pois bem. L diz o author do famoso codice: Respondeu-lhe el-rei que lhe
no desse nada da _Brichota_, que fosse, e estivesse, e se ella
fallasse... O resto no digo eu ainda que me queimem, mas disse-o el-rei
D. Affonso VI.

Este monarcha no tinha papas na lingua, e por isso no estranhou a
descompostura, na e cra, que lhe pregou o marquez de Cascaes.

Eu possuo um livro precioso como subsidio para a historia do reinado de
Affonso VI. Intitula-se VITA DI MARIA FRANCESCA DI SAVOIA-NEMOURS, REGINA
DI PORTOGALLO, PER IL BARONE GAUDENZIO CLARETTA. O meu exemplar, comprado
no espolio do visconde de Borges de Castro,  ricamente encadernado, e tem
uma dedicatoria do proprio author.

Pois ahi, a pag. 100, l-se esta passagem, referente ao rei:

  _... nan era privo di un tal qual spirito, quantumque non sapesse n
  leggere, n scrivere ed usasse basse espressioni, come, per esempio: v
  bugiar... etc._

Fiquemos por aqui.

Os grandes amores romanticos de D. Affonso VI tiveram por palco o convento
de Odivellas.

Calumnia-se D. Joo V quando se diz que elle desacreditou Odivellas.
Aquillo j vinha de traz.

D. Fernando Corra de Lacerda, bispo do Porto, conta que D. Affonso VI se
deu ao galanteio das religiosas, frequentando diversos mosteiros, e que
sem reparar no decro que se devia aos lugares sagrados, fazia abrir as
portas das igrejas, sendo alta noite, succedendo muitas vezes que quando
em outros conventos se levantavam os religiosos para louvar a Deus, o
estava el-rei offendendo nas grades das suas igrejas.

Umas d'estas freiras era D. Anna Angelica de Moura, conhecida em Odivellas
pela alcunha galante de _Flr do Sol_.

Tomou el-rei amizade illicita com D. Anna de Moura, freira de Odivellas;
fazia-lhe continuas assistencias com grande indecencia, e geral reprovao
de toda a crte. O dia em que D. Anna de Moura fazia annos, foi el-rei
tourear no pateo de Odivellas: deu uma grande queda, de que esteve
sangrado, fazendo-lhe D. Anna de Moura a fineza de se sangrar tambem, lhe
mandou um grande presente, e quando a tornou a vr, lhe disse que desejava
fazel-a rainha de Portugal. (VIDA D'ELREI D. AFFONSO VI, publicada por
Camillo Castello Branco, e attribuida ao duque de Cadaval).

Pensa o leitor que esta dupla sangria foi uma galanteria original? Pois
est enganado.

No auto do MOURO ENCANTADO, do quinhentista Antonio Prestes, vem citado o
exemplo que a freira de Odivellas imitou:

  ... Foi como o meu,
  que sou quem o arremendou
  na guerra que a Pirro deu;
  sendo o vencimento seu
  uma mulher captivou
  da qual vindo-se a vencer
  por formosa, elle a amava,
  cousa brava;
  chegou ella a adoecer,
  e se ella se sangrava
  sangrava-se elle, que fava
  de amor pde mais ser?

Decididamente: no ha nada novo n'este mundo. O caso est em saber a gente
onde os outros foram fazer mo baixa.

Ora havia em Odivellas outra freira, que D. Affonso VI deixou para fazer a
crte a D. Anna de Moura.

Mulher de talento mas com cabellinho na venta, est'outra freira, que se
chamava D. Feliciana de Milo!

Dos seus desbragamentos de linguagem do ampla noticia Perim no THEATRO
HEROINO e Suppico na COLLECO DE APOTHEGMAS.

As duas freiras rivaes descompozeram-se em verso... como se valesse a pena!

D. Feliciana desembestou com o rei:

  Meu monarcha, o vosso amor
  e vosso trato amoroso
  tanto tem de primoroso
  quanto de pai e senhor;
  mas, ainda assim, causa dr
  e no com pouca raso
  vr que esta vossa affeio
  muito tem que a desdoura,
  pois adorais uma _Moura_,
  sendo vs um rei christo!

A _Flr do Sol_ respondeu:

  Com rara desigualdade
  vs murchaes, ella florece:
  Anna deidade parece,
  Feliciana _de idade_.
  Deixai pois essa vaidade
  porque a todos nos enfada,
  pois que sendo s chamada
  ser escolhida queiraes,
  maiormente quando estaes
  affeita a ser engeitada.

Que tolas! tudo isto por que?! Faam favor de lembrar-se da historia da
faca!

O _calembour_ de D. Anna de Moura era, como hoje dizemos, uma _piada_ 
outra, que foi uma grande _calemburista_ do seculo XVII.

Exemplo: D. Anna de Moura tinha um irmo, que se chamava Gil Vaz Lobo.

Um dia as duas freiras travaram outra das suas muitas pegadilhas. D.
Feliciana disse  rival:

--Se vos no aquietaes, dou-vos com vosso irmo pela cara (_Gilvaz_).

O rei pediu a alguem que lhe fizesse versos desconsoladores para D.
Feliciana, e mandou-lh'os. Vai ella, agastada, respondeu:

  Mais que louco atrevimento
   disparate cantado
  avaliar por cuidado
  _o que  s divertimento_.

Tome l, real senhor! No foi s o marquez de Cascaes que lhe disse a mesma
coisa.

Sempre a faca!


III

A FILHA DE D. LUIZA DE GUSMO

Em novembro de 1887, publicava um jornal de Lisboa a seguinte noticia, que
transcrevo textualmente:

  El-rei o snr. D. Luiz acaba de receber um presente, que lhe devia ter
  sido em extremo agradavel.

  Existia em Londres um magnifico retrato da princeza D. Catharina de
  Bragana, rainha de Inglaterra, e mulher de Carlos II, pintado por um dos
  melhores pintores inglezes d'esse tempo. Esse retrato, depois da queda
  dos Stuarts, soffrra fortunas varias, at que foi cahir ha pouco tempo,
  por venda em leilo, nas mos do coronel americano Mac-Murdo,
  concessionario primitivo do caminho de ferro de Loureno Marques.

  O snr. Mac-Murdo entendeu que devia presentear com essa tela historica
  el-rei de Portugal, e pediu-lhe licena para lh'o offerecer. Hontem o
  snr. Levis, ministro dos Estados-Unidos em Lisboa, devia ter entregado na
  Ajuda a el-rei D. Luiz a preciosa dadiva do seu compatriota.

  Dizem que este retrato, magnifico e muito bem conservado, desmente a
  lenda da fealdade da mulher de Carlos II, lenda que se fazia correr
  talvez para desculpar as numerosas infidelidades conjugaes do amante da
  duqueza de Portsmouth. A rainha D. Catharina, tal como o retrato a
  apresenta, sem ser uma formosura,  todavia uma gentil senhora, sobretudo
  com uma grande expresso de bondade.

_Sem ser uma formosura_, diz o texto da noticia, no era comtudo D.
Catharina de Bragana, rainha de Inglaterra, uma dama despicienda, segundo
o retrato feito por um pintor inglez contemporaneo.

 certo que em torno d'esta illustre dama da casa real portugueza, para
quem o throno britannico fra pouco menos de um calvario, se formra uma
lenda de fealdade, que os historiadores inglezes confirmam.

Assim, David Hume, o author da historia dos Stuarts, pinta-nos D. Catharina
de Bragana como princeza de uma virtude sem macula, a qual, todavia, no
pde nunca fazer-se amar do rei pelas graas da sua pessoa nem do seu
espirito.

Dizia-se, at  appario do retrato offerecido pelo snr. Mac-Murdo, que
Portugal fra obrigado a dotar a princeza de Bragana com Tanger e Bombaim
como compensao dos dois defeitos que Carlos II notava na sua noiva: ser
feia e ser catholica.

O que  certo  que o casamento custou a realisar-se, e que Portugal, para
vr no throno inglez a filha de D. Joo IV, teve que desapossar-se,
effectivamente, de Tanger, que no aproveitou muito aos inglezes, e de
Bombaim, de que elles vieram a fazer uma das primeiras cidades do mundo.

A infeliz princeza no tirou, porm, d'esse casamento as vantagens que se
esperavam. Viveu humilhada pelas leviandades amorosas de Carlos II,
preterida pelas amantes do rei, especialmente pela condessa de Castlemaine,
e, guerreada pelos protestantes, chegou a ser accusada de querer envenenar
o marido.

Tudo isso se sabe, e seria fastidioso recordar n'um artigo fugitivo os
lances dramaticos da vida atribulada de D. Catharina de Bragana em
Inglaterra.

O meu fito  outro.

Eu quero principalmente fazer notar, como curiosidade bibliographica,
alguns opusculos, em prosa e verso, a que deu lugar o casamento da infanta
portugueza com o rei inglez.

Principiarei por fallar de um escriptor que se desenfastiava dos seus
trabalhos nobiliarchicos cultivando as musas.

Refiro-me a Antonio de Villasboas e Sampaio, que escreveu: SAUDADES DO TEJO
E DE LISBOA NA AUSENCIA DA SENHORA CATHARINA, RAINHA DA GRAN-BRETANHA.

Villasboas, na sua qualidade de poeta, tomou a liberdade, que n'essa
qualidade lhe era permittida, de celebrar D. Catharina como um sol de
belleza, uma maravilha de formosura.

Disse uma vez um notavel homem politico do nosso paiz que todas as
princezas eram formosas. O poeta Villasboas justifica plenamente esta
espirituosa affirmao. Ninguem dissera nunca que D. Catharina fosse uma
dama formosa, nem mesmo o proprio retrato, que apenas pe em evidencia _uma
grande expresso de bondade_. No PEVERIL OF THE PEAK, de Walter Scott, a
rainha, que atravessa os ultimos capitulos d'este romance, resalta com essa
mesma expresso de bondade, annuveada de melancholia. Mas Antonio de
Villasboas no se prendeu com estas pequenas teias de aranha, e saudou em
D. Catharina de Bragana a oitava maravilha do mundo, quanto a belleza.

Oiamol-o:

  Dita ser que vejam l no Norte,
  D'onde o mal at agora ha procedido,
  O bem melhor da lusitana crte,
  A bellesa maior, que ho conhecido.

Esta hyperbole  um pouco compromettedora para as damas portuguezas, visto
que D. Catharina, no sendo bonita, era inculcada pelo poeta como o _bem
melhor_ da lusitana crte, a _bellesa maior_!... O poeta offendia
d'est'arte os creditos das damas portuguezas, que sempre tiveram fama de
bellas. Aqui ha prejuizo de terceiro.

Mas os poetas, se lhes d para serem lisongeiros, teem a vertigem da
hyperbole. Villasboas contina:

  De dia, se a no via, me alegrava
  Vr o sol, _que algum tanto a parecia,
  No em tudo, que a elle lhe faltava
  Da bella infanta a graa e bisarria_:
  De noite co'as estrellas conversava,
  E de todo o meu siso lhe dizia:
  Tendes estrellas, porventura, inveja
  De que a infanta mais formosa seja?

As estrellas, provavelmente, nunca responderam nada.

Outro poeta, Antonio da Fonseca Soares, que veio a chamar-se na religio
frei Antonio das Chagas, j tinha dito, saudando o anniversario natalicio
da princeza:

  Oy bellissima infanta
  Del lusitano sol alba nascistes,
  Y aurora apenas de sus rayos fuistes
  Quando te jusgaron del futuro trono
  Luz feliz, bello annuncio, ilustre abono.

Os poetas so como as Marias: vo uns com os outros.

Por occasio do casamento houve festas pomposas em Lisboa, e so hoje raros
os opusculos que as commemoram.

Por exemplo:

FESTAS REAES NA CRTE DE LISBOA _ao feliz casamento dos reis da
Gr-Bretanha Carlos e Catharina em os touros que se correram no Terreiro do
Pao em outubro de 1661. Dedicadas a Europa Princeza da Phenicia e escritas
por Izandro, Aonio e Luzindo, toureiros de forcado. Em Lisboa, 1661._

EPITHALAMIO _aos augustos desposorios de Carlos II e a Senhora D.
Catharina, Reys de Inglaterra, por Antonio Raposo, natural de Aviz_. Em
verso heroico.

Como se v, os poetas no tiveram mos a medir por occasio d'este
casamento realengo.

A viagem da noiva tambem foi largamente descripta:

RELAAM _dedicada  serenissima senhora rainha da Gran-Bretanha da jornada
que fez de Lixboa ath Por-Tsmouth pello padre Sebastio da Fonseca,
mestre, cappello, e presidente em o hospital real de Todos os Santos na
Cidade de Lixboa. Londres, 1662_.

Amostra:

  Serenissima senhora
  a quem todo o mundo acclama
  por bella Estrella do Norte
  lusido Sol da Bretanha

Com lisonja,--mas sem pontuao.

RELAAM _dedicada s magestades de Carlos-Catharina reys da Grande Bretanha
da jornada que fizero de Portsmouth ath Antoncourt e entrada de Londres
pelo P. Sabastio da Fonseca, etc. Londres, 1662_.

 o mesmo padre, sempre com _pello_ e sempre _cappello_--com dobrada.

RELAAM _das festas de palacio, e grandezas de Londres, dedicada 
magestade da serenissima rainha de Gran-Bretanha. Londres, 1663_.

 ainda padre Sebastio o author.

Dos vinte e tres annos que D. Catharina de Bragana viveu como rainha em
Inglaterra, no consta deixassem poetas memoria alguma metrificada.

Mas conhecemos a HISTORIA AMOROSA DA CRTE D'INGLATERRA, pelo cavalheiro de
Grammont, que chegou justamente a Inglaterra quando D. Catharina l chegava
tambem.

Depois de descrever a pessoa amavel do rei, diz o cavalheiro de Grammont
com referencia  sua crte:

  Quanto a bellezas, no se podia dar um passo sem as vr. As de maior
  reputao eram as d'esta mesma condessa de Castelmaine, depois duqueza de
  Clveland; madame de Chesterfield, madame de Shrewsbury, mesdames
  Roberts, madame Middleton, mesdemoiselles Brook e cem outras da mesma
  formosura que brilhavam na crte, cujo principal ornamento eram, porm,
  mademoiselle de Hamilton e mademoiselle Stewart.

  A nova rainha em nada augmentou o brilho do palacio, nem pela sua
  presena, nem pela sua comitiva. O sequito da rainha compunha-se da
  condessa de Panetra, na qualidade de aafata; de seis monstros, que se
  diziam damas de honor, e de uma aia, outro monstro, que se inculcava
  governanta d'estas raras beldades.

  Os homens eram: Francisco de Mello, irmo da Panetra; um certo
  Taurauvdez, que se appellidava D. Pedro Francisco Correo da Silva, feito
  ao pintar, mas s elle mais tolo do que todos os portuguezes juntos. Era
  mais altivo do seu nome que da sua boa figura; ora o duque de Buckingham,
  ainda mais tolo do que elle, e mais zombeteiro, atrambolhou-lhe a alcunha
  de _Pierre du Bois_. O pobre Correo da Silva indignou-se a tal ponto que,
  depois de muitas queixas inuteis e algumas ameaas sem effeito, teve que
  deixar a Inglaterra, ao passo que o feliz duque de Buckingham herdava
  d'elle uma nympha portugueza, que lhe tinha roubado, bem como dois dos
  seus appellidos, a qual nympha era ainda mais horrorosa que as damas da
  rainha. Completavam o sequito seis capelles, quatro padeiros, um
  perfumista judeu, e um certo official, apparentemente sem funco, que se
  denominava o barbeiro da infanta _(sic)_. Catharina de Bragana no se
  preoccupou de brilhar na crte encantadora onde vinha ser rainha, se bem
  que mais tarde conseguisse evidenciar-se algum tanto. O cavalheiro de
  Grammont, desde longo tempo conhecido da familia real e da maior parte
  dos homens da crte, no teve mais do que fazer conhecimento com as
  damas. Para isso no lhe era preciso interprete. Ellas fallavam o
  bastante para explicar-se, e entendiam o francez preciso para
  comprehenderem o que se lhes dizia.

  A crte era sempre numerosa junto da rainha; junto da princeza era
  menor, comquanto fosse mais escolhida.

Esta narrao carece de rectificaes.

A condessa de Panetra (por pouco que a no faz condessa de Penetra) era a
condessa de Penalva, irm de D. Francisco de Mello que fra agraciado com
os titulos de conde da Ponte e marquez de Sande.

Esta senhora morreu solteira em Inglaterra.

Francisco Corra da Silva era o nome do outro fidalgo portuguez roubado
pelo duque inglez; Pedro  que elle se no chamava, nem to pouco _Correo_.

O cavalheiro de Grammont  apenas citado a titulo de curiosidade historica,
porque, de resto, limita-se a estropear o nome das pessoas e a verdade dos
factos. Acha os portuguezes tolos e as portuguezas monstros. Em
compensao, falla sempre de si com encarecimento.

Morre Carlos II, depois de ter pedido perdo a sua esposa de todos os
desgostos que lhe fizera soffrer, regressa D. Catharina a Portugal, e logo
se reata a srie, vinte e tres annos interrompida, dos panegyricos.

Temos pois:

ORAOENS GRATULATORIAS _na feliz vinda da muita alta e muito poderosa
rainha da Gram Bretanha, compostas e recitadas na igreja da Divina
Providencia  nobreza de Portugal nas trez ultimas tardes do mez de janeiro
de 1693 pelo padre D. Raphael Bluteau. Lisboa, 1693_.

Seis annos depois, apparecia um folheto em latim, AGILULPHUS, impresso em
Evora, cujo argumento  o seguinte: Agilulfo, rei da Lombardia, idlatra e
perseguidor dos christos, feito christo pelas oraes e industria de sua
esposa, a rainha Teodolinda.

Este opusculo allude ao passamento de Carlos II, que, como conta Macaulay
na sua _History of England_, morreu reconciliado com a igreja catholica,
graas  piedosa interveno da rainha e do conde de Castel-Melhor.

Fallece em Lisboa D. Catharina de Bragana, em 31 de dezembro de 1705, e os
gemidos saudosos da poesia palaciana no se fazem esperar.

GEMIDOS SAUDOSOS _entre a illustre e luctuosa crte de Lisboa, e o poderoso
e sentido reino de Inglaterra: aquella lamentando defunta a sua venerada
Infante, e esta suspirando morta a sua melhor rainha a serenissima senhora
D. Catharina, por Pedro de Azevedo Tojal. Lisboa, 1706_.

Pobre rainha! como se lhe no bastasse soffrer um marido leviano, toda a
sua vida teve que aturar os poetas lisongeiros!




<span id="chapVI">VI

TRADIO GALANTE DE D. MIGUEL


Toda a gente tem mais ou menos ouvido contar aventuras amorosas do rei D.
Miguel de Bragana. Chamo-lhe rei porque de facto, seno de direito, o foi.
Escrevem falsa historia os authores de compendios que na lista dos reis
portuguezes supprimem o nome de D. Miguel, por o considerarem rei intruso.
Mas os tres Filippes, tambem intrusos, no deixam de apparecer em todos os
compendios de historia elementar. Ns temos c esta especie de critica, e
j agora havemos de ir assim. Mas o que importa ao nosso proposito  dizer
que as aventuras amorosas de D. Miguel, mais ou menos conhecidas de toda a
gente, no deixam este rei n'um plano inferior aos seus collegas em
absolutismo os galantes Henrique IV, Francisco I, Luiz XIV e Luiz XV. Fico
por aqui para no desdobrar um estendal de nomes... estrangeiros. N'isto 
que eu sou patriota.

Ha meio seculo apenas, raro principe sahia lettrado. A educao, vasada
ainda tradicionalmente nos moldes medievaes, tendia a fazer d'elles mais
homens do que sabios.  certo que, mesmo entre ns, D. Diniz, D. Joo I e
D. Duarte cultivaram as lettras, mas s de passagem. E assim aconteceu at
ao tempo em que floresceram os filhos d'el-rei D. Joo VI. Equitao, caa,
jogo de armas, alguma musica, e pouco mais como prendas de educao. Ora D.
Miguel foi educativamente modelado  feio e similhana dos seus
antecessores. Sahiu, pois, completamente, um principe do seu tempo.

De minguadissima illustrao, exhibia com pericia os dotes da sua educao
physica. Era excellente cavalleiro. Os soldados, quando o viam a cavallo,
ficavam enthusiasmados, e, quando a cavallo tinham de seguil-o, ficavam
estropeados.

D. Miguel partia de Queluz para Lisboa _au grand galop_, tomando uma
dianteira enorme ao esquadro que o acompanhava. E o seu cavallo, quando
elle apeava, ficava com os peitos abertos.

As mulheres, sentindo a correria doida d'um cavallo, vinham  janella para
vr passar D. Miguel, que era joven, bem posto, e rei absoluto. Rei
absoluto! A personificao viva de todo o poder terreno, emanado do poder
divino! Era para deslumbrar os homens, quanto mais as mulheres!

Muitas trovas populares fallam ainda hoje da belleza de D. Miguel de
Bragana, conservando atravs dos tempos um como rescaldo do enthusiasmo
popular com que o endeusavam:

  O senhor D. Miguel,
  _Lindo diamante!_
  Elle j  rei
  E no  infante.

  Eu fui vr a D. Miguel:
  'Stava n'um somno profundo.
  _Cara mais delicada
  No a ha em todo o mundo._

  _D. Miguel  delgadinho,
  Bonitinho e bem feito._
  Prometteu aos realistas
  Uma venra p'r'o peito.

  _D. Miguel  bonito,
   bonito e bem feito.
  Quebrou as pernas,
  Ficou sem defeito._

Fra n'uma d'essas correrias doidas, no a cavallo, mas em trem, que D.
Miguel dra uma queda no dia 9 de novembro de 1828. Esse desastre, de que
resultou para o rei fractura d'uma perna, foi, segundo uma verso
vulgarisada, a origem de se dar a alcunha de _malhados_ aos
constitucionaes, porque as mulas infieis que tiravam a carruagem eram
malhadas.

Sem embargo, encontrei outra verso, que  pouco conhecida, para no dizer
desconhecida.  o caso de repetir: _Se non  vero, e bene trovato_. Achei-a
no livro DON MIGUEL, _ses aventures scandaleuses, ses crimes et son
usurpation, par un portugais de distinction; traduit par J. B. Mesnard.
Paris, 1833_.

Ponho a citao em francez para que nada perca da sua inteira
originalidade:

  _Comme D. Miguel aime beaucoup les combats de taureaux, et que l'on a
  remarqu que ceux qui sont tachets sont les plus froces, les
  absolutistes ont appell les libraux malhados, mais por indiquer que D.
  Miguel devait les traiter como les taureaux._

A fallar verdade, tanto importa, para a offensiva malicia da alcunha, que
se tratasse de mulas como de touros.

Terei ainda que referir-me ao livro cujo titulo deixei indicado, mas, por
agora, observarei, com a trova popular, que o rei _galant'uomo_, apesar da
queda,

  Ficou sem defeito.

Ha em Braga uma escadaria de pedra, que do Campo Novo sobe para a ermida da
Senhora de Guadalupe, dividida por patamares, mas altissima e extensa.

Diz a tradio bracharense que n'um dos predios lateraes d'aquellas escadas
vivia uma mulher galanteada pelo rei, e que D. Miguel, em 1832, quando de
Lisboa sahira para Braga, ia todas as tardes vl-a, subindo e descendo as
escadas a cavallo.

Das suas faceis aventuras minhotas deve o leitor presumir. Braga estava
completamente fanatisada pelo rei. As mulheres cobriam de beijos as
medalhas e os anneis que se vendiam com o lindo retrato de D. Miguel.

  Se fres a Braga,
  Traze-me um annel,
  Que tenha o retrato
  D'el-rei D. Miguel.

Braga era a cidade fiel, por excellencia, ao rei.

Nos campos ou nas ruas, mulheres, de leno encarnado,--a cr miguelista,

  Se fres a Braga,
  Traze-me _uma fita,
  Que seja vermelha,
  Que eu sou realista_,

cantavam trovas em que o nome de D. Miguel se confundia com o das plantas e
das flres mais rescendentes.

  O alecrim  verde,
  A rosa tem cheiro:
  Viva D. Miguel,
  D. Miguel primeiro!

E toda a pena das mulheres do Minho era no serem soldados, no serem
granadeiros,

  Para defender
  D. Miguel primeiro.

Ainda ha pouco tempo recolhi em Mafra a tradio de um passatempo galante
de D. Miguel, quando alli ia, e se demorava no convento, cujos corredores
so, como se sabe, extensissimos.

O passatempo a que me vou referir tem todo o caracter d'esses jogos
cavalheirescos da idade-mdia, que ns ainda hoje vemos com agrado atravs
do prisma da elegancia antiga, para sempre quebrado.

O rei organisava nos corredores do mosteiro cavalhadas pittorescas. As
damas montavam jumentos, e deviam partir em duas alas e em sentido inverso
 direco que D. Miguel tomava, tendo partido do extremo opposto do
corredor.

O rei brandia uma tocha accesa, e as damas hasteavam uma roca
abundantemente carregada de estopa. D. Miguel, sempre a galope, devia, ao
passar pelas damas, incendiar-lhes a estopa das rocas,--o que poucas vezes
falhava.

Imagine-se a ruidosa alacridade d'esse galante torneio, em que, no raras
vezes, succederia s damas o desastre de cahirem _mal_, como aconteceu uma
vez a Marie Antoinette, proporcionando-lhe a queda um bello dito:

--_Ah! dame! quand on monte  ne, il faut tre en tat d'en tomber._

No me demorarei pela decencia devida aos leitores de menor idade, e aos
outros, em consideraes philosophicas relativamente  estopa das damas e
ao fogo do rei.

Passarei agora a fallar mais detidamente do livro cujo titulo indiquei ha
pouco.

O traductor Mesnard diz no prefacio que se propoz trasladar a francez um
opusculo allemo no principio d'aquelle anno publicado em Hamburgo, e acaba
declarando que Barreto Feio lhe permittira addicionar  verso
interessantes notas, e enriquecel-a com excellentes informaes.
Agradece-lhe, reconhecido, esse servio.

Uma justa curiosidade bibliographica penetrou logo no meu espirito: qual
era o opusculo allemo que Mesnard traduzira em francez?

Um feliz acaso fez com que, volvido tempo, se me deparasse na Bibliotheca
da Academia Real das Sciencias um opusculo escripto em lingua allem, e
intitulado D. MIGUEL I, USURPADOR DO THRONO PORTUGUEZ. _Um documento para a
historia contemporanea de Portugal por uma testemunha ocular, G. v. E.
Hamburgo, 1832_.

Era este decerto o opusculo, publicado em Hamburgo no principio _d'aquelle
anno_ em que Mesnard trabalhava na verso, que fez estampar no anno
seguinte.

Com o auxilio do snr. Pamplona, official da bibliotheca da Academia e
perito germanista, pude verificar que eu tinha diante dos olhos o original
allemo, cuja traduco franceza possuia.

Restava saber quem era o allemo, G. de E., _testemunha ocular_, qualidade
com que elle proprio se abonava.

De investigao em investigao, cheguei a apurar que a testemunha ocular
era Guilherme de Eschwege, baro d'este titulo, de quem Innocencio d
noticia no seu DICCIONARIO BIBLIOGRAPHICO, posto a no d do opusculo
relativo a D. Miguel.

Guilherme de Eschwege nasceu na Allemanha em 1778, entrou ao servio de
Portugal em 1802 com outros officiaes da sua nao, chamados pelo ministro
D. Rodrigo de Sousa Coutinho, a fim de serem empregados nos trabalhos de
minerao que se tratava de promover no Brazil.

Em 1822 ou 1823 regressou do Brazil a Lisboa, onde D. Joo VI o nomeou
intendente geral das minas e mattas do reino, cargo de que tomou posse em
agosto de 1824.

Demittiu-se em 1829 por no querer servir sob o governo de D. Miguel.

Partiu para a Allemanha, onde esteve at 1835, voltando ento a Portugal e
sendo reintegrado no exercicio de intendente de minas. Demittido no anno
seguinte, el-rei D. Fernando empregou-o na direco das obras dos palacios
reaes.

Estava com licena na Allemanha, quando morreu em Wolfsanger, no dia 1 de
fevereiro de 1855.

D. Miguel sae das mos do baro de Eschwege com a figurao de um monstro
sanguinario, que se refocillava na perpetrao de atrocidades selvagens.
Outras testemunhas oculares fornecem depoimentos que podem servir de
contestao a este. Guilherme de Eschwege era um ferrenho adversario de D.
Miguel de Bragana e, para nol-o pintar horrendo de alma, deixa em silencio
os actos que podem igualmente deslustrar o caracter de D. Pedro. Escreveu
quando D. Miguel reinava em Portugal, isto , escreveu para combatel-o como
adversario irreconciliavel.  preciso que esta considerao entre em linha
de conta.

Mas que subsidio nos pde fornecer o seu livro para uma ligeira monographia
sobre a tradio galante de D. Miguel?

Eis o que importa saber.

Pequeno subsidio recebemos do opusculo do baro de Eschwege; sem embargo, a
biographia galante do filho predilecto de D. Carlota Joaquina no carecia
d'elle.

Diz-nos que D. Miguel no teve como rei nem como infante uma favorita,
posto que em Vienna d'Austria se pensasse que a tivera. _Gosta muito de
variar, o que no pouco contribuiu para o engrandecimento do visconde de
Queluz._ So palavras do opusculo. Depois Eschwege conta que o visconde de
Queluz fra barbeiro, e que n'essa qualidade assistira s enfermidades
secretas de D. Miguel.

Notica que as damas abundavam na crte, durante os annos em que D. Miguel
reinra; que nos seres do pao se faziam representaes, n'uma das quaes o
rei desempenhra o papel de D. Quichote, e que outras noites se organisavam
jogos de prendas, sendo sempre D. Miguel quem _sentenciava_, e sendo muito
seu predilecto o castigo de dar palmatoadas.

Esta pena da palmatoria, alis usada ainda hoje nos seres de provincia em
que os jogos de prendas florescem, no constitue decerto uma das provas
mais eloquentes e ponderosas para acreditar nos instinctos sanguinarios de
D. Miguel de Bragana.

A fazer-se obra por isto, temos que reputar duplicadamente monstruosas,
pela _gaucherie_ de suas maneiras e pela crueza de seu animo, as damas da
provincia que ainda hoje empregam nos joguinhos de prendas o castigo da
frula, com grande risota dos assistentes, e at dos proprios condemnados.

Conta que D. Miguel dava duas recepes por semana, uma aos homens, outra
_s damas_. Estranha que de joelhos lhe beijassem a mo, mas informa que a
concorrencia s recepes era tamanha, que algumas vezes houve conflictos 
porta. Esta accusao tambem me no parece capital. As damas e os
cavalheiros queriam beijar a mo do senhor D. Miguel, e elle dava-lh'a a
beijar. Quem corre por gosto no cansa.  mesmo possivel que o rei alguma
vez retribuisse beijo por beijo. Que monstruosidade  esta?!

De D. Miguel infante refere uma aventura vulgarissima com uma franceza da
rua _des Vieilles-tuves_ em Paris. Esta mulher tinha uma vida to
aventurosa quanto escandalosa, e o infante, que no devia ficar
extremamente encantado com a boneja, que era feia, pediu-lhe que reduzisse
a escripta a autobiographia com que lhe prendera a atteno. A franceza
annuiu ao pedido, que o infante provavelmente remunerou, e o autographo foi
subtrahido em Vienna aos papeis de D. Miguel, como consta de uma nota. O
facto denunciado  vulgarissimo na vida dos principes e dos outros; mas a
subtraco de um papel particular, que andava na bagagem de um principe
moo, no me parece grandemente abonatoria da seriedade de quem a praticou.
D. Miguel, que restituiu  cora portugueza as joias que usofruiu, no
presumia decerto que lhe roubariam as memorias de uma rameira, escriptas
por ella mesma, no podendo valorisar-se como joias nem a escriptora nem as
memorias.

Refere o opusculo outra aventura do infante D. Miguel em Paris, e esta 
mais consentanea  sua indole de principe estouvado e desenvolto.

Deu-se o caso com uma capellista da rua _des Fosss-Saint-Germain_. A
franceza era encantadora: _charmante_, diz Mesnard. D. Miguel, no fazendo
reparo ou no se temendo de um sujeito que estava  porta, e que era o
amante da capellista, quiz, como pretexto para demorar-se, que ella
_deitasse a loja abaixo_, que lhe mostrasse muitas das mercadorias
guardadas nos armarios. A franceza trepou ao balco para descer um pacote,
e o infante beliscou-a ou palpou-a. A capellista gritou, e o amante sovou
D. Miguel, que teve de recolher-se ao leito no _Hotel Meurice_, onde se
havia hospedado.

Isto sim, isto  verosimil e concorda com outra aventura que D. Miguel
praticra, quando j desthronado, em Roma, e que logo contaremos.

Finalmente, o opusculo d-nos noticia de que D. Miguel, antes de sahir de
Vienna para Portugal, convidra officiaes e cortess para ceiarem com elle
depois do theatro. A ceia, que comera  meia noite, terminou ao
amanhecer, mas o infante lembrou, para remate da festa, que se queimasse um
_punch_  franceza. Dito e feito. Um leque de chammas phosphorescentes
irradiou da _poncheira_, e  volta, de mos dadas, n'uma farandola patusca,
o infante e os seus commensaes giravam n'uma especie de dana macabra, que
tinha alguma coisa de satanica. Terpsichore no regeu to ordenadamente a
chorea, que podesse evitar o tombar a mesa e a _poncheira_. Era natural
depois de libaes capitosas. O liquido inflammado alastrou no soalho, e
pelas frinchas das tabuas cahiu n'um palheiro que ficava nos baixos da
casa, incendiando-a.

Duas mulheres e um official pereceram no incendio, e D. Miguel, cujo fato
ficra queimado, correu grande risco.

No serei eu que prodigalise elogios  patuscada e ao _punch_, se bem que
honestos vares (j no direi o mesmo das donas concomitantes) teem, com o
baptismo do _punch_, sahido excellentes maridos. Mas tambem no lanarei 
conta das responsabilidades de D. Miguel o desastre da mesa e a
coincidencia de haver palha em baixo quando elles comiam em cima.

Aqui est o que pudmos obter da collaborao de tres homens: o baro de
Eschwege, J. B. Mesnard e Barreto Feio.

 pouco, sobretudo se attendermos a que foram tres os informadores, todos
elles dispostos a no ter complacencias respeitosas para com D. Miguel de
Bragana.

Passarei agora a occupar-me da annunciada aventura, que corre parelhas com
a da capellista em Paris. Vamos pois ao encontro de D. Miguel, que se
passou a Roma depois da conveno de Evora-Monte, e admiremos-lhe o bom
humor com que foradamente desceu do throno.

No me demorarei a meditar sobre o texto do celebre folheto D. MIGUEL EM
ROMA (Londres, 1844), que prega as miserias que aquelle principe soffrra
na cidade do papa. E no me demorarei porque, sob o ponto de vista d'este
artigo, tenho aquellas miserias por incompativeis com o desassombro de
animo com que o snr. D. Miguel de Bragana refinava em galanterias
audaciosas.

No vou inventar um caso, mas unicamente apoiar-me n'uma pagina das NOITES
PARISIENSES, de Mry, que, para maior escrupulo, traduzirei quanto possivel
acostado ao texto.

Eis-aqui a narrativa do primoroso estylista francez:

  D. Miguel, este Tarquinio o Soberbo, expulso de Lisboa, continua agora
  em Roma a historia de Lucrecia e Collatino; com a differena de que
  procede insensatamente, e n'uma igreja! Nero violava as sacerdotizas no
  recinto do templo de Vesta; Nero deve ser em tudo o patrono de D. Miguel.
  Parece que o perfume d'um templo ou d'uma igreja  um aphrodisiaco no
  clima italiano; testemunhas Nero, o sobrinho de Paulo II e D. Miguel.

  Era a 20 de maro, domingo da paixo, _vide_ calendario: que paixo
  dominava D. Miguel? N'esse dia estava elle na tribuna, visinha do tumulo
  de Paulo II, perto do sarcophago onde dorme essa mulher divina que tanto
  inglez haveria desposado, se estatuas de marmore podessem desposar-se. D.
  Miguel, principe catholico, dava pouquissima atteno ao evangelho
  dominical, e devorava com o olhar madame Aldobrandini Borghese, joven
  huguenote que exhibia os seus encantos acirrantes aos olhos dos cantores
  effeminados da capella Sixtina. O papa Gregorio VII officiava sob o
  baldaquino de bronze, fronteiro ao tumulo de S. Pedro; os peregrinos
  beijavam o p de Jupiter Stator, transformado em principe dos apostolos,
  segundo a metamorphose do raio em chaves; D. Miguel no via seno madame
  Aldobrandini.

  Ah! no conheceis esta mulher, cujo nome ldes! Roma inteira se namorou
  d'ella! Figurai-vos a Venus do museu secreto de Napoles; mas com am p a
  mais, cabellos loiros, e uns contornos capazes de fulminarem os Styros
  nos bosques. D. Miguel ardia; escutava o ruge-ruge do setim inglez, e
  esse _duo_ voluptuoso que canta a luva d'uma mulher quando acarica as
  dobras ondulosas do vestido! Oh! que se eu estivesse em Lisboa! dizia D.
  Miguel em voz baixa e _patois_ portuguez.  fora de contemplar o corpo
  flexivel da sua encantadora visinha, D. Miguel julgou-se transportado a
  Lisboa, deixou pender uma das suas reaes mos at tocar no hombro de
  madame Aldobrandini.

  --_Mylord!_ exclamou madame Aldobrandini, repellindo o contacto.

  O gonfaloneiro empallideceu, Gregorio VII interrompeu a ceremonia, e o
  principe Aldobrandini Borghese arrastou D. Miguel para junto do obelisco
  que Augusto dedicra ao Sol.

  --_Monsieur_, disse o esposo ultrajado, eu descendo em linha recta de
  Hildebrando, que mandou aoitar os cardeaes francezes Ossat e Duperron,
  representantes de Henrique IV; descendo de Paulo Borghese, o papa que
  concluiu esta basilica e, se duvidais, lde aquella inscripo: _Paulus
  Borghesius_, etc. Sou pelo menos vosso igual; vinde cruzar a vossa espada
  com a minha, aqui muito perto, nos pinheiraes de _villa_ Negroni. Vinde!

  D. Miguel respondeu:

  --Sou rei, e ungido do Senhor. Sou assaz bom para vos poupar um
  sacrilegio e uma excommunho. Boa tarde.

  Entretanto chegavam o commissario de policia e o cardeal Somaglia, com
  trinta suissos, vestidos de valetes de oiros.

  --Grande principe e grande rei, disse elle aos dois,  hoje o domingo do
  perdo. Estendei-vos a mo mutuamente. Sua magestade o rei de Portugal 
  joven e  preciso que a mocidade passe. Vou contar-vos a historia do
  sobrinho do pontifice Paulo.

  E os tres interlocutores desceram para a rua de Borgo Nuovo, rindo do
  sobrinho d'esse grande papa, esquecendo a historia que no momento os
  interessava; e o principe Aldobrandini convidou D. Miguel a jantar n'essa
  bella _villa_ que se encontra  esquerda, antes de entrar a porta do
  Popolo.

A historia do sobrinho de Paulo II  que eu no contarei, nem que me
queimem.

Mry teve menos escrupulos do que eu, e o proprio Paulo II no teve mais
quando, sabendo-a, exclamou: _Il faut bien que jeunesse se passe_!

Mas como o livro NUITS PARISIENNES  vulgarissimo, quem quizer que a
procure l.

Eu d'ahi lavo as mos.

E, por no enfadar a paciencia do leitor, e por evitar algumas memorias de
caracter escabrosamento pornographico, no irei mais longe.




<span id="chapVII">VII

MAXIMILIANO EM PORTUGAL


I

As MEMORIAS DE MAXIMILIANO foram pela primeira vez impressas em Vienna, em
1862.

Tiraram-se apenas cincoenta exemplares, destinados pelo archiduque s
pessoas da sua familia, a varios principes estrangeiros, e aos amigos mais
intimos.

A ida de fazer uma edio para o publico acudiu ao espirito de Maximiliano
em 1863, pouco tempo antes de lhe ser offerecida a cora do Mexico. Foi ao
baro Mnch-Bellinghausen, honrosamente conhecido na litteratura allem
pelo pseudonymo de Frederico Halm, que o archiduque confiou o trabalho da
edio definitiva das suas MEMORIAS, que principiaram a ser impressas em
Leipzig.

No Mexico, apesar das incessantes attribulaes que dolorosamente lhe
preoccupavam o espirito, Maximiliano reviu ainda algumas provas, indicou
correces especialmente motivadas pelas circumstancias politicas, que
tinham variado desde 1851. Mas a tragica morte do imperador do Mexico
roubaria  publicidade as suas MEMORIAS, se o imperador Francisco Jos, por
um terno movimento de piedade fraternal, no tivesse dado ordem para que se
concluisse a impresso.

A obra, em allemo, consta de sete volumes e intitula-se AUS MEINEM LEBEN.
REISESKIZZEN. APHORISMEN. GEDICHTE. (Recordaes da minha vida. Impresses
de viagem. Aphorismos. Poesias).

O ultimo volume comprehende as poesias escolhidas.

N'esta edio definitiva no foi porm incluida a _Viagem  Grecia_, que em
1868 sahiu impressa em Leipzig.

Eu vou servir-me da traduco das MEMORIAS, unica traduco franceza
authorisada, feita por Jules Gaillard, Paris, 1868.

Consta de dois volumes. O primeiro comprehende impresses de viagem em
Italia, Hespanha, Lisboa e ilha da Madeira; o segundo,--na Algeria, Albania,
alm do Equador, Bahia, Matto-Virgem, e os _Aphorismos_.

Foi em julho de 1851 que Maximiliano sahiu da bahia de Trieste, a bordo da
fragata _Novara_, para uma viagem de longo curso, seu ardente desejo. A
mesma fragata o conduziu ao Mexico, quando j imperador.  notavel a
coincidencia.

Jules Gaillard no traduziu integralmente as MEMORIAS DE MAXIMILIANO. Fez
um apanhado do que lhe pareceu mais proprio a interessar o leitor francez,
a caracterisar o espirito e imaginao do author ou a tornar conhecidas as
suas relaes com as crtes estrangeiras.

Portanto temos que contentar-nos, relativamente a Portugal, com as
impresses que a Jules Gaillard aprouve traduzir; mas reputamol-as
bastantes a darem uma ida precisa do modo de sentir e pensar de
Maximiliano a nosso respeito.

Comea o archiduque recordando o proverbio _Quem no viu Lisboa no viu
coisa boa_, com que a tradio celebra as bellezas de Lisboa, emparelhando
a capital portugueza com as mais formosas cidades do mundo, Constantinopla,
Stockolmo, Napoles e Rio de Janeiro.

Maximiliano no conhecia a lenda germanica, que Ferdinand Denis citou, de
um cavalheiro que em Jerusalem quiz vr n'um espelho magico a mais bella
cidade da Europa, e viu Lisboa; se conhecesse, tel-a-ia citado
conjuntamente com o proverbio para tornar ainda mais frisante a impresso
no inteiramente agradavel que Lisboa lhe causou.

O archiduque descreve Lisboa, vista do Tejo, como uma agglomerao de casas
sem o caracteristico de edificios distinctos e originaes, e sem o
pittoresco que resulta da harmonia da perspectiva. Lamenta a falta de uma
floresta onde a vista possa repousar, e acha que o ceu e a agua no possuem
o colorido quente e brilhante dos paizes meridionaes.

No se vem nem palmeiras, nem cyprestes, tudo  frio e monotono como em
certas regies da Allemanha; cidade por cidade, Praga  muito mais
pittoresca. A _Outra banda_  a unica parte que resalta verdadeiramente
bella, ainda que sem a grandeza precisa para que a impresso que produz
aproveite ao conjunto.

Ora Maximiliano veio a Lisboa em 1852, e  certo que no decurso de 37 annos
a cidade tem tido um grande desenvolvimento material, mas o aspecto da
casaria, disposta caprichosamente ao sabor das ondulaes do terreno,
quer-nos parecer de um bello effeito pittoresco, de uma variedade de
perspectiva encantadora.  tambem certo que falta aos edificios de Lisboa a
originalidade bysantina, a magnificencia oriental de Constantinopla, das
suas mesquitas, minaretos, bazares e _caravansrails_, que se debruam
sobre as aguas do Bosphoro, produzindo uma impresso surprehendente, tanto
quanto pela photographia se pde avaliar. Mas os edificios de Lisboa, se
no teem uma architectura typica como os de Constantinopla, so comtudo,
pela variedade da construco e pela sua disposio irregular, mas
graciosa, de um _ensemble_ que alegra os olhos e impressiona agradavelmente
o espirito.

A bahia do Tejo poder ser inferior  vasta toalha de agua do lago Moelar,
mosqueada de mil duzentas e sessenta ilhas, que torna deslumbrante a
situao de Stockolmo; poder ser inferior ao golpho de Napoles, cuja
belleza se opulenta com o espectaculo maravilhoso do Vesuvio, quando em
erupo; poder ainda ser inferior  bahia do Rio de Janeiro com as suas
grandes massas montanhosas, o _Po de assucar_, o _Corcovado_, a _Tijuca_,
ao fundo a _Serra dos Orgos_, e com as suas ilhas numerosas e sorridentes.
No discutimos primazias pueris. Mas a bahia do Tejo  de uma belleza ampla
e suave, de uma vastido harmonica e dce, que seguramente a torna uma das
mais bellas do mundo.

O Tejo teve a infelicidade de ser visto por Maximiliano n'um dia brumoso e
triste, que prejudicava _os tons quentes e brilhantes dos paizes
meridionaes_. No sei se o ceu de Lisboa  menos azul que o de Napoles, to
gabado; mas o que sei  que, nos dias claros, o nosso firmamento  de uma
doura de saphyra incomparavel, de um azul doirado que satisfaz plenamente
as nossas almas de meridionaes.

Maximiliano estranhou a falta de arvoredo, mas, por Deus! no faltam
arvores no conjunto panoramico de Lisboa, vista do Tejo.  verdade que 
na e arida a serra de Monsanto, pedregoso o corucheu da serra de Cintra,
mas que opulencia de vegetao no pendor e na base d'esta serra famosa! E o
arvoredo da Tapada da Ajuda? E o da crca das Necessidades? E ainda o do
cemiterio dos Prazeres? E as manchas verdes com que tantos jardins
particulares cortam a brancura alegre da casaria? Decididamente, o
archiduque Maximiliano teve um mau dia de chegada, escuro e melancolico.

Mas o que eu admiro so as suas saudades pelo cypreste, arvore funebre, de
que todavia alguns exemplares poderia enxergar no cemiterio dos Prazeres,
que alis menciona. Quanto  palmeira, que  realmente uma bella arvore
ornamental, Maximiliano deveria saber que essa arvore  filha dos climas
orientaes, e que s exoticamente vegeta nos paizes do occidente.

Depois de poucas linhas consagradas  impresso geral que lhe causra o
panorama de Lisboa, Maximiliano principia logo a descrever o interior da
cidade.

Quanto s ruas e s praas, o testemunho do archiduque -nos mais
favoravel.

Falla de _longas ruas regulares e bellas praas como no ha muitas nas
capitaes europas_. A _Praa do Commercio_  verdadeiramente magnifica, o
centro da cidade nova; todos os seus edificios so uniformemente
construidos em estylo neo-romano, e de uma brancura deslumbrante
(_blouissante_). Muitas largas ruas parallelas confluem perpendicularmente
a esta praa: as mais bellas so a _rua Augusta_ e a _rua Aurea_.

Chamar o centro da _baixa_ ao Terreiro do Pao  uma liberdade de poeta e
de... principe, pois que uma e outra coisa era Maximiliano.

 rua da _Boavista_ chama-lhe de _Buanavista_, e menciona-a talvez pela
circumstancia de conduzir ao palacio das Necessidades, onde a rainha D.
Maria II habitava.

N'estas diversas ruas encontram-se vastos edificios, verdadeiramente
dignos de uma grande cidade, com estabelecimentos ricamente adornados.
Perto das Necessidades as casas tornam-se mais irregulares e menos bem
alinhadas: conforme ao gosto portuguez, so pintadas a oleo em tons
assanhados (_criards_) verdes ou azues.


II

Maximiliano refere-se  cidade velha, dizendo que ella frma um completo
contraste com os novos bairros. Classifica-a de _medonho zig-zag que sobe e
desce_: as ruas cheias de excrementos de animaes e de ratos mortos. Julga
precisa uma grande coragem para habital-as, e ainda para transital-as.

Arde-nos?  pimenta. Mas, diga-se a verdade, devia ser assim em 1852, pela
simples razo de que ainda o  em 1889.

Eu no sei bem a que Maximiliano chama a cidade _velha_, se se refere 
collina oriental ou occidental, ao Castello ou ao Bairro Alto. Mas, em
qualquer dos casos, a apreciao  fundamentada.

Ha trinta e sete annos os despejos faziam-se ainda da janella abaixo,
depois da famosa preveno do _agua-vai_. s vezes nem a preveno se
fazia. Uma anecdota de Bocage conta que, achando-se o poeta n'uma situao
muito naturalista, recebra sobre o dorso uma baldada d'agua chilra, que
lhe despejra uma criada, a qual elle apostrophou n'este chistoso
improviso:

   menina do toucado,
  J que tem a mo to certa,
  Venha buscar a offerta,
  Que ficou do baptisado.

Mas nas tradies da antiguidade grega anda uma anecdota que prova ter
existido entre os hllenos igual costume. Tendo Socrates fugido um dia para
a porta da rua, por j no poder aturar sua mulher Xantippe, ella
aproveitou a occasio para fazer os despejos e encharcal-o, ao que o
philosopho respondeu com a sua habitual serenidade:

  Que no era agua de rosa,
  Mas outra menos cheirosa.

J expungimos,  certo, o sujo costume do _agua-vai_, mas os ratos mortos e
as cabeas de carapau perfumam ainda as ruas de Lisboa.

 porm injusto o archiduque quando diz que os portuguezes nem por todo o
ouro do mundo quereriam vr-se livres d'estas montanhas de immundicie. As
narinas nacionaes protestam contra a phrase. Mas  que crca de quarenta
annos de incessantes reclamaes no teem conseguido ainda estabelecer uma
policia municipal to vigilante, que ponha cobro a este abuso. De mais a
mais Lisboa , a respeito dos gatos, uma cidade fetichista. Lisboa adora o
gato, no s o gato domestico, mas tambem o gato vadio, _callejero_, como
diriam os hespanhoes. Toda a gente se julga constituida na obrigao de
alimentar os gatos tunantes atirando-lhes para o meio da rua as cabeas dos
carapaus e as miudezas das pescadas. Em Lisboa o gato no faz nada; quem
caa os ratos no so os gatos, so as ratoeiras. E ao passo que se d de
comer aos gatos bohemios com uma piedade tradicional, toda a gente compra
uma ratoeira para demonstrar a inutilidade do gato alfacinha. Na capital
portugueza, o gato  um sulto, que tem o seu serralho de bichanas ao ar
livre. Mas se houver uma camara municipal que se proponha arcar com o gato,
no haver _gatos_ eleitoraes que a aguentem, n'uma reconduco,  bocca da
urna.

Maximiliano impressionou-se em Lisboa com a abundancia dos papagaios.
Parece, diz elle, que estamos n'uma floresta virgem do Brazil. E
accrescenta que as parlendas dos papagaios so de ensurdecer a gente. Digam
que tambem no  verdade, se so capazes! A abundancia de papagaios 
talvez um vestigio do nosso antigo dominio colonial. Dos bons tempos em que
fomos os primeiros a pr o p na costa d'Africa e no Brazil restam hoje
apenas as chronicas e os papagaios. O que  certo  que rara casa no s de
Lisboa mas tambem de todo o reino deixa de ter um papagaio, seja pardo ou
verde, da Africa ou do Brazil. Cada brazileiro que chega, traz um papagaio
para si, e tres papagaios para os parentes. E na tradio popular anda o
estribilho dos papagaios, que tem passado de gerao em gerao com o
_Bernal francez_ e a _Silvaninha_:

  Papagaio real,
  Por Portugal,
  Quem passa?
  O rei que vai  caa.

No glossario nacional conservam-se algumas phrases attinentes aos
papagaios, taes como: _d c o p_, _meu loiro_, etc.; e no contentes com
os papagaios authenticos, temos varios papagaios metaphoricos, as tabuas
divisorias e pintadas de verde que separam as janellas de sacada; as
estrellas de papel que os rapazes lanam ao ar.

Depois da abundancia dos papagaios, estranhou Maximiliano a dos negros e
negras, que enxameam em Lisboa, notando que por um contraste, que parece
ironico, todos os pretos so caiadores.

Aqui est decerto outro vestigio dos nossos bons tempos coloniaes: os
pretos. Elles habituaram-se a Portugal desde o tempo em que vinham como
escravos; a tradio estabeleceu-se, e hoje vm como livres. Que diria
Maximiliano se soubesse que os portuguezes antigos, incluindo os nossos
primeiros poetas, davam o cavaquinho pelas pretas! Cames, o principe dos
poetas portuguezes, arrastou a aza a uma escrava negra, a famosa Luiza
Barbara:

  Pretido de amor,
  To dce a figura,
  Que a neve lhe jura
  Que trocra a cr.

Por isso,  certo, lhe fez troa um poeta anonymo da poca:

  Negrado, negrigorio, negregante,
  Negrica, negraria, negramento,
  Negrana, negrao e negra dura.
  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .
  Luiz, retrato negro dos amores
  Negros seus, aqui jaz; a endurecida
  Luiza negra o fez, com negras dres,
  Mudar em negra sorte a negra vida.

Nos autos dos poetas comicos do seculo XVI, um preto ou uma preta so
personagens obrigados. Gil Vicente diz na fara do JUIZ DA BEIRA:

  Eu andava namorado
  De ua moa pretasinha.

No theatro do Prestes e do Chiado a preta ou o preto apparece sempre com a
sua aravia, que era de um effeito seguro.

Na poesia popular ainda hoje vive uma quadra, alis formosissima, em que o
elemento chamita fornece a belleza do pensamento:

  Os teus olhos so gentios,
  So gentios da Guin.
  Da Guin por serem negros,
  Gentios por no ter f.

Maximiliano falla de uma especie de equipagem, o _sech_, montada sobre duas
rodas enormes, tirada por dois cavallos, muito usada ento em Lisboa. Ainda
c temos pouco mais ou menos o _sech_, mas hoje serve principalmente para
conduzir os mortos ao cemiterio.  um dos espectaculos mais tristemente
irrisorios de Lisboa.

Passa depois a occupar-se dos trajos nacionaes.

O mundo elegante veste-se  franceza. As mulheres do povo usam leno
branco na cabea e grandes capotes muito pezados:  uma precauo contra os
inconvenientes do clima, porque, em pleno estio abrasador, um frio glacial
cae sobre a cidade, e a corrente de ar do Tejo sopra frequentemente
asperrima atravs das ruas.

Tem razo quanto ao estrangeirismo dos trajos no mundo elegante. Do-lh'a
os proprios poetas portuguezes.

Rodrigues Lobo disse:

  Por isso qualquer profano
  Nos toma para entremez,
  Porque fazemos cada anno
  Te no trage portuguez
  Mais mudanas que um cigano.
  No tomamos isto em grosso;
  Vestimos por tantos modos
  Cada hora, que dizer posso,
  Que no temos trage nosso,
  Porque o tomamos de todos.

E Simo Machado:

  Vel-os-has, disse, _ franceza_,
  Depois d'isso  castelhana,
  manh  sevilhana,
  Hoje andam  bolonhesa,
  E j nunca  portugueza.

O capote preto e o leno branco eram, de feito, um trajo nacional, mas no
privativo das mulheres do povo. N'isto se enganou o archiduque. Tambem o
usavam as fidalgas. Em Lisboa j no ha d'isso seno pelo carnaval. Mas nas
provincias do norte ainda existe o capote. No sul, tenho-o visto muitas
vezes em Setubal, sem excluso das senhoras: capotes de panno finissimo e
brilhante.

Os homens tambem uzavam capote antes da invaso da capa hespanhola e da
capa _ Santo Antonio_; mas era ordinariamente de cr e com mangas.
Chamavam-se estes capotes _jossinhos_.

Camillo Castello Branco diz na ENGEITADA: Era de mulher o outro vulto
encapotado n'um _jossinho de mangas, como ento se dizia d'uns capotes que
tiveram em Portugal reinado longo_. E Nicolau Tolentino:

  Se a p, dando o _jossinho_,
  Escoltou Alcino ledo
  A Marcia todo o caminho,
  Foi porque elle tinha medo
  Que lhe cahisse o burrinho.

Isto, leitor, no pde ir de uma assentada. Seguiremos a jornadas vagarosas
o itinerario do infeliz archiduque.


III

Faz-se entre ns uma ida muito falsa de Lisboa. Figuramol-a uma cidade
rica em monumentos historicos, graciosissimamente situada, e beneficiada
por um clima dulcissimo: sonhamol-a em todo o brilho das tintas
meridionaes, em toda a magnificencia de uma vegetao tropical; imaginamos
que o Tejo deslisa sob um co azul  beira de antigos palacios de marmore,
navegado nas suas ondas argenteas por centenas de gondolas doiradas e por
galees carregados de metaes preciosos; o povo de Lisboa suppomol-o alegre,
cantando estancias melodiosas ao som da guitarra. Pura phantasia tudo
isso!

A fallar verdade, que culpa podmos ns ter do que os outros sonham a nosso
respeito?! Que responsabilidade nos pde advir do facto de ter o archiduque
Maximiliano, commandante da marinha austriaca, imaginado em Lisboa uma
vegetao _tropical?! Tropical!_  forte. Pois no sabia sua alteza qual
era a nossa situao geographica no mappa-mundi?! Suppunha-nos na Africa ou
na America?! Imaginava-nos talvez em Borneo ou Sumatra, na Oceania? Ah!
infeliz archiduque, que culpa tinhamos ns dos erros geographicos de sua
alteza e dos seus compatriotas?!

E as gondolas doiradas?! Quem nos inculcou na Austria como sendo o paiz das
gondolas?! Vossa alteza sonhou! E nas memorias nublosas d'um sonho
confundiu Veneza com Lisboa.

Quanto aos galees carregados de metaes preciosos, bem poderia sua alteza
tel-os visto, se se lembrasse de visitar Lisboa no seculo XVI. Com uma
antecipaosinha de trezentos annos--uma bagatella!--teria sahido o sonho
verdadeiro. Se vossa alteza, desventuroso archiduque, houvesse chegado a
tempo de encontrar el-rei D. Manuel, poderia, visto que estamos em mar de
anachronismos, apostrophar com Julio de Castilho os famosos galees da
India:

  L vem gals Tejo acima!
  l vem as gals d'el-rei!
  Quero ir vl-as  Ribeira;
   madre, comvosco irei.
  L vem, l vem Tejo arriba,
  l vem as gals d'el-rei.

  L vem as naus da conquista
  sobre os marinhos caches;
  conheo a nau do Almirante
  entre os outros galees,
  abertas as azas brancas!
  soberba co'os seus pendes!

Quanto a monumentos historicos, uma pirangaria! J  ter falta de vista!
Nem meio. O campo, um horror. A abundancia de moinhos de vento fez-lhe
lembrar Leipzig, as longas cordilheiras de collinas recordaram-lhe a
Allemanha. As laranjeiras portuguezas, to celebradas na Europa, c estavam
e no eram feias, mas no se podia parar um momento a olhar para ellas,
porque era o mesmo que ter uma constipao no corpo, por causa de um golpe
de sol _tropical_ ou de um golpe de vento igualmente... _tropical_.

E tristes, muito tristes os lisboetas. Mas que diabo de teima a do Paulus
em dizer ainda hoje que

  _Les portugais
  Sont toujours gais!_

Uma patranha de marca! Ns, os portuguezes, somos to chores, que at os
reis no escapam ao chro. Houve um que lagrimejou a ponto de ser
metamorphoseado em chafariz, o qual ainda hoje conserva a denominao de
_Chafariz d'Elrei_. Patranha por patranha. E ainda hoje conservamos tambem
este proloquio lamuriante: _A lagrima  livre_. A alma portugueza  uma
cebola que nos sobe aos olhos: por isso dizemos constantemente que os olhos
so o espelho da alma.

Sua alteza achou-nos muito parecidos com os macacos. N'este ponto no
podmos deixar de fazer honra  orientao transformista de sua alteza.
Chegamos a estar convencidos de que foi Portugal que suscitou a Darwin a
concepo scientifica da sua theoria; o sabio inglez, tendo conhecido em
Lamarck a lei da hereditariedade e a lei do desenvolvimento dos orgos,
pde, graas ao estudo anthropologico que fizera dos portuguezes, ir alm
de Lamarck. Foi isto, por fora.

E a lingua portugueza?! Como sua alteza a achou desafinada e charra! Tem
graa, porque ns pagamos-lhe na mesma moeda, quanto a lingua. No ha
portuguez nenhum que no esteja de accrdo com a opinio de Carlos V,--de
que o allemo  uma lingua para se fallar aos cavallos. Mas para chamar
desafinada  lingua portugueza j  preciso ter dureza de ouvido! E no
dizia o pateta do Filinto:

  Fallemos portuguez _brando e sonoro!_

Sua alteza estava com muita curiosidade de vr a rainha D. Maria II, porque
era sua proxima parenta e uma princeza reinante, cujo destino havia sido
dos mais agitados.

Quem o archiduque encontrou primeiro a esperal-o no palacio das
Necessidades foi o marechal duque de Saldanha, a quem chama o _genio
universal, o deus ex-machina_, o sol do nosso paiz n'aquelle tempo. N'isto
acerta. Triumphante o movimento politico da regenerao, Saldanha, coberto
do prestigio que lhe haviam dado as campanhas da liberdade, succedra no
poder ao conde de Thomar. Quando o archiduque Maximiliano chegou a Lisboa,
o ministerio era composto por Saldanha, presidencia e guerra; Rodrigo,
reino; Seabra, justia; Garrett, estrangeiros; Fontes, fazenda e obras
publicas; Athouguia, marinha.

A Garrett faz o archiduque uma referencia especial, sem o nomear, dizendo:
Entre os ministros mencionarei o dos negocios estrangeiros que, segundo me
disseram,  o mais celebre escriptor de Portugal. Suspeito-o mais escriptor
que estadista: de resto, falla perfeitamente o francez.

Maximiliano _esquissa_ o perfil do marechal: um homem gordo, constellado
de condecoraes, com os cabellos crespos e brancos de neve, bigode
retorcido, cr de azeitona e lunetas escuras com aro de ao.

Finalmente, o archiduque encontra-se com a rainha, com o rei D. Fernando, e
os tres principes mais velhos, D. Pedro, D. Luiz e D. Joo.

Maria da Gloria, diz o archiduque,  alta e direita; as suas feies so
nobres e graves, o cabello louro e fino. Tem os olhos azues dos Habsburgos,
mos pequenas e, por infeliz contraste, uma corpulencia genuinamente
portugueza, horrivelmente exaggerada e realmente inaudita. No obstante (o
que faz o elogio das suas graas naturaes) e cheia de elegancia e
vivacidade nos movimentos. Vi-a correr como uma donzellinha nos seus
aposentos, e ouvi dizer que dana graciosamente e sbe com ligeireza o
estribo da carruagem. Vestindo com delicadissimo gosto,  ainda seductora a
despeito da nutrio; poder-se-ia dizer at que, por momentos,  bella.

Este esboo no destoa dos retratos que conhecemos da rainha e nos quaes 
facil encontrar exacta semelhana com o perfil traado pelo snr. D. Antonio
da Costa na HISTORIA DO MARECHAL SALDANHA: gentil, como os seus quatorze
annos, a pelle, setim; a cr, alva; olhos, celestes; cabellos, como o oiro;
porte, nobre; rosto, reflexivo; etc.

Com taes predicados physicos no ha mulher feia, ainda mesmo que, no dobar
dos annos, o _embonpoint_ se torne um pouco exaggerado.

A principio, o archiduque achou a rainha hesitantemente silenciosa; no
obstante, as suas poucas palavras eram agradavelmente pronunciadas em
francez. Mas  medida que a intimidade se estabeleceu, a rainha revelou-se
alegre e espirituosa, comquanto sempre reservada ou antes preguiosa em
fallar, e na apparencia um tanto brusca.

Maximiliano louva a rainha como mi e esposa, considera-a um _raro modelo
de virtudes domesticas no meio d'este Portugal to corrompido_. Attribue um
pouco isso  simplicidade allem que o rei Fernando teria introduzido nos
habitos do _mnage_.

Ao lado de sua corpulenta esposa, o rei, que  de estatura elevada, parece
um pouco _effil_, revelando grande semelhana com Francisco I de Austria.
Conta apenas trinta e sete annos, mas, como tem o costume de inclinar a
cabea, afigura-se-nos mais velho.

Quanto a dotes de espirito e caracter, o archiduque no teve tempo para os
estudar no rei D. Fernando, mas quiz parecer-lhe que no podia medir-se
pela bitola de seu tio Leopoldo da Belgica.

Estranhou que o marido da rainha fosse rodeado por taes homenagens, que,
n'uma viagem  provincia, o povo pediu-lhe a beno. E o rei deu-a. A
fallar verdade, o beija-mo no se distanciava muito da beno.

Os tres filhos mais velhos estavam presentes, cada um com seu uniforme: o
principe D. Pedro, de general; D. Luiz, meu camarada, de official de
marinha; D. Joo, de official de infanteria (alis lanceiros).

O principe real tem notavel semelhana com a casa d'Austria, o que desde
logo lhe conciliou a minha sympathia. Possue um thesouro de excellentes
disposies naturaes que, infelizmente, no tm sido bem exploradas; a
despeito da boa vontade dos pais, no parece que tenha havido sufficiente
cuidado em formar-lhe esse caracter energico de que um principe tanto
precisa hoje, sobretudo na situao incerta em que se encontra Portugal.

O archiduque fiava muito da influencia que teriam as viagens no espirito do
principe real.

Quanto ao infante D. Luiz, depois rei, descreve-o como um rapaz alegre e
ladino, propenso a expanses de bom humor. Falla muito, e bem, diz o
archiduque: um jovial sangue viennense corre nas suas veias.

D. Joo  a antithese de seus irmos: silencioso e grave, pallido, cabello
castanho, olhos negros, olhar profundo; nenhum trao de elemento germanico:
um altivo Bragana dos antigos tempos.


IV

Conta o archiduque que assistra com a rainha D. Maria II e com el-rei D.
Fernando a um espectaculo no theatro de S. Carlos, que, apesar das suas
amplas dimenses, considera inferior ao _San Carlo_ de Napoles.

Exhibia-se n'essa noite o panorama do Mississipi, que tinha j feito, diz
Maximiliano, _le tour du monde_.

Ao passo que o panorama se desenrolava lentamente, a rainha conversava com
seu primo o archiduque, fallando-lhe com saudade do Brazil, onde nascra.
Maximiliano estranha que D. Maria II exprimisse tamanho enthusiasmo por um
paiz, como o Brazil, onde o calor  intenso. E observa: qualquer que seja o
paiz em que se nasceu, o amor  patria  sempre o mesmo! Esta observao
fica muito quem dos meritos litterarios do archiduque.  de uma banalidade
que lhe no faz honra.

Fallou-se tambem de Lisboa, de Portugal. D. Fernando citou com louvor o
livro do principe de Lichnowsky[6], o unico que tinha por exacto,
parecendo, diz Maximiliano, fazer pouco caso do que a condessa Hahn-Hahn
escreveu sobre o mesmo assumpto.

A rainha mostrou-se resentida da surpreza com que a condessa viu na camara
real o bastidor em que sua magestade costumava bordar. Uma pessoa que
governa, havia dito a condessa, no deve occupar-se de taes coisas. A
rainha, que  uma mulher da sua casa (_une femme d'intrieur_), diz o
archiduque, glosava a observao da condessa ironisando-a: Queria talvez
que eu escrevesse livros!

Maximiliano teve occasio de assistir  festa do Corao de Jesus na
basilica da Estrella.

A rainha entrou na igreja ladeada pelo rei-esposo e pelo _Deus ex-machina_
(o marechal Saldanha), os quaes exhibiam, sobre os seus respectivos
uniformes, uma mantilha de rendas: , nas ceremonias de apparato, a bizarra
insignia dos gran-cruzes portuguezes. D. Maria collocou-se sob o docel,
entre estes dois personagens, e assistiu de p ao santo sacrificio da
missa. S*** (Saldanha) que, alm das suas funces officiaes parece
desempenhar tambem o papel de bobo da crte, dizia infinitas jovialidades 
rainha. Que effeito produziria no povo este mau exemplo! D'onde viro a
obediencia e o respeito para com a magestade terrena, se ella propria se
no souber curvar perante a magestade divina!

 textual. Apesar de parente da rainha, o archiduque no lhe poupa este
epigramma publico. Maximiliano ficou to indignado, que chamou _bobo_ ao
marechal por estar fazendo espirito na igreja da Estrella. Ns, os
portuguezes, no somos certamente o povo que mais compostamente assiste aos
actos religiosos. Mas no seculo XVII ainda era peor. Foi preciso tomar
medidas repressivas contra as liberdades que se praticavam nos templos.

A mais encantadora e seguramente a mais espirituosa pessoa da crte  a
imperatriz viuva Amelia, segunda esposa de D. Pedro. Um cruel destino tem
perseguido com cega obstinao esta soberana desde a sua primeira mocidade.
Ao tempo da minha viagem a Lisboa, a imperatriz vivia em Bemfico
(masculinisao de Bemfica) com sua amavel filha, princeza distincta,
peregrinamente prendada, e que a morte no tardou a arrebatar. _Bemfico_ 
uma deliciosa _quinta_, onde recebi o mais cordeal e o mais digno
acolhimento de uma boa parenta.

Maximiliano revela, em todas as suas apreciaes, uma refinada
intransigencia tudesca. Ora  sabido que a imperatriz Amelia era bvara, e
 justamente a esta princeza que o archiduque elogia sem restrices. No
podendo deixar de reconhecer as virtudes domesticas da rainha D. Maria II,
no se abstem comtudo de fazer esvoaar sobre o seu retrato a sombra de
mais de um epigramma. Nem mesmo lhe perdoou o ser nutrida, e chega a dizer
que a rainha convidava sempre para os jantares de gala a duqueza de
Palmella, que, por ser igualmente nutrida, servia para lhe fazer
contrapeso.

Maximiliano assistiu com a rainha a uma tourada. Os principes no foram,
mas as infantas, _duas creanas encantadoras_, acompanharam sua mi.

O archiduque, a respeito das touradas portuguezas, d inteira razo 
propaganda que contra ellas tem feito no parlamento o snr. Carlos Testa.

No as considera um combate cavalheiresco como na Hespanha. Chama a este
divertimento, tal como ainda hoje o temos, um brinquedo ignobil e
despiciendo; uma mascarada, uma _jonglerie_. Acha cobardes os nossos
picadores, e sente a falta do _bello matador, que to habilmente sabe
provocar o enthusiasmo_.

Ralha dos intervallos comicos dos pretos, que ficavam espapaados na arena,
e da exhibio dos forcados que, enchumaados com almofadas, se atiravam 
cabea dos touros. Classifica de arlequinada insipida este espectaculo,
onde a coragem brilha pela sua ausencia, e que faz rir o povo n'uma
hilaridade boal.

Estes vis tormentos por que fazem passar o animal e os homens constituem
um espectaculo que no pde deixar de exercer sobre o povo uma influencia
perniciosa;  um alimento fornecido aos seus instinctos grosseiros, ao
passo que em Hespanha uma lucta ardente e generosa pe em evidencia o
homem. L, o touro empenha toda a sua fora, o homem toda a sua coragem;
combatem corpo a corpo, o sangue corre, e ha commoes extraordinarias
n'essa lucta; o homem no desce at ao nivel da besta, e a besta at ao
nivel das coisas inanimadas. Em Hespanha, onde ha um combate, alis leal,
este divertimento popular no chega a parecer cruel; mas aqui, onde apenas
se trata de uma folia baixa e ignobil, a menor desgraa avulta
revoltantemente. Em Sevilha vi cahir numerosos touros, sem que homem algum
fosse ferido; aqui, dois dos luctadores, encarregados de pegar o touro,
ficaram horrivelmente maltratados; cahiram entre as pontas do animal que os
lanou por terra, rasgando-os no ventre e no peito com temerosas marradas;
finalmente, arrastaram-nos para fra da arena todos ensanguentados e
semi-mortos. Asseguraram-me, porm, que uma pouca de terra do circo,
deitada n'um copo d'agua, bastaria a cural-os prodigiosamente, e que
poderiam reapparecer na lide do domingo seguinte. Tudo isso me fazia
horror, ao passo que em Hespanha senti-me,  vista do combate, emocionado e
arrebatado.

Mas o archiduque confessa que o divertiu muito o facto de um touro ter
saltado duas vezes  trincheira, e de um outro touro ter investido com um
cavalleiro, que se no desestribou, mas que no embate perdeu a cabelleira.

Ento o archiduque riu francamente com o povo.

N'esse momento, diz Maximiliano, todo o ardor hespanhol despertou em mim,
e por _bravos_ involuntarios, que no seriam talvez muito convenientes na
presena da rainha, testemunhei a minha satisfao ao bravo animal,
desejando-lhe um successo mais decisivo.

Parece que Maximiliano quereria que o touro houvesse derrubado e amolgado o
cavalleiro.

Como o infeliz archiduque haveria gostado, se lh'a tivessem dado a lr, da
ULTIMA CORRIDA DE TOUROS EM SALVATERRA, de Rebello da Silva!

Aquillo  que eram touros  castelhana, no tempo do senhor D. Jos!

Maximiliano foi convidado para um dos grandes bailes do marquez de Vianna,
n'aquella poca to faustosos. Viu ahi a primeira sociedade de Lisboa. Mas
o seu exclusivismo germanico no ficou lisonjeado com os cabellos negros e
as faces morenas que se estadeavam no palacio do Rato. _Poucas_ ou
_nenhumas_ bellezas viu.

Faz justia  opulencia das salas, que eu proprio ainda pude vr no dia do
leilo. Por isso digo que _faz justia_. Mas accrescenta que denunciavam
uma absoluta falta de gosto, _um verdadeiro luxo de parvenu_. Ora isto
no  exacto. O que seria se Maximiliano tivesse entrado em salas menos
remotamente fidalgas que as do marquez de Vianna!

 chegada do archiduque e durante o baile, o hymno austriaco lisonjeou-lhe
sobremodo os ouvidos patriotas.

Apesar de ter appellidado o nobre marquez de grande senhor da poca
_rococ_ e de haver notado falta de gosto nas esplendidas alfaias do
palacio do Rato, no pde deixar de exclamar, graas ao hymno austriaco
toda a noite soprado pela fanfarra: Este simples trao basta a
caracterisar o bom marquez.

Maximiliano j antes tinha estranhado que no Pao das Necessidades as
bandas militares no houvessem tocado o hymno austriaco, mas unicamente o
hymno real portuguez, quando alli foi convidado a jantar duas vezes.

Muito hymneiro este infeliz archiduque!

E a proposito d'aquelles dois jantares de gala diz Maximiliano que, no
obstante a parcimonia habitual da crte, a mesa era esplendida, e a cosinha
primorosa; que, a ter que queixar-se de alguma coisa, seria da abundancia
dos pratos.

Se no se houvessem esquecido do hymno austriaco, Maximiliano, apesar de
declarar-se abstemio, ter-se-ia levantado da mesa trauteando mentalmente o
antigo _vaudeville_:

  Et la frouchette de Camus
  Est le sceptre du monde.

Foi pena!


V

Maximiliano viu o cemiterio dos Prazeres, e pareceu-lhe uma imitao do
_Pre Lachaise_.

Impressionaram-n'o mal os mausoleos ostentosos, que se lhe afiguravam
verdadeiros templos pagos. E achou pouco christo o contraste d'estes
moimentos faustosos com o systema de enterrar os pobres na valla,--como
ces. As edificaes arruadas do cemiterio dos Prazeres deram-lhe a
impresso de um _Corso funerario_ ou de um _Boulevard dos mortos_, sem
caracter religioso.

Para Maximiliano, os cemiterios antigos, em cujos cyprestes e pltanos as
avesinhas cantavam n'uma grande paz melancolica, eram o unico typo
admissivel para necropole. Sob este ponto de vista encantaram-n'o o _Campo
Santo_ de Pisa e as sepulturas da Turquia.

Ora eu posso dar ao leitor dois traos descriptivos do _Campo Santo_.
Fornece-m'os madame Colet, a notavel _touriste_ que to minuciosamente
visitou a Italia: _O Campo Santo_ frma um longo quadrado fechado por
quatro galerias muradas exteriormente, e cobertas de _frescos_;
interiormente, elegantes columnas cingem o recinto destinado aos mortos.
Estas arcadas so de uma leveza maravilhosa, constituidas por duas finas
columnas que emmolduram um pilar quadrado. A sua base assenta sobre a herva
verde e cuidada; o fuste desabrocha em ogivas que recortam flres sobre o
azul do co. Aos quatro cantos do prado elevam-se outros tantos cyprestes
enormes figurando guardas taciturnos dos sepulchros. Ao meio uma roseira,
opulentamente florida, baloua-se de encontro ao fuste de uma columna;
sorri aos mortos como um derradeiro amigo. Comecei a minha visita entrando
pela porta do occidente. Antes de examinar os _frescos_ attentei nas
sepulturas cavadas no solo que eu ia pisando: cavalleiros das cruzadas,
nobres, principes, cardeaes e monges esto ahi confundidos na terra.
Sarcophagos antigos descobertos nas escavaes e mausoleos modernos avultam
de cada lado da galeria, traando uma especie de ala sepulchral.

Como se v, o _Campo Santo_ de Pisa no  to despido de ornatos
esculpturaes como a referencia de Maximiliano poderia fazer suppr. Eu acho
que o melhor de tudo seria adoptar a incinerao, e ter cada um no seu
proprio lar as cinzas dos seus mortos queridos. Os romanos davam o nome de
_Columbaria_ aos nichos, abertos nas camaras sepulchraes, onde cabiam duas
urnas com cinzas,  semelhana de dois pombos em um ninho. D'aqui a origem
da palavra, que poderiamos traduzir por _pombaes dos mortos_. Sem embargo
havia tambem em Roma os sepulchros faustosos, de dois e tres andares. Mas o
que da civilisao dos romanos poderiamos adoptar era o systema da
incinerao. Emquanto o no fazemos, o meu ideal de cemiterio  muito mais
exigente em simplicidade que o ideal de Maximiliano. Ha vinte e um annos
publiquei n'um poemeto infantil, que Castilho se dignou prefaciar, o
bosquejo de um cemiterio verdadeiramente christo, segundo o meu ideal:

  D'aldeia o cemiterio era modesto,
        Sem pompa e sem lavores:
  Ao centro, a cruz a dominar c'os braos
  O recinto dos mortos e os espaos...
        De resto... algumas flres!

Isto, ou ento os tumulos aereos da Australia, que o infeliz poeta
portuense Pedro de Lima descreveu por esse tempo:

  So bellos os tumulos
  D'Australia, suspensos
  Nos plainos immensos
   beira do mar.
  Alli o cadaver
  Pacifico dorme
  E a lua--olho enorme--
  O vem contemplar.

Para contrastar com a pagina melancolica em que discreta sobre a morte,
d-nos Maximiliano a descripo de uma burricada em Cacilhas, a pretexto de
um _lunch_, em que certamente foram convivas os officiaes da fragata
_Novara_, porque o archiduque diz-nos que nem elle nem os seus companheiros
de equitao sabiam uma palavra de portuguez.

Maximiliano no occulta os tormentos por que passaram as azemolas
cacilheiras apertadas sob os joelhos dos cavalleiros austriacos. Era, diz
elle, um _steeple-chase_ furibundo, de collegiaes em gazeio. Volteavamos a
galope--a galope! que sacrificio para um burro de Cacilhas!--punhamo-nos em
p sobre a sella (queria dizer albarda) fazendo proezas de equilibrio mais
ou menos gracioso.

Os pobres burros  que no acharam decerto graa nenhuma  patuscada
furiosa dos austriacos. Mas vingaram-se, ol! porque um burro vinga-se
sempre. Cada burro de Cacilhas tem na vingana, mal comparado, o corao de
D. Pedro I. Pregaram com os austriacos no cho, enrodilharam-n'os na poeira
do caminho, fizeram d'elles, incluindo o archiduque, gato-sapato. Oh!
triumpho do patriotismo asinino sobre a tyrannia estrangeira! Desconfio que
os austriacos se deram finalmente por vencidos; pois que, desistindo da
perigosa equitao, se agruparam n'um pinheiral para almoar,--_sur la
verdure_.

Quem imaginam os senhores que pretendeu estorvar-lhes o almoo? Os burros?
Parece  primeira vista, attendendo a que almoavam sobre a verdura, e os
burros deviam ter fome. No, senhores: foi uma velha, uma megera, diz
Maximiliano, que os descompoz e ameaou. Fao ida das bonitas coisas que a
velha lhes disse, e que elles decerto entenderam se a philippica da heroina
foi acompanhada dos respectivos gestos... philippicos.

Ora, naturalmente, a velha era a burriqueira, que vinha desaffrontar os
sendeiros escalavrados. N'aquelle tempo no estava ainda organisada, com
uma succursal em Cacilhas, a sociedade protectora dos animaes. A velha
demosthenava _pro domo sua: domo_  synonymo de burro.

O que aconteceu? Os austriacos ouviram tudo a p quedo, com a
impassibilidade de sphynges de Memphis, e ento a velha, reconhecendo que
os estrangeiros no tinham... sangue nas veias, entendeu que seria
cobardia, deshonrosa para a Lusitania, correl-os a pau ou a p, como fez a
sua compatriota Brites d'Almeida em Aljubarrota.

Mas quem sabe se a derrota soffrida em Cacilhas no contribuiu para azedar
a impresso com que Maximiliano sahiu de Lisboa!

As suas ultimas palavras so accentuadamente pessimistas. Acha que Lisboa
no tem caracter proprio. As edificaoes apresentam aspecto allemo; as
_toilettes_ so parisienses; a educao nacional  ingleza. Lisboa, emfim,
 uma cidade de Marrocos, morta e triste. Culpa de tudo isto: os nevoeiros
frequentes, a frialdade do ar, e os capotes das mulheres! Uma verdadeira
descoberta do infeliz archiduque.

Achou-nos colonialmente decadentes, e n'isso no exaggerou. Mas, de
descoberta em descoberta, pareceu-lhe que o abatimento nacional provinha da
gordura hydropica dos nacionaes, que degenerava em lympha, e que nos
arrastava  doena e  morte.

Quando a decomposio comea, perra Maximiliano, a vida evapora-se e,
como diz o proverbio, os ratos abandonam a casa que vai desabar.

 uma ratice, que a historia desmente, porque ns ainda c estamos, cada
vez mais... gordos,--excepto eu.

Maximiliano tambem passou na ilha da Madeira, que descreve, mas eu cerro
por aqui as suas impresses de viagem, para que o leitor no tenha motivo
de se malquistar commigo pela monotonia do assumpto.




<span id="chapVIII">VIII

DUAS IMPERATRIZES


I

A IMPERATRIZ EUGENIA

A viuva de Napoleo III  a filha mais nova do conde de Montijo, da familia
hespanhola dos Guzman, originarios de Granada, e da condessa de Montijo,
_ne_ Kirk-Patrick, de origem irlandeza.

Sua irm, a filha primogenita do conde de Montijo, casou aos dezoito annos
com o duque d'Alba, descendente dos Stuarts pelo marechal de Berwich. Foi
uma das estrellas da crte de Izabel II. Deixou tres filhos: o actual duque
d'Alba, que casou com a filha do duque de Fernan-Nuez: a duqueza de
Tamams e a duqueza de Medina Coeli, que morreu alguns mezes depois de
casada.

Em 1860, a imperatriz Eugenia, estando na Algeria com o imperador, soubera,
depois de sahir de um baile, que a duqueza d'Alba tinha morrido. As duas
irms estremeciam-se, a imperatriz sentira profundamente a morte da
duqueza. Pela primeira vez experimentra a imperatriz uma dr intima; fra
esse, em meio da vida faustuosa das Tulherias, o primeiro golpe da m
fortuna.

At ahi, a existencia de Eugenia de Montijo tinha sido um triumpho
ininterrompido de formosura e felicidade, a marcha gloriosa de uma mulher
incomparavelmente bella atravs da vida.

Fra em 1840, depois dos acontecimentos de Strasburgo, que ella vira pela
primeira vez o principe Luiz Napoleo, que entrava preso em Paris. A
condessa de Montijo estava ento com suas filhas na capital de Frana, e de
uma das janellas da Prefeitura de policia viram, a convite de madame
Delessert, mulher do Prefeito, chegar o principe.

A _toilette_ de Luiz Napoleo era n'esse momento simplesmente desastrosa. O
official da escolta, vendo-o desprevenido de roupa branca, offerecera-lhe
uma camisa que parecia ser de _onze varas_, no s porque a situao era
critica, mas porque, grande de mais para o principe, todo elle era camisa.

Ninguem poderia dizer, porm, n'esse momento, o que annos depois havia de
acontecer.

J Luiz Napoleo era presidente da Republica quando, por occasio de um
baile no Elyseu, se encontrou com a condessa de Montijo, e com sua filha
Eugenia, condessa de Teba. Foi n'essa noite que principiou o romance de
amor. Luiz Napoleo ficou encantado com a bella castelhana.

Apesar de se estar em plena republica, o presidente fizera-lhe a _crte_ na
crte, porque o presidente rodeava-se de esplendores verdadeiramente
realengos. Preparava elle ento o golpe d'estado, e dissera a Eugenia de
Montijo:

--Estamos em vesperas de grandes acontecimentos, e no quero sujeitar-vos ao
perigo das eventualidades. Voltai para Hespanha e, se eu triumphar,
convidar-vos-hei a vir occupar o throno da Frana.

Mademoiselle de Montijo respondera:

--Acontea o que acontecer, serei vossa mulher. Se as vossas esperanas se
mallograrem, viveremos no meu paiz, talvez mais felizes do que no throno da
Frana.

Como se v, a condessa de Teba respondera precisamente  pergunta... em
verdadeiro genitivo amoroso. Voltando a Hespanha, mademoiselle de Montijo
levava comsigo um talisman, que era o penhor da sua felicidade futura: um
alfinete que representava uma folha de trevo em esmeraldas, contornada de
brilhantes.

Tinha sido o premio com que a fortuna a favorecera n'uma loteria organisada
pelo presidente da republica em Compigne. Conservou-o sempre, e s se
desapossou d'esse alfinete fatidico depois da morte do principe imperial.
Ento, vendo desmoronado todo o castello das suas esperanas de mi, disse
um dia, em Chislehurst,  duqueza de Mouchy:

--Considerei toda a minha vida este alfinete como um talisman encantado. Era
a minha mais querida reliquia. No quero que fique abandonado: dou-vol-o
como um penhor de felicidade e de terna amizade.

A duqueza de Mouchy nunca mais deixou de trazer o alfinete da imperatriz.

Ascendendo ao throno imperial da Frana pelo processo que toda a gente
conhece, Luiz Napoleo, tres annos depois, em Janeiro de 1853, annunciava
aos poderes do estado a sua resoluo de casar por amor.

O imperador proclamou no sentido de mostrar a inconveniencia dos casamentos
politicos, que serviam menos a estreitar as boas relaes internacionaes do
que os processos de uma politica leal, que elle, alis, diga-se a verdade,
nem sempre seguiu. A questo do Mexico  uma prova do que affirmamos.
Occupar-nos-hemos mais tarde d'este desgraado acontecimento, quando
tivermos que fallar da imperatriz Carlota, a segunda imperatriz cuja
biographia bosquejaremos.

A proclamao do novo imperador terminava por estas palavras:

  Venho, pois, meus senhores, dizer  Frana: Prefiro uma mulher que eu
  amo e que respeito a uma mulher desconhecida, cuja alliana apenas traria
  vantagens contrariadas por sacrificios. Sem desdenhar de ninguem, cedo 
  minha inclinao, mas s depois de ter consultado a minha razo e as
  minhas convices. Finalmente, antepondo a independencia, as qualidades
  de corao, a honra de familia aos preconceitos dynasticos e aos calculos
  da ambio, no serei menos forte, porque serei mais livre.

  Brevemente, dirigindo-me a Notre-Dame, apresentarei a imperatriz ao povo
  e ao exercito; a confiana que elles depositam em mim asseguram a sua
  sympathia por aquella que eu escolhi, e vs, meus senhores, desde que a
  conheais, ficareis convencidos de que ainda d'esta vez fui inspirado
  pela Providencia.

O casamento realisou-se na igreja de Notre Dame a 30 de janeiro d'esse
anno.

Uma tradio hespanhola diz que as perolas, com que no dia do casamento se
adornam as noivas, viro a converter-se em outras tantas lagrimas.

Eugenia de Montijo no deu importancia a esta tradio, e completou a sua
_toilette_ de noiva com um collar de perolas.

A tradio no mentiu d'esta vez.

A imperatriz vendeu o collar, com as suas outras joias, depois da guerra
franco-prussiana.

Os imperadores foram viver para o pequeno castello de Villeneuve-l'Etang,
que ainda est de p no parque de Saint-Cloud.

Vinte e quatro horas depois do casamento, os noivos passeavam n'um phaeton,
que o imperador guiava, atravs dos bosques estrellados de neve, que um
bello sol de inverno doirava.

Que importava que a neve espelhasse a desolao do inverno, se os coraes
dos noivos, ardentes de amor e florescentes de esperanas, cantavam o
epithalamio das suas nupcias, n'essa melopea intima que  a melodia do
silencio!

Eu estou soccorrendo-me de um livro j este anno publicado em Frana,
SOUVENIRS INTIMES DE LA COUR DES TUILERIES. Authora madame Carette, _ne_
Bouvet. Madame Carette  neta do almirante Bouvet, e foi distinguida pela
imperatriz com muitas attenes por occasio da viagem dos imperadores 
Bretanha, em 1858. Mais tarde, madame Carette entrou nas Tulherias como
segunda leitora da imperatriz, porque a primeira era a condessa de Wagner
de Pons.

No fundo d'este livro revela-se uma pequena vaidade de mulher: a imperatriz
fizera reparo na ento mademoiselle de Bouvet, quando a viu na Bretanha,
por a ter achado formosa.

Um trao final do livro trae um pouco a inteno da authora. Conta madame
Carette que em 1865, por occasio da cholera morbus, indo a imperatriz
visitar com a sua leitora os hospitaes, lhe dissera, no de Santo Antonio,
ao entrar n'uma enfermaria de variolosos:

--No quero que entreis. Poderieis ficar feia, e ser-me-ia difficil
casar-vos.

Revela-se aqui a mulher, _Chassez le naturel, il revient au galop_.

As recordaes de madame Carette teem,  certo, o peccado original da
parcialidade fanatica, da dedicao amavel, mas, em compensao, levantam o
vo da vida intima das Tulherias, e pem em evidencia alguns factos
interessantes do _mnage_ imperial.

Madame Carette no  precisamente uma estylista. Nas Tulherias o seu cargo
de leitora era apenas um pretexto. No teve por isso occasio de cultivar
estheticamente o espirito com os primores litterarios de que a Frana  to
opulenta. Mas escreve com a facilidade e elegancia que so proprias de toda
a mulher franceza bem educada.

Sob o ponto de vista da contextura historica, o livro  s vezes descosido,
e outras vezes futil. Mas, descontado o que elle tem de parcial, de frivolo
e de truncado, offerece ainda assim um pequeno filo, que se pde explorar
com interesse.

Madame Carette, remontando-se a 1858, d o seguinte retrato da imperatriz:

  Era de estatura mais do que mdia; podia dizer-se alta. As feies
  regulares, e a linha extremamente delicada do perfil tinha a perfeio de
  uma medalha antiga com alguma coisa de intraduzivel, um peregrino encanto
  pessoal, que fazia com que se no podesse comparar a outra mulher; a
  fronte, elevada, e rectilinea, escanteava-se apertada, as sobrancelhas,
  longas e delicadas, eram um pouco obliquas; as palpebras, muitas vezes
  descidas, seguiam a linha dos supercilios velando os olhos pouco
  distanciados, o que era um caracteristico da physionomia da imperatriz:
  dois bellos olhos de um azul vivo e profundo, opulentos de sombra, de
  alma, de energia e de doura; bastariam os olhos para dar relevo a uma
  physionomia. O nariz, descendo correctamente desde a raiz at s fossas,
  finamente recortadas, denunciava uma raa aristocratica; a bocca,
  pequenissima, tinha contornos de uma graa exuberante, e um sorriso
  irresistivel animava essa bocca encantadora; os dentes eram brilhantes, o
  queixo descrevia uma curva delicada, que se dilatava contornando a face,
  nitidamente colorida, de uma brancura transparente. A pelle, muito fina,
  deixava vr o tecido das veias, e fazia pensar no sangue azul da velha
  nobreza castelhana. O pescoo alto, esculptural. Os hombros, o peito e os
  braos lembravam uma estatua. A cintura estreita, mas redonda, os dedos
  afilados, os ps to pequenos como os de uma creana de doze annos. O ar
  gracioso e nobre, cheio de distinco nativa. O andar facil,
  desembaraado. Finalmente, uma completa harmonia entre a pessoa physica e
  a pessoa moral: n'isso estava, creio eu, o segredo do seu irresistivel
  encanto.

Durante os primeiros tempos de casada, a imperatriz tivera dois mbitos. A
razo de estado fazia com que o imperador desejasse vidamente um filho.

Quando pela terceira vez a imperatriz se achou gravida, o drama da
maternidade, chamemos-lhe assim, ameaou, durante tres dias e tres noites,
um desenlace fatal. Para salvar o filho seria preciso arriscar a vida da
mi. Consultado pelos medicos, o imperador respondeu n'esta dura
alternativa:

--No pensem seno na imperatriz.

Como o momento fsse decisivo, a obstetricia teve que ser precipitada, o
que prejudicou grandemente o organismo da imperatriz. Soube-se isto fra
das Tulherias, e d'aqui nasceu certamente o boato calumnioso de que se no
pudera salvar o filho para garantir a existencia da mi. Disse-se por essa
occasio que o principe imperial era uma creana qualquer que o imperador
adoptra para acautelar a estabilidade da dynastia. Mas tudo quanto se
passou depois, os carinhos da imperatriz para com o herdeiro do throno, a
sua dolorosa heroecidade na viagem  Zululandia, quando o joven principe
foi morto, provam ainda mais, e melhor; do que as affirmaes de madame
Carette.

O que  certo  que, depois de to laborioso parto, a saude da imperatriz
ficra muito affectada, a ponto de que sua magestade, segundo o testemunho
da sua leitora, _ne pouvait se soutenir que grce  un appareil d'acier,
dissimul sous ses vtements_.

A fim de que a imperatriz podesse fazer a sua _toilette_ o mais
commodamente possivel, os vestidos desciam do andar superior por meio de
uma especie de _montecharge_. Este descensor mecanico, e um tubo acustico
que communicava com o guarda-roupa, poupavam muito tempo, e incommodo para
a imperatriz.

Pois tambem o descensor serviu de cavallo de batalha para a maledicencia
dos pamphletarios. Toda a gente sabe como o imperio de Napoleo III foi
politica e pessoalmente atacado. Vive ainda a senhora que, alvo de crueis
diffamaes, se sentava a esse tempo no throno da Frana. No est nos meus
habitos faltar ao respeito a ninguem, muito menos a uma dama que a desgraa
feriu. Mas nem mesma madame Carette se exime a recordar as calumnias que
por muitas vezes foram morder o manto da imperatriz.

 visivel a inteno com que madame Carette, referindo-se  princeza de
Metternich, embaixatriz de Austria, essa captivante _jolie laide_ que tanta
impresso causou em todo o Paris, escreve: A imperatriz tinha uma grande
sympathia por esta mulher seductora, attraa-a a vivacidade do seu espirito
e conversava familiarmente com ella quando as circumstancias officiaes e
mundanas as reuniam; mas no havia intimidade entre ambas. Com excepo de
sua joven prima a princeza Anna Murat, depois duqueza de Mouchy, que a
imperatriz estimava muito, nenhuma outra mulher, alm das damas de servio,
a menos que se no desse uma circumstancia rarissima, era recebida nas
Tulherias sem audiencia.

Foi o principe de Metternich que no dia 4 de setembro offereceu o brao 
imperatriz, que, como se sabe, teve que sahir precipitadamente das
Tulherias.

Renunciando depois d'isso  vida diplomatica, o principe reside algum tempo
em Vienna, com a princeza, ou nas suas terras da Bohemia. Hoje, a
encantadora princeza de Metternich, que tanto ruido fizera em Paris, pela
graa do seu espirito e pelo esplendor das suas _toilettes_, que mandava
buscar a Vienna ou que encommendava a Worth, o celebre _couturier_ do
imperio, tem a cabea corada de cabellos brancos,  av.

Madame Carette, depois de rebater delicadamente a calumnia que o nome da
princeza de Metternich lhe suscitra, lembra que a imperatriz gostava de
vr-se rodeada por uma crte de mulheres bonitas. Ora madame Carette fazia
parte da crte. Ah! nada se deve perdoar to facilmente a uma mulher bonita
como o lembrar-se de que o foi, mesmo quando no o  j!


II

A crte das Tulherias, descripta por madame Carette, revela a vida um pouco
frivola, e at um pouco mexeriqueira, de todas as crtes, mas tinha a
vantagem de ser, quanto  belleza das damas que rodeiavam a imperatriz,
constituida em harmonia com a celebre phrase de Francisco I: uma crte sem
mulheres  um anno sem primavera, e uma primavera sem rosas.

A _entourage_ feminina era numerosa, e gentil. Os lyrios da belleza
floresciam nas Tulherias como n'um jardim que a primavera esmalta. Madame
Carette esboa o perfil de todas as grandes damas que rodeiavam a
imperatriz Eugenia. Faz passar diante dos nossos olhos a viscondessa de
Aguado, marqueza de las Marismas, bella e espirituosa, mi da duqueza de
Montmoreney, uma mulher elegante que morreu aos trinta annos. A insinuante
condessa de Montebello, que tinha sido a amiga intima da duqueza de Alba, e
que fra embaixatriz em Roma, onde brilhra como estrella no corpo
diplomatico. Madame de Malaret, de uma rara elegancia de linha. A marqueza
de Latour-Maubourg, filha do duque de Trvise, sempre muito ciumenta do
marido. Um dia perguntaram-lhe o que ella faria se soubesse que o marido a
enganava. Morreria de espanto, respondeu a marqueza. A baroneza de Pierres,
que era a mulher da Frana que montava melhor a cavallo. A condessa de la
Bdoyre, uma _virtuose_ distinctissima, que tinha a belleza das mulheres
do tempo de Luiz XIV. Viuva em 1869, casou com o principe de Moskowa,
porque a sua belleza chegava  vontade para fascinar dois maridos. A
condessa de la Bdoyre tinha uma irm, a condessa de la Poze, e ninguem
como estas duas irms possuia em grau mais eminente o que pde chamar-se
_l'esprit des cours_. A condessa de Rayneval, formosissima, no casou
nunca: era _chanoinesse_ n'uma ordem da Baviera. Foi ella que serviu de
modelo para a Musa, que no celebre quadro d'Ingres cora a cabea de
Cherubini. A baroneza de Viry-Cohendier, em cujo rosto brilhavam dois
olhos, que pareciam carbunculos. A princeza Anna Murat, d'uma belleza
loira, fresca, primaveril. A duqueza de Malakoff, o mais puro typo da
belleza andaluza. A duqueza de Morny, uma flr de neve da Russia, colhida
pelo duque que alli fra embaixador, e que representra olympicamente a
Frana na coroao do czar Alexandre II. A duqueza de Persigny, loira como
Daphne. A esta pleiade de mulheres encantadoras viera reunir-se, nos
ultimos dez annos do imperio, a famosa princeza de Metternich. E occupando
o centro d'este systema planetario de bellezas femininas, um sol: a
imperatriz.

Havia nas Tulherias um _salo azul_ que a imperatriz quizera dedicar
exclusivamente  belleza, povoando-o com os retratos das mais formosas
damas da sua crte. Nas telas que revestiam as paredes, cada dama
personificava uma das grandes naes da Europa. A princeza Anna Murat
representava a Inglaterra, a duqueza de Malakoff a Hespanha, a duqueza de
Morny a Russia, a condessa Walewska a Italia, e no meio de toda esta
constellao desenhava-se o perfil da imperatriz sobre um medalho
sustentado por figuras allegoricas.

O incendio das Tulherias, depois da quda do imperio, carbonisra essas
notaveis tlas, de que ficaram apenas, aqui, alli, fragmentos indemnes,
vestigios d'esses retratos que resumiam toda a graa feminina da Frana
imperial.

De resto a vida das Tulherias agitava-se nas mil intrigasinhas e
rivalidades de que as mulheres, ainda que sejam encantadoras, no sabem
emancipar-se. Eram frequentes as tempestades n'um copo d'agua. Por exemplo.
Um anno, no dia da festa da imperatriz, a 15 de novembro, resolveu-se fazer
quadros vivos, reproduzir o _Djeuner champtre_ de Watteau. Foi a princeza
de Metternich, que tinha uma rara habilidade para este genero de
divertimentos, quem ficou encarregada da distribuio dos personagens e dos
_costumes_.

A duqueza de Persigny devia entrar no quadro, mas, no tendo gostado do
_costume_ que a princeza lhe distribura, declarou que se vestiria a
capricho, e que appareceria com os cabellos soltos,--uns bellos cabellos
loiros, opulentos como uma floresta.

--Quero, dizia a duqueza, que me vejam o cabello.

-- impossivel! replicava a princeza de Metternich. Isso desarranja o
quadro!

A condessa insistia com a terrivel logica que at nos caprichos  um dos
poderosos apanagios do seu sexo:

--Ns fazemos isto para nos divertirmos, e a mim diverte-me apparecer com o
cabello solto.

--Nada, no! Ou a condessa ha de submetter-se como ns todas, ou no entra
no quadro.

Mas a condessa continuou a reagir.

A princeza de Metternich, exasperada, correu s Tulherias, foi levar ao
conhecimento da imperatriz este grave negocio de estado.

A imperatriz sorriu, e aconselhou:

--Deixe l, princeza.  uma novidade que talvez produza effeito.

-- uma festa estragada!

--Mas, princeza, o que quer fazer? A condessa, de qualquer modo que
apparea, ha de ser sempre bonita. Seja indulgente com ella. De mais a mais
sabe que a mi de madame de Persigny est doida?

--Ah! ripostou a princeza. A mi de madame de Persigny  doida? Pois meu pai
tambem o . No cederei.

E assim era, realmente. O conde Chandor, pai da princeza de Metternich, que
era o melhor _sportman_ da Europa, avariou o cerebro  fora de trambolhes
com que se vingavam do seu calo audacioso os cavallos insubmissos.

Outro exemplo das mil _coisissimas nenhumas_ que preoccupavam s vezes a
crte das Tulherias.

A condessa de Wagner, que tinha setenta annos, mas que havia sido uma
bonita mulher, appareceu uma vez nas Tulherias com uma cabelleira loira
similhante  que a Schneider exhibia na _Bella Helena_.

Madame Carette desatou a rir quando a viu, e a imperatriz, que n'esse
momento sahia do seu gabinete, quiz saber o motivo de tamanha hilaridade.
Madame Carette disse-lh'o, e a imperatriz quiz vr, atravs de uma vidraa,
a cabea de Medusa da condessa de Wagner. Viu, e tambem desatou a rir. Mas,
passado o primeiro momento, ordenou a madame Carette:

--Diga da minha parte  condessa que lhe peo para tirar immediatamente a
cabelleira. Que ridiculo para a minha crte, se se soubesse!

Nem nas altas espheras sociaes o espirito feminino perde a fragilidade
pueril que lhe  propria. A imperatriz, que dirigiu muitas combinaes
politicas, e que para esse effeito era sempre a mulher do imperador,
deixava-se enleiar muitas vezes, como qualquer simples mortal, nas espiras
d'essas duas serpentes graciosas que se enroscavam nos seus nervos de
mulher: o sangue de hespanhola e a frivolidade parisiense.

Sempre que o ciume lhe cravava no corao a garrasinha adunca, apparecia na
imperatriz a mulher, e s a mulher.

O imperador que, como sabemos, tivera pela imperatriz uma paixo de Romeu,
principira, dentro da primeira dcada da vida conjugal, a morder a ma do
paraiso terrestre.

Ora a condessa de Castiglione, filha das primeiras nupcias do marquez de
Oldoini, ha pouco fallecido, fizera sensao quando pela primeira vez
appareceu n'um baile _costum_ das Tulherias. A condessa ainda vive hoje.
Deve estar velha, como todas as bellas damas d'aquelle tempo, mas a sua
belleza era, em 1860, a de uma estatua grega, esculptural, posto que dura.

A imperatriz ardia em ciume por causa da condessa de Castiglione, que
conseguiu distanciar da crte. N'um dos ultimos bailes das Tulherias, em
que a imperatriz appareceu em _costume_ de Marie Antoinette,--a imperatriz
teve sempre uma viva sympathia pela memoria de Marie Antoinette,--a condessa
de Castiglione, que no tinha sido convidada, foi reconhecida n'uma
esplendida _toilette_ negra, de viuva, representando _Marie de Medicis_. A
imperatriz, sabendo que era a condessa, mandou-lhe ordem por um camarista
para que sahisse immediatamente.

Em 1860, o principe Jeronymo dra uma festa no Palais-Royal em honra da
imperatriz, que deslumbrou todos os olhos quando entrou na sala com um
vestido de tulle branco e uma grinalda de violetas de Parma, porque a
imperatriz fez da violeta a flr imperial.

 uma hora da noite sahiam o imperador e a imperatriz, encontrando-se na
escada com a condessa de Castiglione.

--Chega muito tarde, condessa! disse-lhe galantemente o imperador.

--Sois vs, sire, que sahis muito cedo! respondeu a condessa.

Pde calcular-se a scena de ciume que se passra dentro do _landeau_
imperial, caminho das Tulherias.

Li ha dois dias um livro de Philibert Audebrand, UN CAF DE JOURNALISTES
SOUS NAPOLEO III, em que toda a historia dos amores do imperador com a
condessa de Castiglione  contada sem refolhos, at com visivel acrimonia,
que  a nota predominante de todo o livro.

Essas relaes amorosas, segundo Audebrand, chegaram at ao ponto de a
imperatriz partir precipitadamente para a Escocia com a duqueza de
Hamilton, tendo voltado a Paris s depois da promessa formal do imperador
de que romperia com a sua amante.

De passagem, um trao da vida conjugal da condessa de Castiglione. O marido
no pudera nunca reconcilial-a com a sogra, a marqueza de Castiglione. Um
dia em que ambos sahiram de trem, o conde dera secretamente ordem ao
cocheiro para conduzil-os a casa da marqueza. A condessa percebeu a
inteno reservada do marido e, descalando furtivamente os sapatos, no
momento de passarem uma das pontes do Sena, atirou-os ao charco.

E, voltando-se para o marido:

--Quero crr que me no forars agora a fazer visitas descala!

Mas, sempre que os nervos da mulher estavam tranquillos, a imperatriz
reapparecia com todos os seus instinctos de interesse dynastico, porque a
imperatriz adorava o filho.

Era ella que recolhia e colleccionava cuidadosamente, todos os dias, os
papeis politicos do imperador.

--Eu sou, dizia a imperatriz referindo-se  correspondencia das Tulherias,
como um rato que apanha as migalhas do imperador.

Toda a correspondencia pde ser salva, e a imperatriz tem-n'a conservado
religiosamente.

Deve ser interessantissima, mas, nas mos da imperatriz,  uma arma
partida. No  preciso que a doblez dos caracteres se affirme por
documentos: essa prova  inutil. Todos sabemos como em todos os tempos e
lugares o caracter humano vara com a altura do sol. Mas no occaso da sua
grandeza, a imperatriz ainda conseguia encontrar algumas dedicaes
inabalaveis. Citarei desde j dois nomes: o duque de Bassano, e mr. Rouher.

A imperatriz teve, na politica imperial, uma aco energica. O general
Trochu attribue-lhe a desgraada operao franco-hespanhola do Mexico, que
desacreditou o imperio, e a desastrosa guerra de 1870, diante da qual
Napoleo III recuava instinctivamente.

Mas, sob o ponto de vista politico, Trochu, apesar de ter procurado
defender-se no tribunal do Sena, e n'um grosso volume, que tenho presente,
de todas as accusaes que o _Figaro_ fizera ao governador de Paris,
Trochu, repito,  um pouco suspeito.

A imperatriz viu sempre n'elle um orleanista. No sei se tinha razo. Mas a
impresso que me ficou de todo o livro de Trochu, um enorme volume de mais
de 500 paginas,  que a imperatriz foi muito abandonada, na hora do perigo,
pelos elementos officiaes que tinham feito a sua carreira  sombra das
Tulherias. S o almirante Jurien se offereceu para acompanhal-a; s madame
Mebreton Bourbaki a acompanhou. O maior auxilio recebeu-o de dois
estrangeiros: o embaixador de Austria, principe de Metternich, e o
embaixador de Italia.

No admira que a imperatriz, arrastada pelo seu caracter energico de
hespanhola, se envolvesse nos negocios politicos. Ha uma phrase sua, que a
define. Os prussianos avanavam sobre Paris, o general Trochu parecia
desalentado, mas a imperatriz dissera-lhe:

--_Eh bien, si les prussiens arrivent, j'irai moi-mme sur les remparts, et
l je montrerai comment une femme sait braver le danger, quand il s'agit du
salut du pays._

Mas as horas do imperio napoleonico estavam contadas.

A Providencia ia ajustar as suas contas, em nome de Maximiliano, com
Napoleo III e com o marechal Bazaine, e a imperatriz Eugenia, sobrevivendo
a estes dois actores responsaveis da tragedia do Mexico, principiava a vr
cahir do ceu as primeiras sombras da sua longa noite de agonia.


III

Os aposentos particulares da imperatriz Eugenia, no palacio das Tulherias,
compunham-se de uma srie de dez salas, que davam sobre o jardim.

Entrava-se pelo salo dos alabardeiros, a guarda nobre da imperatriz,
commandados por mr. Bignet, a quem as damas do palacio chamavam jovialmente
_la trezime dame du palais_.

Era o chefe dos alabardeiros que inscrevia os nomes das pessoas que
pretendiam ser recebidas pela imperatriz e, se as damas de servio
faltavam, elle proprio dava conta a sua magestade imperial do numero e
qualidade das pessoas que solicitavam audiencia.

Bignet era um homem discreto, e muito dedicado  imperatriz; guardava
sempre rigoroso silencio sobre as resolues que a imperatriz lhe
communicava, mas as damas da crte tiravam pelos domingos os dias santos, e
penetravam s vezes os segredos de Bignet.

Por exemplo. A imperatriz no dispensava nunca do seu servio de meza
alguns objectos de estimao, entre os quaes havia uma pequena caixa de
ch, de prata dourada, que tinha pertencido a Napoleo I. Quando este
elegante objecto no apparecia alguma vez, as damas subentendiam que a
imperatriz projectava uma viagem, e que mr. Bignet j tinha preparado as
bagagens. Mas a caixa de ch reapparecia, e as damas ficavam sabendo que o
projecto de viagem havia sido posto de parte. Bignet acompanhou a
imperatriz ao exilio; e morreu em Inglaterra, inconsolavel pela queda do
imperio.

Ao salo dos alabardeiros seguia-se a sala das damas, pintada a fresco
sobre um fundo verde. O tecto representava uma enorme _corbeille_ de
flres. A mobilia, estylo Luiz XVI, era de madeira dourada com estofos
Gobelins. N'esta sala, como o seu nome indicava, estacionavam lendo,
conversando, bordando, as damas de servio.

Passava-se d'este a outro salo, cr de rosa, profusamente ornamentado de
flres: o tecto, representando Flora em triumpho, tinha sido pintado por
Chaplin.

O salo _rose_ communicava com o salo azul, a que j tivemos occasio de
referir-nos, e cujas paredes eram revestidas pelos retratos das mais bellas
damas da crte, symbolisando as grandes naes da Europa.

Era n'este salo que a imperatriz dava audiencia, destacando-se a sua
gentil figura n'uma atmosphera de saphira, que fazia lembrar o firmamento,
porque a luz passava atravs de _stores_ de _gaze_ azul, adaptados s
janellas.

Seguia-se ao salo azul o gabinete da imperatriz. Era ahi que a primeira
dama da Frana lia, escrevia, colleccionava os papeis do imperador,
rodeiada de todos os objectos queridos que podiam fallar-lhe ao corao,
avivar-lhe uma memoria, despertar-lhe uma saudade.

Forrado de sda _mate_, com largas bandas de um verde suave, a mobilia
capitonada, as cortinas cr de purpura, as portas de acaj com ferragens de
cobre dourado, tal era o gabinete particular, o aposento predilecto da
imperatriz.

Sobre o panno principal da parede pendia o retrato do imperador, corpo
inteiro, de casaca, pintado por Cabanel. Exactissimo de semelhana. 
esquerda do fogo, um retrato da duqueza d'Alba coberto de _gaze_ ligeira,
como sorrindo atravs de uma nuvem. Entre as janellas, o retrato da
princeza Anna Murat, pintado por Winterhalter. E por toda a parte, aqui,
alli, mil obras primas do Oriente e do Occidente, uma bella estatua de
mulher em marmore branco--_A Estrella_,--porque tinha uma estrella na fronte
e, entre as recordaes carinhosas, muitos objectos que tinham pertencido 
duqueza d'Alba, e o chapeu, todo crivado, que o imperador levava na noite
do attentado Orsini. A pintura tinha, no gabinete particular da imperatriz,
um grande dominio. Havia um notavel quadro de Hbert, representando
mulheres italianas n'uma fonte subterranea; e um cordo de sda, pendente
da parede, esperra durante algum tempo por um quadro de Cabanel. Mas o
pintor demorra-se e, n'um dia de recepo, a imperatriz, conduzindo-o ao
seu gabinete, dissera-lhe:

--Esta lacuna contraria-me. Ou me mandais depressa um quadro ou eu vos mando
pendurar n'aquelle cordo,--em vez do quadro.

Cabanel tomou em considerao esta jovialidade da imperatriz, e enviou-lhe
um primoroso quadro biblico,--Ruth, de tunica azul, coberto o rosto por um
longo veu negro.

A imperatriz gostava muito de lr sentada n'um _fauteuil_, junto do fogo e
contra a luz, com os ps pousados n'uma cadeira mais baixa e inclinada.

Um biombo de sda verde resguardava-a das correntes da luz e do ar.

Era n'esta posio que a imperatriz escrevia ordinariamente, com uma penna
de pato, pondo o papel sobre os joelhos.

Ao alcance da mo havia uma pequena meza com livros, os mais queridos e,
no longe, n'uma grande meza aberta, todo o trem de desenho, os pinceis,
papel, caixas de tintas, porque a imperatriz tinha grande facilidade para a
aguarella.

Seguia-se um outro compartimento destinado a bibliotheca, povoado de obras
escolhidas na litteratura franceza, ingleza, hespanhola e italiana, linguas
que a imperatriz fallava com destreza.  mistura com os livros, muitos
primores artisticos: Wouwermans de um valor incalculavel. E numerosos
retratos, do conde de Montijo, do imperador, do principe imperial, da
rainha da Hollanda, da rainha Sophia, etc.

Sahindo-se d'este compartimento, atravessava-se uma ante-camara sem
janella, apenas illuminada por uma lampada accesa de noite e de dia. Vinha
dar a esta ante-camara, que era o esconderijo dos papeis das Tulherias, a
pequena escada que descia directamente para os aposentos do imperador.
Todos os papeis, numerados e alphabetados, estavam ahi guardados n'um
armario secreto.

D'esta ante-camara passava-se a uma vasta sala, allumiada por tres grandes
janellas rasgadas sobre um balco: era o gabinete de _toilette_ da
imperatriz, todo coberto d'espelhos. A meza de _toilette_ tinha guarnies
de renda branca e sda azul. E do tecto descia, por um engenhoso
machinismo, a que j tivemos occasio de alludir, o _monte-charge_ que
trazia os vestidos de que a imperatriz precisava.

Uma saleta com uma s janella communicava o gabinete de _toilette_ com o
quarto de cama, dividido em duas peas por um tabique em que, sobre um
fundo de ouro, florejavam pinturas de delicado gosto. Era ahi que estava o
oratorio particular da imperatriz, disfarado, porque o tabique abria em
dois batentes, para os actos do servio divino. Foi n'esse oratorio que o
principe imperial commungou pela primeira vez, e que, no dia 4 de setembro
de 1870, a imperatriz ouviu missa, pela ultima vez, nas Tulherias.

O quarto de cama era de uma magnificencia verdadeiramente olympica. No
tecto, grandes molduras douradas inquadravam antigas pinturas allegoricas.
O leito, afofado de ricos estofos, e erguido sobre um estrado, era mais um
throno do que um leito.

Reliquias preciosas velavam o somno da imperatriz: a rosa de ouro que lhe
envira Pio IX por occasio do baptisado do principe imperial, e o vaso,
tambem de ouro, cheio de folhas e flres do mesmo metal, finamente
cinzeladas, que o Pontifice costumava offerecer aos seus afilhados de
baptismo. Alm de que, todos os annos, em domingo de Ramos, uma palma
abenoada pelo Padre Santo vinha de Roma para o espaldar do leito da
imperatriz.

Na crte das Tulherias havia, como em todas as crtes, um horario que
apenas as grandes solemnidades officiaes faziam alterar.

Jantava-se s sete horas e meia.

O pessoal de servio esperava os imperadores no salo Apollo, illuminado
por tres grandes lustres, que faziam reverberar o ouro do _plafond_,--uma
glorificao de Apollo com as nove musas.

Este salo ficava entre o _branco_ ou do primeiro Consul, assim chamado por
ter um magnifico retrato do general Bonaparte, e a sala do throno, que era
preciso atravessar para chegar ao salo de Luiz XIV,--a sala da meza.

Pouco depois das sete horas, o imperador subia aos aposentos da imperatriz,
e desciam ambos ao salo de Apollo com o principe imperial, que tinha lugar
 meza do estado desde os oito annos. A imperatriz dava ordinariamente a
mo ao principe. Entrando no salo, a imperatriz cumprimentava com um
sorriso e uma mezura as pessoas da crte, como n'uma ceremonia official.
Logo que o mordomo do palacio se inclinava silenciosamente diante do
imperador, annunciando o jantar, o imperador, dando o brao  imperatriz,
dirigia-se para a sala de Luiz XIV, e os dignitarios da crte davam o brao
s damas, seguindo-o.

O imperador e a imperatriz sentavam-se  meza, junto um do outro. O
principe imperial  esquerda do imperador, o ajudante de campo do imperador
 direita da imperatriz, a primeira dama de servio ao p do principe
imperial, a segunda dama  direita do general Rolin, seguindo-se os outros
commensaes, entre elles os officiaes da guarda das Tulherias.

Por detraz da cadeira do imperador e do principe imperial postava-se um
alabardeiro. Por detraz da cadeira da imperatriz, alm de mr. Bignet,
commandante da sua guarda, ficava Scander, um joven negro, que tinha vindo
do Egypto, e que, emplumado e armado, produzia um bello effeito decorativo.

Scander tinha um grande orgulho da sua posio, e no obedecia a ninguem
seno  imperatriz.

Um dia passeava elle no Jardim das Tulherias, e lembrou-se de macaquear os
gestos e meneios de um desconhecido qualquer, que, no gostando da parodia,
o admoestou. Mas Scander respondeu-lhe com um pontap, e o desconhecido,
filando-o por uma orelha, desancou-o com a bengala.

Furioso, mas poltro, Scander gritava:

--Deixe-me, que eu sou o filho da imperatriz...

O servio da cosinha era feito por meio de ascensores, e executado com
grande regularidade e presteza.

O salo de Luiz XIV tinha uma grande meza, e ao fundo, sobre o fogo, um
busto monumental d'aquelle soberano, alm de um retrato do mesmo rei,
pintado por Lebrun, de um retrato de Anna d'Austria, e de um quadro
representando a apresentao do duque de Anjou aos embaixadores hespanhoes.

Depois do jantar, os imperadores dirigiam-se com a sua _entourage_ para o
salo d'Apollo, onde se servia o caf, que Napoleo III tomava sem
sentar-se fumando cigarrilhas.

Era geralmente n'esta occasio que o imperador conversava com os officiaes
da guarda. Toda a crte se conservava tambem de p, mas o imperador
convidava quasi sempre as damas a sentarem-se. Fazia-se ento circulo,
fallava-se principalmente dos acontecimentos do dia, o marquez de
Havrincourt, o baro de Pieres, o duque de Trvise, dignitarios da crte e
deputados, commentavam os episodios da sesso do dia. A imperatriz era a
alma, a alegria, a graa d'este circulo de conversao. O imperador acabava
por _fazer paciencias_, e, para entreter o principe imperial, a crte
jogava algumas vezes o loto, marcando o imperador os seus cartes com
moedas de 50 _centimes_, novas em folha.

Oh! ceus! quem havia de dizer, nos tempos aureos do imperio de Napoleo
III, que os pamphletarios descreviam como nadando nos prazeres de uma orgia
ininterrupta, que s nove horas da noite, no salo Apollo das Tulherias,
estava a crte, os imperadores  frente, entregando-se paradisiacamente ao
patriarchal loto, como a essa mesma hora acontecia decerto, em Portugal, na
botica de Castro Daire e no club de Olho!

s dez horas os creados punham, n'uma pequena meza, o servio de ch, que
as damas faziam. Madame Carette escreve textualmente: Havia um bulle de
ch de laranjeira que tinha um grande successo entre os homens, e n'um
canto do salo um _plateau_ com refrescos e caf gelado. Geralmente o
imperador retirava-se depois de ter tomado uma chavena de ch.

Ento a conversao animava-se mais, estimulada pela imperatriz, que a
prolongava at s onze e meia.

Os adversarios do imperio atacaram vivamente as festas das Tulherias, os
quadros vivos de Compigne; aqui tenho eu ao p de mim Philibert Audebrand,
que me diz ao ouvido, applicando-a a Nopoleo III, a celebre phrase de
Agns Sorel a Carlos VII:

--No se perde mais alegremente um reino!

Mas, fra das grandes festas, no me parece que o loto das Tulherias,
marcados os algarismos com moedas de 50 _centimes_, seja babylonicamente
escandaloso. Um certo conego conheci eu em Braga que, sem ter um throno na
S, marcava os seus cartes com peas de 8$000 reis, e este mesmo conego
tambem no desgostava de quadros vivos porque o vi, passados annos,
assistir no Porto a um espectaculo de lanterna magica, realisado pelo Tasso
(no confundir com o poeta nem com o actor) no theatro de S. Joo.

E o que aconteceu?

O conego--Deus o tenha l!--morreu muito bem descanado na sua conezia. As
gazetas nunca fallaram d'elle seno para lhe rezar uma necrologia
louvaminheira. Mas Napoleo III perdeu a cora, o que no aconteceu ao
conego, foi descomposto pelas gazetas, crivado de epigrammas, e acabou no
exilio.

Quanto a epigrammas, at os proprios parentes lh'os faziam. Lembro-me agora
de um, que  do marido da princeza Clotilde, mais conhecido por uma alcunha
grotesca.

Na noite do seu casamento com a condessa de Teba, disse-lhe Napoleo III
que estava muito constipado.

O primo respondeu-lhe:

--_Couche-toi avec tes bas (Teb) cette nuit, et a passera._

Foi talvez o unico epigramma que no soube mal a Napoleo III...


IV

Conhece-se, nos seus pormenores, a desastrosa morte do filho da imperatriz
Eugenia na Zululandia. Foi esse acontecimento que desfolhou no corao da
viuva de Napoleo III o ultimo _bouquet_ das suas esperanas, que ella
podra salvar na revoluo de 4 de setembro. Restava-lhe apenas, a
prendel-a ao mundo e a ligal-a ao futuro, esse joven principe que sempre
adorou, e que bem poderia vir a rehaver um dia o throno dos Napolees. O
desejo de apressar a hora da _revanche_ napoleonica, um sonho de mulher
n'uma noite agitada, preparra, com mais precipitao do que acerto, a
partida do principe Luiz para a Zululandia. Contou decerto a imperatriz com
o effeito vantajoso que poderia despertar no animo enthusiasta dos
francezes a noticia de que seu filho se havia batido com denodo, embora por
um paiz estranho; e depois, como a Zululandia no estava precisamente na
fronteira da Frana, mas era uma regio longinqua da Africa, seria possivel
exaggerar um pouco hyperbolicamente os triumphos do principe,
sobredoiral-os com o prestigio que a distancia costuma dar s pessoas e aos
factos.

Mas este projecto de rehabilitao politica, que tinha brotado no espirito
ou no corao da imperatriz, offerecia perigos que a precipitao da
partida no deixou antever. Foram porm os perigos que triumpharam sobre as
esperanas. Foi o reverso da medalha, no devidamente estudado, que
triumphou sobre o anverso. A catastrophe da Zululandia apagou o ultimo
rescaldo do imperio napoleonico, e desde essa hora a imperatriz Eugenia,
sem familia, sem esperanas que a prendam  existencia, vendo cahir a seu
lado, velhos e doentes, os amigos mais dedicados do imperio, tem assistido,
como Carlos V, aos seus proprios funeraes, porque sobrevive a si mesma.

Esta  a ultima phase dolorosa da sua vida, que resgata largamente os erros
commettidos durante os dias gloriosos do fastigio do imperio.

Eugenia de Montijo amava ternamente seu filho, que tinha sido educado,
ainda que com extremo carinho, na tradio militar de Napoleo I.

Fra miss Schaw, uma ingleza, que recebra o encargo de ser a aia do
principe, por quem tinha uma dedicao fanatica.

Misturando o francez com o inglez, nunca o tratra seno por _My Prince_, e
o pequeno Napoleo pagava-lhe exuberantemente a ternura com que miss Schaw
o tratava.

De tudo quanto eu tenho lido a respeito do principe Luiz, infiro que era
uma boa e nobre alma a sua. No encontrei ainda nota discordante que
depreciasse o seu caracter ou amesquinhasse a grandeza fidalga do seu
corao.

Um dos jovens amigos do principe foi Luiz Conneau, filho de um medico muito
estimado nas Tulherias. A amizade d'estas duas creanas passava s vezes,
como era natural, por pequenas tempestades, amos infantis, que terminavam
sempre por um abrao de reconciliao. N'um dia de banquete official nas
Tulherias, a que o principe, em razo da sua idade, no devia assistir,
foi-lhe permittido jantar, nos seus aposentos, com Luiz Conneau. O
principe, sabendo que o seu amigo apreciava gulosamente um gelado de
morango, pedira que lh'o servissem.

O dia, que era de feriado para ambos, havia corrido na melhor intimidade
d'este mundo, mas, de repente, uma pequenina dissidencia explodira entre os
dois amigos. Luiz Conneau amuou-se, e no houve foras humanas que o
podessem deter nas Tulherias. O principe ficou muito sentido com a partida
brusca do seu amigo, mas, quando ao jantar lhe serviram o gelado de
morango, encheram-se-lhe os olhos de lagrimas, e ordenou ao criado que o
servia:

--Leva d'este gelado ao Conneau, e dize-lhe da minha parte que elle foi um
ingrato em deixar-me.

Toda a educao do principe Luiz obedecia ao desejo de continuar n'elle a
gloria militar do primeiro Napoleo, porque o imperio reconhecia que, em
face dos seus inimigos, precisava retemperar-se com a tradio historica.

Aos oito annos, o principe Luiz montava j a cavallo, e quando sobre um
bonito poney Bouton d'Or passava revista s tropas ao lado do imperador,
conhecia-se, na sua physionomia radiosa, que o lisonjeava esse bello
espectaculo militar, com cujo prestigio haviam deslumbrado a sua imaginao
infantil.

Como vestia o uniforme de _caporal_ do primeiro regimento de granadeiros da
guarda, tudo se conseguia d'elle, se fazia alguma maldadesinha,
dizendo-lhe:

--_Ne faites pas cela, Monseigneur; vous deshonoreriez l'uniforme._

E o principe aquietava-se.

Fra seu mestre de equitao mr. Bchon, homem alegre, de molde a fazer-se
estimar d'uma creana.

Madame Bruat tinha na crte o elevado cargo de _gouvernante des enfants de
France_, era a preceptora do principe, mas a imperatriz seguia a par e
passo a educao de seu filho.

Em 1867, estando a crte em Biarritz, encontraram-se mi e filho n'uma
situao difficil, nada menos que um naufragio.

Tinha-se planeado um passeio a bordo do _Faon_, pequeno aviso a vapor, e
o abbade Bauer, que fra n'esse dia a Biarritz, quiz ser do numero dos
excursionistas. O imperador no gostava de embarcar; no acompanhou por
isso a imperatriz e o principe.

A primeira parte da viagem, ate S. Sebastio, correu sem incidente. Mas
levantou-se vento, e o commandante do _Faon_ declarou que no poderiam
desembarcar seno em S. Joo da Luz. Por este motivo a viagem teve que ser
mais longa do que se esperava, e a noite principira a cahir. S. Joo da
Luz  um pequeno porto de pescadores, accidentado de rochedos, em que o
_Faon_ no poderia atracar. A imperatriz e o principe tiveram que ir para
terra n'uma cana, com o almirante Jurien e o abbade Bauer, mas a fora do
mar levara a pequena embarcao d'encontro a uma fraga, em que se
despadaou. A imperatriz conservou-se, dentro d'agua, abraada ao filho,
fluctuando com o auxilio de alguns dos marinheiros da canoa. E ternamente
dizia-lhe:

--No tenhas medo, Luiz.

--No, mam, respondia o principe. Eu sou Napoleo.

Como era natural que acontecesse, foi o abbade Bauer quem, na opinio dos
marinheiros, aguentou a culpa do naufragio.

--Ou no trouxessemos padre a bordo!

A alma do principe Luiz era naturalmente affectiva.

Pela ama que o crera conservou sempre uma dedicao extrema. At aos oito
annos, no queria adormecer sem que lhe pozessem sobre o travesseiro um
leno de sda da India e um retalho de velludo que tinham pertencido  ama.
Era uma superstio de creana. Miss Schaw tinha o maior cuidado em no
perder nunca de vista esses dois pequenos objectos to queridos.

--_My prince_, dizia ella, _serait inconsolable_.

A respeito da ama do principe: Como todas as amas, sobretudo quando o so
de principes, tinha caprichos, velleidades. Mas como nas Tulherias houvesse
uma outra ama para um caso de urgente substituio, intimidavam-n'a
dizendo-lhe:

--Se est aborrecida, chama-se a outra.

Era como se se deitasse agua na fervura.

Aos oito annos, a _entourage_ do principe deixou de ser feminina.
Deu-se-lhe como preceptor mr. Monier, escolhido ainda segundo os velhos
processos da educao principesca. Mr. Monier era um classico obstinado,
que atravessava a crte vergando ao peso da sua erudio um pouco fradesca.
Foi substituido por mr. Filon, que dirigiu a educao do principe antes e
depois da sua entrada na escla militar de Woolwich.

Tendo cahido o imperio, o principe continuou o seu curso n'esta escla,
onde os condiscipulos o tratavam familiarmente por Luiz. Completos os
estudos militares, foi residir com a imperatriz em Camden-House.
Levantava-se s seis horas da manh, tomava uma chavena de ch, e abancava
no seu gabinete d'estudo, at s dez horas, com mr. Filon.

Em seguida dava um passeio a cavallo, com excepo dos dias em que
acompanhava a imperatriz, a p, atravs de Chislehurst-Common,  pequena
igreja gothica de Saint-Mary. Ao domingo todas as attenes se fixavam na
mi e no filho que iam juntos ouvir missa. A imperatriz j ento
principiava a soffrer de rheumatismo articular; e o principe carinhosamente
a ajudava a descer da carruagem, amparando-a nos braos.

Em 1887 publicou-se em Paris, assignado por Charles de Br, um livro que se
intitula LE ROMAN DU PRINCE IMPRIAL. Supponho que com razo se denomina
romance. Eu nem acredito na verso do padre Goddard, que, fallando do
principe morto na Zululandia, dizia _Virgo intacta_, nem acredito na
historieta, contada por De Br, dos seus amores com miss Carlota Walkyns,
que, segundo o romance, houvera do principe um filho, que est em Frana a
educar.

Conta De Br que as entrevistas do principe com miss Carlota se realisavam
no _magasin_ de mr. Floris, em _Jermin street_ n. 80, e que ella ignorra
durante muito tempo a alta posio social do seu joven apaixonado.

Fra por occasio do casamento do duque de Norfolk com lady Hastings que
miss Walkyns tivera a revelao d'esse segredo, porque at ahi, como
dissemos, ella desconhecia completamente a condio d'esse moo
estrangeiro, que vira pela primeira vez na estao de New Cross.

Mas, no dia do casamento do duque de Norfolk, miss Walkins surprehendra o
seu bem amado a conversar familiarmente como o conde de Beaconsfield, e
esse facto impressionou-a vivamente.

Parece que a imperatriz alimentava o projecto de casar o principe imperial
com a princeza Beatriz, filha da rainha Victoria, mas por sua parte o
principe imperial alimentava a esperana de desposar miss Carlota, casando
por amor, como seu pai.

O _romance_ de Carlos De Br foi contestado por algumas folhas
imperialistas, e, se assentasse n'um facto verdadeiro, esse facto teria
tido em toda a Europa uma notoriedade insistente. No aconteceu assim. O
livro passou inspirando geral desconfiana sobre as affirmaes que
aventava, e eu persisto em consideral-o mais como uma especulao de
livraria, protegida nos seus intuitos mercantis pelo nome de um principe
desventuroso, do que como a expresso exacta da verdade.

Do supposto filho do principe Luiz nunca os jornaes francezes nos tornaram
a fallar, e no  natural que a imprensa de Paris, to vida de
_reportage_, abandonasse esse rico filo de noticiario.

Com este artigo, que chega at  vida actual da imperatriz Eugenia no
melancolico retiro de Chislehurst, fechamos por agora a sua biographia.

Nas paginas seguintes occupar-nos-hemos da imperatriz Carlota do Mexico,
que ha tantos annos envelhece na demencia com que os seus incomportaveis
soffrimentos lhe obumbraram o cerebro.

A posio social aproxima estas duas illustres damas, ambas viuvas de
imperadores. Mas ha uma differena profunda entre ellas. Eugenia de Montijo
teve o seu dia de ruidosa gloria, viveu largos annos dominando a Europa na
crte mais faustosa dos tempos modernos. A imperatriz Carlota no conheceu
nunca seno o conchego intimo do seu ninho de amor conjugal no castello de
Miramar, e a sua passagem pelo imperio do Mexico foi uma agonia em que
principiou por perder a coragem e acabou por perder a razo.


V

A IMPERATRIZ CARLOTA

A historia do imperador Maximiliano e da imperatriz Carlota parece moldada
sobre a tradio biblica de Ado e Eva no paraizo terreal.

Todas as delicias da creao se accumulavam no den n'aquella primitiva
profuso de luz, de aromas, de flres, de musicas, que, exuberantemente
creadas, irrompiam ainda em tumulto desordenado,  espera da lei reguladora
da existencia terrena. Todas as maravilhas paradisiacas, pujantes de vida,
deviam ser eternas e imperturbaveis, e Ado e Eva, dominando, n'uma
felicidade virginal, a esphera crystallina onde o sol ensaiava timidamente
o primeiro vo das suas azas de ouro, deviam viver eternamente n'uma
felicidade casta e perenne. Mas a tentao viera, perfida serpente,
espiralar-se na arvore do bem e do mal, enroscando-se no tronco, colleando
para a fronde d'onde pendia o pomo prohibido, prematuramente sazonado pela
intensidade do sol e pela fora creadora da terra. Ento o par ditoso, cuja
felicidade devia ser absoluta e immutavel, attrahido pela cupidez da
serpente tentadora, disputou-lhe o pomo, colheu-o, provou-o, e, julgando
ter vencido a serpente, viu-se de subito vencido por ella. Desde essa hora
foi marcado um limite terrivel  felicidade humana, a existencia tornou-se
ephemera e dura, e tudo quanto havia nascido para viver foi condemnado a
viver para morrer.

O paraizo terreal de Maximiliano e Carlota era o castello de Miramar, a uma
legua de Trieste, erguido sobre um promontorio pittoresco, que s avistava
a pureza lucida do ceu infinito e a pureza cerulea do mar immenso. Nunca o
vo de uma ambio havia cortado o horisonte luminoso do firmamento e do
oceano, nunca a aza de um sonho audacioso havia posto um trao negro no
espelho nitido das aguas e do ar.

O archiduque Maximiliano, commandante da marinha austriaca, era um homem do
mar, que, comquanto houvesse viajado desde o Oriente ao Occidente, desde a
Asia Menor a Portugal, amava a solido tranquilla, a concentrao placida e
meditativa a que a natureza, em pleno mar, convida o espirito. Um dia,
encantado pelo aspecto do promontorio que, a pequena distancia de Trieste,
parecia um throno de granito franjado de espumas, escolheu-o para construir
ahi uma pequena cabana de pescador, emboscada n'uma florestazinha de
plantas exoticas, que o sol no tardou a fazer germinar.

Desposando em 1859 a princeza Carlota, da Belgica, o archiduque Maximiliano
pde, graas ao dote que lhe trouxera a filha do velho rei Leopoldo, traar
por sua propria mo o projecto de um castello que nascia da cabanazinha
florida como a opulenta cabaia de sda de um rajah nasce da folha verde da
amoreira.

O archiduque era apaixonado pela architectura; fra elle que desenhra o
risco da famosa igreja Votiva de Vienna; pde pois calcular-se com que
alegre e dedicado enthusiasmo veria ir apparecendo, debaixo do seu
_crayon_, as torres denticuladas do futuro castello de Miramar.

Mais feliz do que a snr. Porhoet, do ROMANCE DE UM RAPAZ POBRE, cuja
velhice era alimentada pela phantasia de fazer edificar uma cathedral
estupenda, o archiduque vira realisado o seu sonho, e o castello de Miramar
fra nascendo  beira do oceano, avultando, subindo, fazendo lembrar a
lenda do rei de Thule e da

  ... torre herdada que havia
  ao rs das marinhas aguas.

Emquanto o castello de Miramar se edificava, o archiduque fra habitar um
_chalet_ que provisoriamente tinha mandado construir no alto da collina, e
que para os dois felizes esposos se convertra n'uma estancia encantada,
que a madresilva cingia n'um abrao de verdura e de flres, e envolvia na
atmosphera inebriante de um beijo de perfume. O archiduque gostava
immensamente de flres, de modo que os jardins de Miramar, que vieram a
contornar o palacio, pareciam realisar o sonho de um poeta que, como Castel
ou Lacroix, vivesse para cantal-as.

Fra no _chalet_ da collina que o archiduque, mesmo depois de edificado o
castello, permanecra sempre com a archiduqueza; nas salas do castello
recebia elle os homens de lettras, os artistas, os sabios, os principes que
procuravam a sua companhia, que uma illustrada conversao e uma sumptuosa
hospitalidade tornavam appetecida.

N'este paraizo terreal, n'este den do Adriatico, insinura-se um dia a
serpente da ambio, e a Frana, personificada em Napoleo III, fra o
espirito do mal que se transformra em serpente para realisar a tentao do
par feliz de Miramar.

Os mais dedicados amigos do imperio de Napoleo III no podem dissimular as
responsabilidades que pesam sobre a memoria do imperador na desgraada
questo do Mexico. Madame Carette, que pertence a este numero, no achou
meio de desculpar essa _fatalidade do imperio_, que veio a chamar-se a
expedio do Mexico.

 bem difficil, diz ella, encontrar o fio subtil de toda esta aventura, em
que tanta gente se enleiou e arruinou, que custou tantas victimas e tanto
dinheiro, que teve por desfecho o fatal drama de Queretaro, e que foi
talvez a origem dos acontecimentos que precipitaram a quda do imperio.

Como nasceu no espirito de Napoleo III a desastrosa ida da interveno da
Frana nas questes internas do Mexico? Como, e por qu?

O que at ha pouco tempo se sabia, e logo voltaremos ao assumpto, era que
algumas familias mexicanas e alguns membros das colonias estrangeiras
emigraram para a Europa fugindo s continuadas perturbaes politicas
d'aquelle paiz. Essas familias, muitas das quaes vieram estabelecer-se em
Paris, pensavam decerto em voltar  patria, e manobraram n'esse sentido,
auxiliadas pelos estrangeiros repatriados que levaram os seus respectivos
governos a realisar uma conferencia internacional em Londres. Accordou a
diplomacia em pedir indemnisaes para os emigrados, mas o governo
mexicano, _ bout de ressources_, declarou que no podia pagar o que lhe
era exigido.

As potencias interventoras, a Frana, a Inglaterra e a Hespanha,
julgando-se desconsideradas por esta resposta do Mexico, combinaram entre
si fazer uma demonstrao energica que impozesse o exacto cumprimento das
deliberaes tomadas na conferencia de Londres.

Foi o almirante Jurien de La Gravire que, com poderes discricionarios,
tomou o commando da expedio franceza, aggregando-se-lhe, como adjunto
technico, mr. Dubois de Saligny, antigo ministro no Mexico, que devia
occupar-se do contencioso. A esquadra hespanhola j estava fundeada em
Vera-Cruz quando a esquadra franceza l chegou. A Inglaterra, reconhecendo
talvez o erro politico d'esta aventura, enviou alguns navios com visivel
hesitao.

Os mexicanos, concentrando-se logo que os hespanhoes chegaram,
deixaram-n'os como que isolados n'uma vasta zona do littoral. Foi pois n'um
deserto que a expedio franceza desembarcou, posto que o governo do Mexico
manifestasse uma certa sympathia pela expedio franceza, considerando-a
como um obstaculo a quaesquer demasias dos hespanhoes, antigos occupadores
e, portanto, antigos inimigos dos mexicanos. Assim, pois, pde o almirante
Jurien assignar uma conveno que permittia aos francezes o internarem-se
em condies favoraveis de hygiene e abastecimento, com a clausula de que,
se as hostilidades se rompessem, retrocederiam para o littoral.

 n'este ponto que comea a urdir-se uma vasta rde de intrigas.

O general Prim, commandante da expedio hespanhola e casado com uma
senhora de origem mexicana, parecia aspirar, protegido por Serrano, 
realeza do Mexico. Mr. de Saligny, estomagado pela sua posio secundaria,
escrevia para Paris cartas sobre cartas queixando-se da prudencia com que
procedia o almirante Jurien. A Frana, dando ouvidos a mr. de Saligny,
enviava novos reforos, e, como adjunto do almirante Jurien, o general
Lorencez. Mas a Hespanha, picada pela supremacia que a Frana pretendia
accentuar, retirou a sua esquadra, e a Inglaterra, que tratava de procurar
um pretexto, fez o mesmo. Ficou a Frana isolada, desde esse momento, na
questo do Mexico.

Seria fastidioso enumerar n'uma chronica fugitiva todos os pormenores que
occorreram at ao dia em que o general Forey tomou o commando do exercito
francez, e alcanou sobre as guerrilhas mexicanas de Juarez alguns faceis
triumphos militares.

Foi ento que Napoleo III teve o sonho de realisar a transformao
politica do Mexico para contrabalanar na America a influencia dos
Estados-Unidos, e que obedecendo aos manejos da Frana, uma deputao
mexicana, em outubro de 1863, chegava ao castello de Miramar a fim de
offerecer a cora imperial do Mexico ao archiduque Maximiliano.

Napoleo III tomra o compromisso de conservar no Mexico, durante tres
annos, um exercito de vinte e cinco mil homens, commandado pelo general
Forey, succedendo-lhe Bazaine, que tinha feito toda a campanha como
commandante da 1. diviso; e o Mexico o de pagar immediatamente sessenta
milhes de francos a titulo de indemnisao de guerra, e mais vinte e cinco
milhes por anno, para o que foi levantado nos bancos da Europa, por
emprestimo, o dinheiro necessario, sob garantia do governo francez.


VI

Esqueamos por um momento a desditosa imperatriz Carlota, para, como
promettemos, indicar o mais que se tem averiguado sobre as razes politicas
que determinaram a interveno da Frana.

Uma das ultimas novidades litterarias, que lograram maior successo,  com
certeza o livro de Paul Gaulot: RVE D'EMPIRE.

Este livro occupa-se da famosa questo do Mexico, o ephemero imperio de
Maximiliano, e basa-se em documentos inditos. D'aqui o seu principal
interesse: um claro de revelaes, importantes e novas, illumina as
trezentas paginas d'esta brochura que tem j terceira edio, comquanto
haja apparecido ha poucos dias.

Envolvia-se at hoje nas sombras de um tal ou qual mysterio a causa da
interveno da Frana na questo do Mexico.

Presumia-se que Napoleo III tivera em vista dar um golpe mortal nos
Estados-Unidos, mas o que no passava de uma hypothese adquire agora,
graas ao livro de Paul Gaulot, fros de certeza.

 comtudo certo que, apesar de conhecida, a interveno de Napoleo III, a
interveno da Frana na questo do Mexico no perde completamente o
caracter de uma aventura perigosa, e um pouco phantasista.

Conta-se que n'um sero das Tulherias, em 1868 ou 1869, a familia imperial
passra a noite jogando _aux petits papiers_. N'um dos papelinhos, que
coube em sorte ao imperador, lia-se a seguinte pergunta: Qual  a vossa
occupao favorita? Napoleo III respondeu: Procurar a soluo de
problemas insoluveis.

Esta phrase define at certo ponto o espirito do imperador dos francezes,
sempre propenso  aventura, sempre enthusiasta de emprezas arrojadas ou, se
antes querem, um pouco visionario na politica.

Girando em torno da phrase escripta por Napoleo III, Paul Gaulot lembra
que na sua mocidade o futuro imperador dos francezes fra filiar-se nas
sociedades secretas d'Italia; que, sendo elle o representante da ida
napoleonica, isto , do principio d'authoridade, duas vezes tentou derrubar
o regimen estabelecido; que, subindo ao throno, deteve a aco da Russia no
Mar Negro e no Mediterraneo, sem comtudo querer que a Inglaterra ficasse
senhora d'esses mares; que combateu a Austria para permittir  Italia que
realisasse a sua unidade, impedindo-a porm de attingir este ideal politico
porque elle proprio protegia a conservao dos Estados da Igreja; que,
finalmente, se lanou na expedio do Mexico para contrariar os
Estados-Unidos, sem todavia querer declarar a guerra a esta potencia; que,
nos ultimos annos do seu reinado, tentou unir ao regimen imperial o regimen
parlamentar, abrindo pessoalmente uma brecha na cidadella que tinha
construido desde 1848.

Estes sonhos ousados, e por vezes contradictorios, constituiam o caracter
phantasista de Napoleo III. Como elle mesmo disse, o seu destino parecia
consistir em procurar a soluo de problemas insoluveis.

O pensamento que guiou Napoleo III no negocio do Mexico, diz Paul Gaulot,
era grande, generoso e politico.

Qual fosse esse pensamento, dil-o tambem Gaulot, confirmando de uma maneira
nitida a hypothese, at hoje vagamente formulada, de que elle pretendia
ferir a republica norte-americana.

Sobresaltado pelo immenso desenvolvimento que tinham tornado os
Estados-Unidos, depois que com o auxilio dos francezes haviam sacudido o
jugo da Inglaterra e conquistado a independencia, o imperador previa nos
destinos de uma nao, que no tinha cem annos de existencia e que j
possuia a supremacia no seu continente, uma ameaa e um perigo para o mundo
antigo.

Pensava Napoleo que a Europa viria a ser esmagada pela concorrencia,
especialmente agricola e industrial, da florescente republica do norte da
America.

Os Estados-Unidos estavam novos, vigorosos, ricos, e a sua aco,
encaminhada para a Europa, viria tolher o passo s grandes naes europas.

O momento pareceu azado a Napoleo para intervir. O sul dos Estados-Unidos
estava em guerra com o norte. Pensou pois Napoleo III que no poderia
ageitar-se melhor occasio para estabelecer, n'aquelles estados, uma sciso
definitiva, e formar no Mexico um grande imperio latino, que supplantasse a
republica americana, fraccionada e dividida.

Este foi, portanto, o pensamento, embora arrojado, exequivel, do imperador
dos francezes.

A seu lado, nas Tulherias, a imperatriz Eugenia animava o plano audacioso
de Napoleo III, no tanto por previso politica como por sentimentalidade.
Os exilados mexicanos iam levar ao conhecimento da imperatriz os seus
desgostos e as suas lagrimas, pedir proteco e auxilio. Fallavam-lhe em
hespanhol, a lingua patria da imperatriz, que decerto lhe avivava saudosas
recordaes de infancia, predispondo-a  benevolencia. Membros do partido
clerical, os exilados identificavam a sua causa com a da religio e do
clero, attrahindo assim o espirito catholico da imperatriz, captando-o
sentimentalmente.

No seu exaggero partidario, os exilados diziam que tudo se conseguiria com
um simples passeio militar, e que o Mexico e a religio ficariam devendo 
Frana uma gratido eterna pelo restabelecimento da paz interior.

De mais a mais os antecedentes historicos favoreciam a propaganda dos
exilados.

O antigo imperio do Mexico contra treze monarchas astecas desde a sua
fundao at  conquista hespanhola.

Depois, durante a laboriosa gestao da independencia, o Mexico fra
governado por vice-reis, seguindo-se-lhe o ephemero imperio do general
Iturbide, de modo que a formula monarchica encontrava, em seu favor, uns
restos de tradio.

 frente do partido que desejava o restabelecimento da monarchia estava
Gutierrez de Estrada membro de uma familia illustre, o qual, sendo ministro
dos negocios estrangeiros, em 1840, tinha escripto uma carta ao presidente
da republica, Bustamante, propondo-lhe, como soluo s crises incessantes
que desolavam a patria, a constituio de um governo monarchico.

Esta audacia acarretra-lhe a proscripo.

Gutierrez de Estrada viera refugiar-se na Europa, cada vez mais exaltado na
sua propaganda.

Em 1854 subira  presidencia da republica o general Sant'Anna, que
commungava as mesmas idas politicas de Gutierrez, e que lhe dera plenos
poderes para tratar, nas crtes de Paris, Londres, Vienna e Madrid, a
questo do restabelecimento da monarchia no Mexico.

Gutierrez de Estrada dirigiu-se ento ao duque de Montpensier, que declinou
o offerecimento.

O presidente Miramon, successor de Zuloaga em 1859, confirmou o mandato
dado por Sant'Anna a Gutierrez, e foi n'este momento que Napoleo III,
informado do que se passava, chamou a atteno de Gutierrez para o
archiduque Maximiliano.

Gutierrez acceitou com enthusiasmo esta indicao do imperador, tanto mais
que uma antiga conveno do Mexico, conhecida pela designao _de Iguala_,
e datada de maio de 1821, estabelecia que se adoptasse o principio da
monarchia constitucional, e que se offerecesse a cora aos infantes de
Hespanha, irmos do rei Fernando VII, e, no caso d'estes recusarem, ao
archiduque Carlos d'Austria.

Portanto, apresentar a candidatura de Maximiliano era, de algum modo, fazer
reviver uma tradio antiga.

Aqui esto, succintamente historiados, os fundamentos da interveno da
Frana na questo do Mexico.


VII

D. Gutierrez de Estrada, presidente da deputao mexicana que foi a Miramar
offerecer a cora imperial ao archiduque Maximiliano, dissera-lhe:

--Vimos pedir a vossa alteza que se digne subir ao throno do Mexico, aonde
vos chamam os votos de um paiz ha longo tempo dilacerado pela guerra, pois
que possuis o segredo de conquistar os coraes e a sciencia difficil de
governar.

O archiduque respondeu:

--Que accedia aos desejos do povo mexicano, ao qual daria um governo liberal
e constitucional, e que mostraria que a liberdade  compativel com o
regimen da ordem.

Em seguida a esta troca de pequenos discursos, houve permutao de
juramentos sobre o Evangelho: o imperador jurou fazer a felicidade do
Mexico; D. Gutierrez, em nome do Mexico, jurou fazer a felicidade do
imperador.

Como so falliveis e fallazes, tantissimas vezes, estes juramentos
solemnes, cuja realisao no depende dos homens, que os fazem, mas apenas
de Deus, que possue o segredo do futuro!

Maximiliano fiou mais de Napoleo III que d'essa mysteriosa fora
reguladora dos destinos humanos, que uns chamam Providencia, outros Acaso.

O deus das Tulherias promettia protegel-o, e tanto bastava n'uma poca em
que Bismarck no monopolisava ainda a direco politica da Europa. De mais
a mais, havia ao lado de Maximiliano uma gentil mulher que o amava, e que
se ufanava de que o marido podesse cingir a cabea com a cora de um novo
imperio, de que elle viria a ser o creador ostensivo.

A serpente da tentao silvra o perfido hymno, que j tinha sido escutado
por Eva no Eden. E, pondo os olhos nos sonhados deslumbramentos do futuro,
o par ditoso de Miramar comeou a esquecer o seu dce passado desambicioso,
o _chalet_ florido da collina, as salas tranquillas do castello, o mar
azul, que, mais leal do que o povo mexicano e que o imperador dos
francezes, nunca lhe tinha suggerido a ida de uma aventura perigosa.

O dia da partida chegra, a fragata austriaca _Novara_ e a fragata franceza
_Thmis_ fundearam no porto de Trieste, todo um enxame de archiduques e
archiduquezas concorrra ao bota-fra, o burgomestre, em nome dos
habitantes da cidade, significra ao novo imperador a viva saudade que elle
deixava, e Maximiliano, abraando o burgomestre, sentira os olhos inundados
de lagrimas, e o corao atormentado por um vago presentimento de desgraa.

--Parece-me que no voltarei mais! dissera o imperador.

Mas a salva festiva de cem tiros, no momento em que o imperador embarcava,
viera suffocar as suas palavras. A _Novara_, desfraldando as cres do
Mexico, esperava baloiando-se. As archiduquezas atiravam, na ponta dos
seus finos dedos patricios, beijos alados que iam, adejando, procurar a
face da imperatriz. Os archiduques acenavam ao imperador com os seus lenos
brancos, que fluctuavam como outras tantas azas de gara. A multido seguia
com um olhar attento, curiosamente interessado, todo esse extraordinario
movimento de bateis que ondulavam em torno da _Novara_. E no _chalet_ da
collina de Miramar,--o dce ninho de amor agora solitario--a madresilva
chorava em lagrimas de perfume insinuante o abandono em que a deixavam os
dois ingratos coroados. E o castello, na grandeza lutuosa das suas ameias,
parecia comprehender as lagrimas da madresilva saudosa, e responder-lhe
agoirentamente: Como  louca a ambio! como  cega a cobia!

A _Novara_, seguida da _Thmis_, levantou ancora, e de p, no tombadilho,
tanto quanto os oculos de longa vista podiam abranger, Maximiliano, immovel
como uma estatua, voltado para Miramar, devorava com os olhos o seu bello
castello solitario.

Com a pra na Italia, a _Novara_ navegava desfraldando a bandeira do
Mexico.

Maximiliano queria desembarcar em Italia para ir a Roma. Fazer o qu?
Regular questes religiosas do Mexico, disse-se ento. Pedir ao Padre Santo
que abenoasse uma empresa aventurosa, porque no? As almas apprehensivas,
como a sua, precisam, nos lances arriscados, procurar na f um ponto de
apoio, quando a esperana lhes sorri duvidosa.

Mas em Roma um aviso anonymo, affixado nas ruas da cidade santa, devia ter
soado aos ouvidos de Maximiliano como uma prophecia terrivel, que vinha do
seio mysterioso do incognoscivel.

Dizia o aviso que Roma inteira lra com surpreza:

  Maximiliano non ti fidare,
  Torna sollecito a Miramare!
  Il trono fradicio di Montexuma
   nappo gallico, colmo di spuma.
  Il Timeo Danaos qui non ricorda
  Sotto la clamide trova la corda.

O que, traduzido em portuguez, dir, pouco mais ou menos:

  Maximiliano, a Miramar
  Deves solicito voltar,
  Que o throno fragil de Mont'zuma
   como a taa cheia d'espuma,
  Um lao armado pela Frana.
  Do _Timeo Danaos_ a lembrana
  Quem a no pesa e a no recorda
  Em vez da purpura acha a corda.

Com que funda e dilacerante angustia no sahiria de Roma o imperador do
Mexico, a cujo encontro affluiam as felicitaes festivas e as saudaes
lisonjeiras!

O _diario de viagem_ de Maximiliano accusa claramente o desalento intimo da
sua alma. O mundo, escrevia elle,  pequeno, e todavia como se  baldeado
de uma a outra extremidade da terra! Felizes os que se encontram!

A _Novara_, sempre seguida pela _Thmis_, passou na ilha da Madeira, onde
Maximiliano havia estado em 1852. Ento, doze annos antes, consignra nas
suas MEMORIAS uma impresso deleitosa, de despreoccupada felicidade:
Surge-me das ondas uma ilha encantada, resplendente dos raios de um sol
tropical. O mar era transparente, ceruleo, o ar impregnado de perfumes
inebriantes. Collinas basalticas, cr de violeta, relevavam d'entre o
arvoredo cuja folhagem, de um verde brilhante, accentuava todas as energias
da primavera. A minha alma, extasiada, inundava-se de alegria. Uma celeste
pureza dominava o quadro...

Agora, doze annos corridos na existencia placida de Miramar, a impresso
que Maximiliano recebra na ilha da Madeira fora bem differente. A cora do
Mexico, que no comera ainda a ser de espinhos, era j, comtudo, um fardo
pesado. Vindo a terra, o imperador visitara os mortos, entrra no cemiterio
do Funchal, e colhra de uma campa solitaria uma rosa triste, que conservou
toda a sua vida, mais como uma reliquia, do que como uma simples
recordao.

A 28 de maio de 1864 a _Novara_ avistou a costa do Mexico.

Em Miramar deviam florir quella hora, em toda a pompa da primavera, os
jardins do castello abandonado.

No Mexico uma faxa de areia, arida como um deserto, desenrolava-se ardente,
apesar do fluxo refrigerante das ondas.

 aridez da terra correspondra a aridez da recepo. A _Thmis_ tinha-se
adiantado para annunciar a chegada dos imperadores, mas, apesar dos
esforos que o almirante Bosse empregra para salvar as apparencias, o povo
do Mexico conservou uma attitude indifferente, porque no diremos, hostil?
Que contraste entre esta recepo glacial e a despedida affectuosa de
Trieste!

Maximiliano comeou a comprehender a terrivel verdade que o pasquim de Roma
lhe annuncira.

A administrao franceza, a fim de tranquillisar o espirito sobresaltado do
imperador, comprou talvez a peso de oiro um enthusiasmo postio, que
tibiamente principiou a manifestar-se desde a estao de Loma Alta, a
ultima do caminho de ferro.

D'ahi por diante os imperadores viajaram n'uma caleche ingleza, que no
seria digna de hospedes menos qualificados. E a sua comitiva pernoitava ao
desabrigo, como uma caravana de bohemios, que apenas podiam contar com uma
hospitalidade desconfiada.

A 12 de junho, os imperadores fizeram a sua entrada solemne na capital.
Todo o apparato d'esse acto official orou por uma _mise-en-scne_
mediocre. Em nenhuma parte encontrou Maximiliano a franqueza que devia
corresponder ao convite que lhe fra feito para acceitar a cora do Mexico.

 noite houve espectaculo de gala, a que os imperadores assistiram, mas a
maior parte dos camarotes conservou-se fechada.

Um protesto eloquente, posto que tacito, contra a invaso de um soberano
estrangeiro.

A melhor sociedade do Mexico brilhava pela sua ausencia.

O melancolico palacio de Chapultepec, que fra destinado para residencia
dos imperadores, contrastava dolorosamente no j com a opulencia, seno
tambem com o conforto do castello de Miramar.

E quando os dois esposos coroados quizeram,  volta do theatro,
confidenciar as suas doloridas impresses d'aquella primeira noite do
imperio, acharam-se isolados n'um velho casaro desguarnecido, que tinha
sido residencia dos monarchas astecas e dos vice-reis[7].

Tal era o palacio de Chapultepec, que devia hospedar os fugitivos do
poetico castello de Miramar!


VIII

A installao do imperio devia fazer prever a sua existencia ephemera e o
seu fim desastroso.

O Mexico no poderia ser regenerado por um s homem, por maiores que fossem
a energia e a dedicao d'esse homem. Paiz devastado pelas guerras civis,
estava atrophiado, desorganisado, inculto. No havia esclas, estradas,
agricultura. Maximiliano teve occasio de o reconhecer quando emprehendeu,
arrostando com grandes perigos e incommodos, uma viagem atravs do seu novo
imperio.

O roubo parecia guindado  altura de uma instituio nacional. E no eram
s os _leperos_, especie de _lazzaroni_ do Mexico, que roubavam; do palacio
imperial desappareceram por vezes objectos preciosos.

Maximiliano, recolhendo  capital, projectou estradas, fundou esclas,
concedeu caminhos de ferro. Creou uma academia de sciencias e bellas-artes,
e traou o plano da construco, sobre o golfo do Mexico, de uma grande
cidade industrial e commercial, a que daria o nome de Miramar.

N'este fervoroso trabalho era auxiliado corajosamente pela imperatriz, que
passava os dias escrevendo a correspondencia politica do imperio, destinada
s crtes da Europa.

Entretanto, os perigos que rodeiavam Maximiliano cresciam como uma onda
temerosa. O partido juarista engrossava, as guerrilhas augmentavam, os
bandoleiros faziam audaciosas incurses at s portas da capital. Bazaine
casra com uma senhora mexicana; crera, portanto, ligaes e interesses no
Mexico, a sua sinceridade devia tornar-se suspeita a Maximiliano que, para
conservar-se no throno, no tinha outro ponto de apoio seno a Frana.

Fra Bazaine que aconselhra o imperador a decretar uma lei severa contra
todos os bandos armados que infestavam o Mexico.

Era o rastilho que devia incendiar, contra Maximiliano, o espirito
nacional. Mas o imperador dependia exclusivamente de Bazaine, e fez-lhe a
vontade.

Foi leal o conselho de Bazaine? Tudo faz acreditar que no foi. Elle
contava com o effeito seguro d'essa lei sanguinolenta. De facto, no 1. de
setembro de 1865, descobriu-se uma conspirao contra Maximiliano. Um dos
cabeas da conspirao era o general Uraga, ajudante do imperador.
Quinhentas pessoas foram presas, o corpo de _drages da imperatriz_
dissolvido, e Bazaine convidado a occupar militarmente o palacio imperial.

Que triste realeza a de Maximiliano, rodeiado de bayonetas no seu proprio
palacio!

Coincidiu com este deploravel estado de coisas o termo da occupao
franceza. Tres annos haviam passado. Napoleo III, que principira a medir
todo o alcance d'essa louca aventura do Mexico, procurava um pretexto
desleal para mandar retirar a expedio franceza. Os Estados-Unidos
deram-lhe o pretexto. E Maximiliano, vendo-se perdido, enviou  Europa, a
implorar a proteco de Napoleo III, a imperatriz Carlota.

Foi em agosto de 1866 que a desventurosa imperatriz chegou a Saint-Cloud.
Os imperadores vieram recebel-a ao fundo da escada, com esse requinte de
cortezia palaciana cuja inteno nem sempre  sincera. Feitos rapidamente
os cumprimentos do estylo, o imperador e as duas imperatrizes encerraram-se
em conferencia n'um gabinete particular.

Oiamos agora o testemunho insuspeito de madame Carette:

  A imperatriz do Mexico, que contava ento apenas vinte e seis annos,
  denunciava longas angustias, profundas inquietaes. Alta, de um porte
  elegante e nobre, o rosto redondo, os olhos negros e salientes, as
  feies graciosas, a imperatriz trajava um longo vestido de sda preta,
  ainda vincado das dobras da mala em que fra acondicionado durante a
  viagem e de que fra tirado  pressa, sem ter havido tempo de o arejar;
  um mantelete de rendas pretas, e um chapeu branco muito enfeitado, que
  tinha sido comprado n'essa manh em casa de uma das primeiras modistas. O
  calor era n'esse dia asphyxiante, e fsse por effeito do longo trajecto
  em carruagem, ao sol, desde Paris a Saint-Cloud ou por effeito das
  commoes que a agitavam, as faces da imperatriz estvam vivamente
  rosadas.

  Acompanhavam-n'a duas damas de honor, mexicanas, muito feias, morenas,
  pequenas e desgraciosas, que fallavam o francez com difficuldade. Ao
  passo que os soberanos conferenciavam largamente e sem testemunhas,
  esforavamo-nos por entreter estas duas estrangeiras, que pareciam muito
  perturbadas. Eu consegui trocar algumas phrases com uma d'ellas, e, para
  matar o tempo, offerecemos-lhes alguns refrescos.

  A dama mexicana pediu-me que mandasse uma laranjada  imperatriz
  Carlota, que, segundo me disse, costumava, quella hora, tomar esse
  refresco. Dei immediatamente ordem na ucharia para que servissem a
  laranjada. A imperatriz Eugenia, contrariada com a entrada do criado,
  perguntou quem lhe tinha dado a ordem. Respondeu que fra eu, e foi a
  propria imperatriz Eugenia que serviu a laranjada  imperatriz Carlota,
  tendo que insistir para que a tomasse, porque a imperatriz do Mexico
  parecia hesitar.

Duas horas durou essa entrevista dos tres personagens. No valeram razes,
supplicas, rogos. O imperador Napoleo fra de pedra, elle, o inventor do
imperio do Mexico, elle, a serpente que tentra Maximiliano!

Carlota sahiu de Saint-Cloud pedindo  imperatriz que ao menos interpozesse
o seu valimento para demover Maximiliano a sahir do Mexico.

Foi chorando copiosamente que a imperatriz Carlota deixra Saint-Cloud.
Pobre corao de mulher, que uma dr incomportavel dilacerava! Entrra em
Saint-Cloud uma imperatriz; sahira uma louca.

De Paris, essa desgraada senhora fra para Roma, implorar o auxilio do
chefe da igreja catholica. Receiosa de que a quizessem envenar, depois que
lhe serviram a laranjada em Saint-Cloud, apenas se alimentava de fructas.
Entrou no Vaticano no momento em que Pio IX almoava. Arrancando da mo do
Papa uma chavena de chocolate, tomou-o soffregamente exclamando:

--Ao menos este no estar envenenado!

Sempre receiando uma cilada, no quiz recolher-se ao _hotel_. Foi preciso
consentir em que pernoitasse no Vaticano, n'uma camara visinha  de Pio IX.
A loucura era completa, manifesta. Maximiliano estava perdido. Fra esse
crudelissimo desengano que esmagra a razo da pobre imperatriz.

Conduziram-n'a a Miramar, na esperana de que o aspecto de lugares
conhecidos e queridos lhe restituisse a razo. O povo de Trieste,
supersticioso como todo o povo, comeou a consideral-a uma santa. Sim,
santa de martyrio, santa de soffrimento. Mas louca para toda a vida. A dr
santificra-se n'ella em loucura. Deus fra mais piedoso do que os homens
creados  sua imagem e semelhana.

Bazaine, sahindo do Mexico, abandonra o imperador s represalias dos
juaristas. Antes de sahir, fizera lanar ao rio Sequia e ao lago Texcoco
todas as suas munies. Que refinada perversidade a d'esse homem, que a
Providencia castigou to justa e sabiamente! Diz-se at que Bazaine tinha
proposto a Juarez entregar-lhe Maximiliano por 50:000 dollars.
Naturalmente, Juarez, visto que Maximiliano ficava indefeso, achou caro.
Podia tel-o de graa logo que o exercito francez retirasse. E assim foi.
Juarez era mais esperto do que Bazaine, mas no menos ambicioso.

O que fazia entretanto o imperador Napoleo? Nada. Pedia a Maximiliano que
fugisse. Maximiliano respondia nobremente que um Habsburgo no sabia fugir
como um cobarde. Apenas consentiria em sahir como um imperador, renunciando
 cora.

Foi n'este proposito que Maximiliano partiu para Vera Cruz, onde a corveta
_Dandolo_ o esperava. Mas ahi, quando pensava em restituir ao povo mexicano
a menos invejavel das realezas, o partido conservador fizera-lhe promessas
de homens e dinheiro. Maximiliano acreditou, com essa estranha credulidade
dos espiritos combatidos pelas grandes dres. A esse tempo j tinha
recebido a noticia da loucura da imperatriz. Naufrago desesperado,
agarrou-se  primeira taboa de salvao, embora fragil, e talvez perfida,
que lhe offereciam.

A Providencia, sempre justa, preparava para Napoleo a derrota de Sedan, e
o exilio; para Bazaine o carcere, a infamia, o homizio. Poucas vezes a
historia nos assignala um ajuste de contas to rapido e completo; uma
liquidao de responsabilidades que tanto satisfaa a consciencia humana.


IX

A retirada da expedio franceza dra alento a Juarez, que ameaou ir
cercar a capital.

Maximiliano, querendo poupar os habitantes da cidade aos incommodos e
perigos do assedio, retirou-se para Queretaro, onde, com o auxilio de
alguns generaes, que se lhe conservaram fieis, pudra reunir um pequeno
nucleo de tropas defensivas.

A sorte das armas deveria decidir da victoria entre o exercito do imperador
e o de Juarez. Os acontecimentos futuros dependiam pois da vantagem que o
azar dos combates dsse a um ou a outro dos dois contendores. Mas o coronel
Lopez, ajudante do imperador, apressou, dizia-se, o desfecho do drama com
uma traio ignobil: vendra Maximiliano aos juaristas por 2:000 onas de
oiro. E todavia Lopez havia sido extremamente beneficiado pelo imperador
com generosas dadivas, sabia-se[8].

Na madrugada de 15 de maio de 1867, o imperador, que costumava levantar-se
muito cedo, viu Queretaro em poder dos juaristas. Graas ao general Rincon,
pde ainda ir refugiar-se na pequena collina de Cerro de las Campanas, que
domina a cidade.

Escobedo, general juarista, deu-se pressa em sitiar a collina. O imperador,
reconhecendo que toda a tentativa de resistencia seria um sacrificio
inutil, mandou atar um leno branco na bayoneta de uma espingarda.
Capitulava. Pouco depois entregava a sua espada ao general Corona, e era
conduzido, com os outros prisioneiros, ao convento de Santa Theresita,
d'onde foram transferidos para o convento dos Capuchinhos.

Juarez mandou reunir o conselho de guerra para julgar os prisioneiros.
Maximiliano recusou-se a comparecer. Durante tres dias funccionou o
conselho: no banco dos ros estavam sentados os generaes Miramon e Mjia,
imperialistas. A sentena foi de morte: o imperador e os dois generaes
deviam ser passados pelas armas. Marcou-se a execuo para o dia 19, e de
nada valeram os esforos empregados junto de Juarez pelos embaixadores da
Prussia e da Inglaterra para obterem o perdo dos condemnados.

Na noite anterior, Maximiliano pediu uma tesoura ao carcereiro. Foi-lhe
recusada. Supplicou ento que lhe cortassem uma madeixa do seu cabello e
incluiu-a n'esta carta que escreveu  imperatriz:

  Minha querida Carlota. Se Deus permittir que melhores um dia e que leias
  estas linhas, conhecers a crueldade do destino que no deixou de
  perseguir-me desde a tua partida para a Europa. Levaste comtigo a minha
  felicidade e a minha alma. Por que te no ouvi eu?! Tantos
  acontecimentos, tantas catastrophes inesperadas e immerecidas me teem
  esmagado, que, desamparado da esperana, vejo na morte o anjo da
  redempo. Morro sem agonia. Cahirei com gloria, como um soldado, como um
  rei vencido... Se no tiveres foras para arrostar com tamanho
  soffrimento, se Deus em breve te reunir a mim, abenoarei a sua mo
  paterna e divina que to rudemente nos feriu. Adeus! adeus!

  Teu pobre--_Max_.

Max era o diminutivo de familia, com que tambem assignou outras cartas,
escriptas em francez, e dirigidas a sua mi,  archiduqueza Sophia e a
muitos amigos.

Como se v, Maximiliano conservou, em frente da morte, uma attitude serena
e calma.

s seis horas da manh do dia 19, um official veiu abrir a porta do
carcere.

--Estou prompto, disse o imperador adiantando-se.

E ao sahir a portaria do convento dos Capuchinhos, erguendo os olhos para o
co:

--Que bello dia! Sempre esperei morrer n'um dia de sol.

Entrou na carruagem descoberta que lhe era destinada. Os generaes Miramon e
Mjia, cada um em sua carruagem, seguiam a do imperador. Eram escoltados
por quatro mil homens. O funebre cortejo poz-se a caminho para o Cerro de
las Campanas. Os condemnados iam de p, serenos, tranquillos. As ruas e
janellas estavam cheias de gente. Maximiliano, diz Tissot, nunca pareceu
mais bello do que n'essa occasio. As mulheres desviavam o rosto para
occultar as lagrimas.

Houve um momento em que o general Mjia se perturbou: foi quando sua
esposa, com o filho, recem-nascido, nos braos, rompeu d'entre a multido,
os cabellos em desordem, o gesto allucinado. Mjia escondeu o rosto entre
as mos. Foi esta a unica fraqueza no espectaculo heroico d'aquelle
triplice fuzilamento.

Quando a primeira carruagem chegou ao Cerro da las Campanas, Maximiliano
apeiou-se com ligeireza, distribuiu a cada soldado uma ona de ouro, e
disse-lhes:

--Apontai bem, meus amigos; tomai por alvo o meu corao.

Um dos soldados chorou. Maximiliano entregou-lhe a sua carteira de
cigarros, cravejada de pedras preciosas. E, como o official que devia dar a
voz de fogo lhe pedisse perdo, o imperador respondeu:

--Um soldado deve sempre obedecer s ordens que recebe: cumpre o teu dever.

Em seguida abraou os generaes Miramon e Mjia, como elle condemnados 
morte.

--Dentro de alguns minutos, vr-nos-hemos no co, disse-lhes.

Apertou a mo de Miramon, em primeiro lugar, dando a razo da preferencia:

--General, ao mais bravo, o lugar de honra.

E a Mjia:

--Os que soffrem injustamente so recompensados n'outro mundo.

Depois, subindo a uma pedra, fallou ao povo:

--Mexicanos! Os homens da minha condio e da minha raa so destinados a
fazer a felicidade dos povos ou a serem victimados por elles. No foi um
pensamento illegitimo que me trouxe ao vosso paiz. Fstes vs que me
chamastes. Antes de morrer, quero dizer-vos que empreguei todos os esforos
para vos felicitar. Mexicanos! possa o meu sangue ser o ultimo que faaes
derramar e possa o Mexico, minha desgraada patria adoptiva, ser feliz.
Viva o Mexico!

Um sargento veiu ordenar a Miramon e a Mjia que se voltassem de costas:
deviam ser assim fuzilados como traidores.

--At  vista, disse-lhes Maximiliano.

E, afastando as suas longas suissas louras, apontou para o corao,
exclamando: Aqui!

 voz de _Apontar_, um murmurio de indignao sahiu d'entre a multido dos
indios, em cuja raa  antiga a superstio de que um homem da raa branca
os ha de libertar um dia.

Os officiaes voltaram-se brandindo a espada para reprimir a multido.
Ouviu-se a voz de fogo.

--Viva o Mexico! disse Miramon.

--Carlota! Carlota! exclamou Maximiliano.

E quando a fumarada se dissipou, tres cadaveres ensanguentados jaziam ao
sol no Cerro de las Campanas.

O drama do Mexico, preparado por Napoleo III, tinha tido o seu ultimo
acto.

O general Lopez, o Judas de Maximiliano, a ser verdadeira a tradio
antiga, no recebeu as duas mil onas de ouro que lhe tinham sido
promettidas, mas apenas sete mil piastras. A execrao publica
amaldioou-o... pelo menos durante vinte annos.

Napoleo III morreu exilado em Inglaterra, e seu filho acabou s mos dos
zulus na Africa.

Bazaine, tendo podido fugir do carcere depois da guerra franco-prussiana,
com o labo de traidor, expirou em Hespanha, onde se homizira.

A imperatriz Carlota vive ainda, se dos loucos se pde dizer que vivem. Tem
hoje quarenta e nove annos de idade. Est habitualmente no castello de
Laeken, onde nasceu. Seu irmo e sua cunhada, os reis da Belgica, fazem-n'a
rodear dos maiores carinhos por meio de uma assistencia dedicada e
vigilante. Todos os caprichos da pobre louca so pontualmente satisfeitos.
s vezes sonha ella ser ainda imperatriz, quer dar recepes solemnes,
festas magnificas. E os convivas que n'esses momentos a rodeiam so bonecos
vestidos  crte, que ella sada com uma longa mesura, arrastando
magestosamente sobre o tapete a cauda roagante do seu manto imperial.

Um viajante que esteve ha pouco tempo em Laeken viu-a encostada a uma
janella do castello. Scismava. Quem sabe se, atravs do nevoeiro que lhe
envolve a razo, no avistaria ao longe, muito ao longe, vaga e
confusamente, o seu antigo castello de Miramar, como no fundo de um sonho
doloroso uma memoria truncada!

Graas aos esforos empregados pela Russia, o corpo de Maximiliano foi
restituido em 1867, sendo por essa occasio libertados alguns soldados
austriacos que se conservavam prisioneiros, e perdoado o principe
Salms-Salms, que tinha sido condemnado  morte com o imperador.

De toda a catastrophe do Mexico restam hoje tres viuvas: a de Maximiliano,
de Napoleo III, e do marechal Bazaine.

No Mexico, alm da tradio historica que a auctoridade de Juarez no pde
supprimir, existe uma recordao, to saudosa quanto delicada, do ephemero
e infeliz imperador: so os rouxinoes que cantam nas florestas de acaj, e
nos _chinampas_, ilhas fluctuantes. No dia em que Maximiliano foi fuzilado,
chegavam ao Mexico, em vez de munies de guerra que elle bem poderia ter
encommendado para se entrincheirar no throno, dois mil rouxinoes que havia
mandado comprar na Styria para com elles povoar as arvores das florestas.




<span id="chapIX">IX

O PAIZ DOS MENINOS...


I

O MENINO DE S. DOMINGOS

 costume portuguez dizer-se por graciosidade ou disfarce, segundo a idade
da pessoa com quem estamos fallando, que _as creanas recemnascidas vieram
de Frana_.

Os loiros _babys_, que aguardam impacientemente a chegada de mais um irmo
pequenino, contentam-se ingenuamente com a resposta que lhes damos--de que o
menino viera de Frana--e, annos volvidos, quando a malicia do mundo lhes
revelou o segredo da procreao da especie humana, elles mesmos continuam a
tradio dizendo por sua vez aos filhos curiosos--que viera tambem de Frana
aquelle lindo menino, que lhes offerecem para irmo.

Mas...  triste idade a nossa, em que j se no acredita em quasi nada, e
muito menos em _meninos que vm de Frana_!... mas por que razo se
escolheu a Frana como paiz ideal de onde todos os meninos portuguezes so
oriundos! A phrase ficou lendaria entre ns, a tradio subsiste com a
mesma intensidade, com ella ludibriaram a nossa curiosidade infantil, e com
ella, por nossa vez, respondemos  pergunta, por igual curiosa, de nossos
filhos.

No haveria um facto historico que determinasse a origem d'esta tradio?
Aposto que o leitor nunca pensou n'isto! Nunca!  celebre! Tanto mais
celebre, se  certo que j alguma vez encommendou para Frana meninos
recemnascidos.

Pois, verdade, verdade, eu nunca tinha pensado tambem, e no o pensaria
jmais, se o licenciado Duarte Nunes de Leo, nas suas chronicas de reis
portuguezes, especialmente na de Affonso III, no tivesse chamado a minha
atteno para uma antiga lenda portugueza, que bem pde ter dado origem 
tradio de que  de Frana que chegam os meninos recemnascidos.

 possivel que eu esteja em erro, mas como isso no prejudica os meninos,
nem os pais, e menos ainda a Frana, afoito-me a emittir uma opinio, que
as academias talvez ingratamente repillam, mas que no deixar comtudo de
ter uma tal ou qual apparencia de verosimilhana.

Posto este brevissimo exordio, entremos no assumpto, quero dizer na
chronica de Duarte Nunes.

Depois de ter contado como o infante D. Affonso casra em Frana com a
condessa Mathilde de Bolonha, viuva de Filippe o _Crespo_, e como, sendo
acclamado rei de Portugal, a repudira para desposar a filha do rei de
Castella, empenha-se Duarte Nunes em demonstrar, por documentos
authenticos, que a condessa de Bolonha no houvera filhos de D. Affonso de
Portugal.

A dissertao do chronista tem por fim rebater uma lenda, que se enraizra
entre o povo portuguez, e sobre a qual assenta a hypothese que eu pretendo
formular.

Escreve, pois, o historiador:

  ... resta satisfazer s fabulas da gente popular, que ficaram por
  historia de mo em mo, e que o chronista Ferno Lopes conta na vida do
  dito rei, no sabendo o que seguisse, nem o que fugisse, por a pouca
  informao que d'aquelles tempos rudes pde alcanar, e por o pouco
  discurso que elle n'isso podia fazer por falta de noticia das historias
  estrangeiras. Primeiramente diz que passados alguns annos depois de o
  infante D. Affonso partir de Bolonha, soube a condessa sua mulher como
  el-rei D. Sancho era fallecido, e o conde D. Affonso seu marido levantado
  por rei. E que no sabendo ser elle casado, armou uma frota, em que veiu
  a este reino. E que aportando a Cascaes, soube do casamento de seu marido
  com a filha d'el-rei de Castella, e estar com ella recreando-se na aldeia
  de Friellas, termo de Lisboa. E que fazendo-lhe saber de sua vinda, e
  requerendo-lhe a recebesse a ella, e se apartasse d'aquella mulher, com
  que estava em peccado, el-rei lhe mandou que se fsse fra de seu reino.
  Contam mais que a condessa se tornou para Frana, deixando-lhe um filho
  que trazia, segundo a opinio de alguns; e outros diziam que o tornou a
  levar, e de l o mandou depois a Portugal.

Aqui  que bate o ponto.

O facto era importante como questo politica: tratava-se da successo 
cora. Uns davam razo ao rei; outros  condessa de Bolonha. E discutia-se
a hypothese de existir um filho do primeiro casamento de D. Affonso III;
fallava-se muito _de um menino que viera de Frana_.

Duarte Nunes de Leo trata de desmentir a lenda com documentos e razes
chronologicas. Mas a lenda enraizou-se e floresceu em Portugal, a ponto de
sobreviver ao _menino que viera de Frana_, e que teria morrido de morte
natural ou violenta.

O povo, pelo que se infere de Duarte Nunes, acreditava que o menino estava
sepultado na igreja de S. Domingos.

Diz a chronica:

  E para que a gente vulgar, que no se move tanto por razes, quanto
  pelos sentidos de vista e ouvida, se satisfaa,  necessario declarar-se
  que sepultura era a de S. Domingos de Lisboa, em que havia fama no povo
  que estava enterrado um menino filho da condessa Mathilde e d'el-rei D.
  Affonso seu marido, que diziam que era o que trouxera comsigo ou _mandra
  de Frana_.

Duarte Nunes viu a sepultura, e descreve-a. A caixa era de marmore branco,
com varios ornatos esculpidos  roda, figurando arvoredo e montaria de
porcos e ces. As lettras do epitaphio eram gothicas. Mas as dimenses da
sepultura denunciavam o cadaver de um adulto, no de um moo de pouca
idade. Vinte annos antes de Duarte Nunes escrever a chronica de D. Affonso
III, querendo o prior de S. Domingos despejar o cruzeiro (onde a sepultura
estava) ou por no lr aquellas lettras, porque constava jazer alli um
filho do rei, que fundou aquella casa, ou por cuidar que seria algum
menino, abriu-se a sepultura e achou-se um corpo incorrupto, sanissimo,
diz o chronista, reconhecendo-se que era de _homem grosso_. Os ossos foram
trasladados para outra sepultura, proxima  capella de Santo Andr.

De maneira, escreve o chronista, que a fama de alli estar um menino filho
de Mathilde, era falsa e v, e era certo estar alli o infante D. Affonso,
irmo inteiro d'el-rei D. Diniz, que morreu de grande idade com muitos
filhos e netos.

Como se v, a lenda do _menino que viera de Frana_ generalisou-se entre o
povo portuguez, e atravessou os seculos sem perder uma parcella da sua
popularidade. O proprio prior de S. Domingos, que devia ser homem
ilustrado, teve duvidas, e s se desenganou depois de ter mandado abrir a
sepultura.

A lenda cahiria ento em algum descredito, que alis no foi completo, como
logo veremos, mas, a locuo, havendo-se tornado tradicional, permaneceria,
chegando at ns. Para de algum modo satisfazer  curiosidade ingenua das
creanas, dir-lhes-iam que todos os meninos _vinham de Frana_, como o da
lenda. E assim o phenomeno physiologico da maternidade ficaria na
imaginao das creanas envolvido no mesmo mysterio, que pesou sobre o
nascimento de um filho de D. Affonso III e da condessa de Bolonha at ao
dia em que na igreja de S. Domingos foi aberta a respectiva sepultura.

E quantos espiritos populares no passaram d'esta para outra vida com a
convico de que effectivamente um menino, filho do rei portuguez, _viera
de Frana_, por ordem de sua mi! Similhantemente, os espiritos infantis
dos loiros _babys_ acreditam ingenuamente que os seus irmos pequeninos,
como elles proprios, vieram de Frana por ordem de sua mi e... de seu pai.
A differena, que  insignificante, est apenas na parceria da encommenda.

O menino de S. Domingos era um mysterio, um segredo, como aquelle que para
as credulas creaturinhas deve envolver o facto da gestao e do nascimento,
em toda a sua verdade physiologica.

Com o reconhecimento do cadaver desfez-se o mysterio, mas a lenda subsistiu
conservando a locuo, tanto mais que ficou a perpetuar a lenda um
monumento em que a imaginao popular a materialisou.

Sabe o leitor que monumento  esse? No sabe, decerto. So alguns rochedos
que afloram do mar na barra de Lisboa.

Dil-o Duarte Nunes:

  E para que no fique coisa a que se no responda, outra historia como
  esta andava entre as velhas, e gente popular, porque contavam que quando
  a condessa veiu a Cascaes e foi desenganada d'el-rei seu marido, que a
  no havia de recolher, tornando-se para Frana, estando j para dar 
  vela, lhe deixou dois filhos, dizendo que dissessem a el-rei que tomasse
  l seus cachopos, e que por isso se chamou Cachopos quelle lugar do mar,
  onde os deixou, no entendendo aquella gente vulgar que cachopos 
  palavra portugueza de homens rusticos, por que chamam aos moos de pouca
  idade, e que a condessa Mathilde, franceza da Gallia Belgica, no podia
  fallar por aquelles termos da lingua portugueza, que no sabia, e que
  aquelle lugar da barra de Lisboa, de penedia e bancos, que vo por
  debaixo da agua, onde as naus perigam, se diz cachopos, corrupto o
  vocabulo latino _scopulus_, como se corromperam pela successo dos godos
  e dos mouros outros infinitos vocabulos, que temos da lingua latina,
  d'onde a nossa tem a origem. Isto  coisa de graa...

Graciosos na sua elegante singeleza so tambem este e os outros relanos da
chronica de Duarte Nunes.

No sei se o leitor ficar inclinado a acreditar que a lenda do menino de
S. Domingos haja dado origem  locuo proverbial de que os meninos
recemnascidos vm de Frana.

Se no ficar, releve-me a innocentissima conjectura pelo prazer que decerto
lhe deram as transcripes que fui buscar a Duarte Nunes e que,
aproveitando-lhe a phrase, diga complacentemente com o chronista: Isto 
coisa de graa.[9]


II

O PRINCIPE DA BEIRA

(Maro de 1887)

E a proposito...

Toda a semana se fallou muito de um principesinho que ha de vir de Frana,
n'um bercinho de verga doirada, deitado n'uma almofadinha de sda, entre
rendas e flres, sobrescriptado para o Pao de Belem.

Os jornaes no teem fallado de outro assumpto, e os pais de familia vem-se
sriamente entalados para explicar aos _bebs_ o motivo por que esse lindo
principesinho que ha de vir de Frana (e que deve ser lindo como todos os
principes) no chegou ainda, a despeito de fazer-se esperar por toda a
familia real e por todos os habitantes do paiz.

Tem sido realmente preciso dar tratos  imaginao para explicar
phantasiosamente o caso d'essa demora imprevista, para satisfazer a justa
curiosidade dos _bebs_, e se o _accouchement_ da princeza Amelia tardar
ainda mais alguns dias, receio muito que chegue a esgotar-se a imaginao
dos pobres pais de familia.

Um dia so os pastores dos Pyrenos que, sabendo que por alli passa um
principesinho, se juntam para vl-o, obrigando o portador a parar e a
mostrar-lh'o.

No tem o portador outro remedio seno parar, descobrir o bercinho, mostrar
o principe.

Ento os pastores querem beijal-o por fora, e pedem ao portador que se
demore emquanto elles vo buscar a melhor rez do seu rebanho para
offerecel-a quella linda creana.

Outras vezes  o portador que se enganou no caminho, por ser a primeira
vez, depois de muitos annos, que traz um principe a Portugal.

Outras vezes  ainda o portador que, por ter caminhado com muita pressa,
ancioso de chegar, cansou a meio do caminho e parou.

Finalmente, so as andorinhas que reclamaram para si o direito de vir
trazendo o principesinho nas suas azas, mas como as andorinhas sejam
pequenas ainda mais pequenas do que o principe, o emissario v-se forado a
dar-lhes frequentes descansos.

Durante vinte e quatro horas, os _bebs_, no tendo ouvido os foguetes,
acreditam na desculpa que se lhes d, mas no dia seguinte, como a demora v
continuando,  preciso inventar uma desculpa, e um pai de familia, por
muito amor que tenha aos seus filhos, pde no ter tanta imaginao que
chegue para cada um d'elles...

Entretanto, os _bebs_ e os adultos vo esperando pelo principesinho que ha
de chegar de Frana n'um bercinho de verga doirada, deitado n'uma
almofadinha de sda, entre rendas e flres, sobrescriptado para o Pao de
Belem.

J tudo est a postos para o receber. Os condes de Paris esperam, o
principe D. Carlos mostra-se impaciente, e a princeza D. Amelia pergunta s
flres dos jardins de Belem se ellas sabem o motivo por que o principesinho
no chega. Nem as flres, nem o dr. Ravara, nem o dr. Greneau, nem a snr.
Prvot teem sido capazes de responder a esta pergunta. Passa-se o dia em
interrogaes no Pao de Belem. De vez em quando ha um rebate falso, 
chamada a crte a toda a pressa, os artilheiros correm a postar-se junto s
peas, as damas de honor principiam a desdobrar as alfaias do enxoval, os
sineiros sobem aos campanarios, vai emfim chegar o principesinho, faz-se um
grande silencio respeitoso, olha-se para a porta da rua, a sentinella chama
as armas...

E o principesinho no chega!

.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .

O dr. Ravara encolhe os hombros, a snr. Prvot consulta os guias de
viagem, o dr. Greneau pergunta se no estar sonhando, mas o que  certo 
que a pequenina alteza, sabendo talvez que j vai sendo um pouco amargo ser
principe, parece no ter pressa nenhuma de o ser!

Aposto que sua possivel alteza est talvez dizendo a esta hora:

--Querem-me l para comearem desde logo a discutir-me! Pois vo esperando
por mim. Que o Magalhes Lima v aguando a penna, e o Consiglieri Pedroso
v ensaiando a voz. Eu bem sei que elles no so meus amigos e o meu
corao  to pequenino que no comporta odios contra ninguem. Como no
saberei odial-os, no estou para os aturar por ora. Que vo esperando. Teem
l muito que discutir, encham os jornaes republicanos como pudrem, que eu
no estou para me aborrecer. Se eu fosse filho de um saloio de Alcabideche
ou de um piloto de Cascaes, no teria duvida em chegar depressa. Ninguem
daria pela minha chegada, e eu poderia regaladamente dormir o meu primeiro
somno. Mas como sou filho do herdeiro da cora de Portugal, como eu sei que
tenho de aturar os republicanos e as peas de artilheria, os foguetes e os
jornaes, os repiques de sino e os repiques dos poetas, como eu calculo que
tudo isso deve ser muito massador, vou-me deixando estar onde estou, no
paiz dos possiveis, gozando da regalia que tenho de me fazer esperar, visto
que, depois que eu fr crescido, todos ralharo se me fizer esperar cinco
minutos em qualquer parte...

O dr. Ravara contina a vr-se embaraado com as perguntas que lhe fazem, o
snr. conde de S. Miguel deixa de jantar, a snr. Prvot v-se sriamente
atrapalhada, mas a verdade  que o principesinho no chega porque no tem
vontade nenhuma de chegar.

E o principesinho tem razo.

--Aqui, dir sua pequenina alteza, todos os anjos me tratam por tu e brincam
commigo. Est-se muito bem, e elles proprios me informam de que l em baixo
ha um monstro terrivel, que devora a paciencia, e que se chama a
Pragmatica. Eu tenho medo d'esse monstro, em respeito ao qual todas as
pessoas passaro a tratar-me por alteza, a mim, que sou mais pequenino do
que ellas!

E emquanto sua alteza assim monologava, sem querer chegar, Lisboa,
desesperada por esperar, ia olhando para o Tejo para vr subir as aguas da
grande mar to annunciada.

Mas a mar passou, s no chegou ainda a mar de sua alteza chegar n'um
bercinho de verga doirada, deitado n'uma almofadinha de sda, entre rendas
e flres, sobrescriptado para o Pao de Belem!

Pobre dr. Ravara!

Pobre snr. Prvot!

E pobres pais de familia, porque manh, talvez, j os seus _bebs_ no
acreditaro em desculpas!




<span id="chapX">X

UM REI ENTRE MONTANHEZES

(Outubro de 1887)


A viagem de el-rei D. Luiz I  serra do Gerez foi durante esta semana
objecto de uma copiosa _reportage_, que diluviosamente inundou todos os
jornaes do paiz.

Para as pessoas que apenas teem feito  roda de Lisboa pequenas excurses
de recreio, a viagem da familia real ao Alto Minho foi motivo de tamanha
surpreza, que muitas d'essas pessoas inclinam-se a pensar que no passa
tudo de uma historia fabulosa, similhante s que Julio Verne conta nos
livros interessantissimos, posto que phantasticos, das suas _Viagens
maravilhosas_.

Mas a verdade  que o Alto Minho existe realmente com todos os seus
segredos de ethnographia pittoresca, de uma simplicidade primitiva, quasi
prehistorica, e que a familia real portugueza acaba de passar tres dias
n'essa regio ignorada, defendida da contacto das gentes pela altitude
penhascosa das suas montanhas alpestres, pela torrente espumosa das suas
rapidas cataractas, e pelo accesso difficil das suas quebradas profundas,
dos seus picos ingentes, e dos seus barrocaes pavorosos.

O Gerez no  precisamente uma serra que os snrs. _reporters_ tenham mais
ou menos phantasiosamente recortado sobre os contornos das montanhas
alcantiladas da Escocia ou da Suissa, eriadas de saraes, esmaltadas de
lagos argenteos e povoadas de raas autochtones, que se manteem na
plenitude da sua originalidade rudimentar.

Os snrs. _reporters_ podem ter, e teem decerto, prendas litterarias para
isso e muito mais, mas ao menos d'esta vez teem sido de uma veracidade
immaculada, de que podem dar testemunho as poucas pessoas que, em relao 
populao total do paiz, conhecem a provincia do Minho para alm do rio
Cavado e do seu irmo siamez o rio Homem.

O Gerez no  uma fabula, no senhores,  uma cordilheira que existe to
realmente como a podem vr os povos confinantes do Minho e Traz-os-Montes,
estendendo-se na direco de nordste para suduste e na extenso de sete
leguas, desde Pites at Rio Caldo.

Esta serra notavel, cujo terreno  de uma formao geologica primitiva,
conserva, em harmonia com o seu granito silicioso, uma bella
_mise-en-scne_ por igual primitiva, movimentada por actores montesinhos,
que parecem representar alli o drama sacro de um genesis eterno.

Toda a fauna conserva um cunho de selvageria aborigene, porque os lobos, os
javalis, os veados, as cabras montezas, os bufos, as aguias reaes so ainda
hoje os dominadores incontestados das mattas cerradas e dos invios
labyrinthos alpinos das florestas virgens do Gerez.

Houve tempo em que o urso completou o _elenco_ da _troupe_ animal do Gerez,
mas desde que os pastores pensaram em afugental-o com o claro sinistro das
fogueiras para esse fim accesas durante a noite, o urso, a datar do seculo
XVII, fugiu para no mais voltar.

Toda a serra est povoada de lendas supersticiosas guardadas, de seculo
para seculo, pela inviolabilidade das suas proprias florestas, e pelo
estranho caracter da sua flora e da sua fauna, ainda hoje defendidas pelos
sete sllos de um segredo por igual inviolavel.

Est por acaso estudada a flora do Gerez em todos os arcanos da sua
vegetao luxuriante? No est decerto. Pois o mesmo acontece com relao a
essa outra flora, deixem-me assim dizer, das tradies ou das lendas
locaes, de que apenas se conhece vagamente um ou outro _specimen_.

Sobre o _penedo da Santa_ raros olhos tero visto impressos na rocha os
vestigios que os serranos contam ser os dos joelhos e ps de Santa Eufemia,
que alli vivra vida eremitica, quando andava fugida  perseguio de seu
pai, governador romano da cidade de Braga.

N'um valle de Covide poucas pessoas tero examinado um eito de pedras
lavradas, que l denominam _fileiras_, e que, segundo a tradio local,
foram alli collocadas de proposito para obstar a que os ursos atacassem as
colmas, porque os ursos usavam abraar-se aos cortios, rolal-os at
encontrarem agua e ahi, afogando as abelhas, comer tranquillamente o mel
dos favos.

Por onde se v que  injusto chamar urso a um individuo pouco esperto.

Mas todas estas tradies, de que ha memoria escripta, so em to pequeno
numero, que bem se pde presumir que o _Folk-lore_ da serra do Gerez est
apenas prefaciado por dois ou tres dos nossos chorgraphos.

D'esta quasi absoluta ignorancia em que todos vivemos a respeito da
ethnographia das nossas provincias mais sertanejas e remotas, resulta a
surpreza com que o paiz est lendo as descripes da viagem da familia real
atravs do Alto Minho, e da sua excurso venatoria na serra do Gerez.

Todo o bom lisboeta, mesmo aquelle que por engano costuma dar _excellencia_
ao rei, ficou hilariantemente surprehendido de que um montanhez minhoto
saudasse o snr. D. Luiz dando vivas ao _reverendo snr. rei, que  um bom
homem_.

N'aquellas regies alpestres, onde a pureza dos costumes  ante-diluviana,
ainda o _ser bom_ constitue o supremo elogio de quaesquer homens, incluindo
os reis.

Em Lisboa, na _baixa_ ou na _alta_, tanto monta ser bom como ser mau. Mas
no Gerez a ignorancia de formalismos e pragmaticas  to profunda como a
ignorancia de tudo o mais.

Riram-se poetas alfacinhas de que as camponezas de Lago ensoassem em honra
d'el-rei uma trova de toantes gallaicas, ao sabor dos primeiros monumentos
da litteratura portugueza:

  Vamos, vamos depressa,
  Corramos p'r'a varanda,
  Vr o rei de Portugal,
  Que vai para a caada.

Mas  que os parnasianos de Lisboa esqueceram, para rir, as memorias
historicas do passado e as condies autochtones d'essa especie de bascos
da Lusitania, chamados minhotos.

Lembrassem-se elles do seu Frei Luiz de Souza e da pagina que rememora a
visita de Frei Bartholomeu dos Martyres  serra de Barroso.

Correu a voz, pela serra--diz o classico dominicano--da vinda do arcebispo.
Abalou-se toda; foi o alvoroo e alegria sem medida. Juntavam-se a
recebel-o pelos caminhos com suas danas e folias rudes, que era o extremo
da festa que podiam fazer. E, porque no fossem julgados por menos agrestes
que os seus mattos, nas cantigas, que entoavam entre as voltas e saltos dos
bailes, publicaram logo a quanto chegava o que sabiam do ceu e da f. Um
dizia assim: _Benta seja a santa Trindade, irm de Nossa Senhora_.

Chamar  Santissima Trindade irm de Nossa Senhora no  menor desacerto do
que chamar reverendo ao rei.

Mas tudo isto denunca que entre Frei Bartholomeu dos Martyres e o
arcebispo D. Antonio Honorato o Alto Minho tem continuado a dormir, sobre
as coisas da religio como sobre tudo o mais, e que, surprehendido pelos
foguetes dos ultimos dias, accordou estrenoitado, confundindo a
personificao do primeiro poder do estado com o maior poder que o serrano
minhoto tem conhecido at hoje: o clero.

Porque a verdade  que justias de el-rei no so conhecidas no Alto Minho,
nem l chega a irradiao constitucional do grande foco da administrao
publica chamado governo.

No se lembram do livro de D. Antonio da Costa, intitulado _No Minho_? Pois
elle l descreve a communa de S. Miguel de Entre os Rios, que ao nascente
prende com o Gerez e ao norte com o Suajo.

A freguezia est dividida em cantes, governados por um juiz que os
habitantes elegem d'entre si. O povo entrega ao juiz a _carrapita_ (o
busio), e quando o juiz entende que  preciso reunir assembla geral, para
tomar qualquer deliberao, convoca o povo tocando o busio.

Ento, de todas as casas principiam a sahir os homens vestidos de burel,
com cales, polainas e barrete, as mulheres vestidas de l, colletes
curtos, cabello cortado, leno de linho na cabea, e, assim reunida a
communa, resolve, como outr'ora faziam os lusitanos e como ainda hoje
costumam fazer os bascos, representantes dos primitivos iberos.

Eu digo francamente que, se no existisse o Gerez, teria sido conveniente
invental-o, a fim de que el-rei o podesse visitar; como Potemkin inventou,
para illudir Catharina II, panoramas phantasticos ao longo das desoladas
_steppes_ da Russia.

Fizessem muito embora um Gerez de lona, comtanto que o povoassem com os
bons serranos do Minho, que fallam ao rei com o corao nas mos calosas,
ao contrario dos cortezos de Lisboa, que fallam ao rei com o corao nos
giolhos postos em terra.

Os de l curvam-se ao snr. D. Luiz como se curvavam ao arcebispo D. Frei
Bartholomeu dos Martyres, cheios de sincera reverencia e de humildade
respeitosa. Os de c curvam-se para que as dadivas do rei lhes possam
acertar mais facilmente nas mos abertas. A distancia moral no  menor do
que a que geographicamente existe entre o Gerez e Lisboa.

O rei tem agora visto o que talvez ignorava,--que ha homens bons no Alto
Minho, de uma innocencia paradisiaca, que se governam sem incommodar o
governo, e que cantam las  realeza sem rima, mas tambem sem interesse.

D'isto s no Gerez!




<span id="chapXI">XI

NO HAREM DE MARROCOS

(Outubro de 1867)


A doena do sulto de Marrocos, Muley Hassan, envolve-se n'um veu
romantico, atravs de cuja gaze a imprensa europa tem descoberto uma
intriga de serralho.

O sulto, que, de resto, parece revelar maiores tendencias para cultivar a
monogamia do que o harem, affeioou-se a uma s mulher to absorventemente,
que todas as outras, reduzidas a uma ociosidade desprezivel, ter-se-iam
lembrado talvez de deitar um veneno qualquer na taa de caf do sulto.

Se assim foi, deveria ter havido interessantes e secretos conciliabulos,
que os eunuchos, apesar de toda a sua vigilancia, no lograriam
surprehender.

Estou d'aqui a ouvir uma oradora do harem discursando, cheia de indignao,
s suas companheiras de desgraa.

--Senhoras, diria porventura ella, um sulto que no faz uso do seu harem,
por amor de uma s mulher, pde ser um bom marido, mas  com certeza um
detestavel sulto.

Longos e repetidos apoiados.

--Se Muley Hassan est apaixonado, mande-nos embora, e case. Que fique
fazendo uma vidinha santa com a sua querida mulhersinha e os seus meninos;
que saia a passeio com a madama pelo brao; que v orar  mesquita com ella
e que, inclusivamente, pegue nos pequenos ao collo servindo de ama scca...

Hilaridade geral.

--Mas que seja para ns ama scca, como o poderia ser para os seus meninos,
no se admitte.

Novos e prolongados applausos.

--Porque a verdade, senhoras,  que ns somos de carne e osso como a
favorita, e que o sulto no chega seno para marido...

Uma voz, com sobresalto:

--Silencio!

--O que ?

--Parece-me que vai passando no corredor a ronda dos eunuchos...

A oradora, intrepidamente:

--Deixal-os! No ha nada que eu repute n'este mundo to insignificante como
um eunucho.

Interrupo:

--Ainda ha alguma coisa mais insignificante talvez.

--O que ?

--So dois eunuchos.

Hilaridade.

Uma outra voz:

--Pois eu digo que ainda ha uma coisa peor do que dois eunuchos...

--So tres?

--Nada, no. Vejam l se adivinham...

--Diga, diga!

-- um sulto eunucho.

Hilaridade geral.

No meio d'esta assembla tumultuosa, uma das odaliscas puxa d'um jornal
francez.

--O que  isso? perguntam.

-- o _Temps_, uma folha da republica franceza.

--Mas o que tem isso com o sulto?

--Esperem, senhoras! O general Boulanger foi preso.

--Preso!

--Por ter proferido em Clermont-Ferrand umas palavras que o ministro da
guerra julgou attentatorias da disciplina militar.

Vozes:

--Mal feito!

Outras vozes!

--Bem feito!

A mesma odalisca, com o _Temps_ na mo:

--Segue-se que o ministro da guerra ordenou que o general Boulanger
soffresse trinta dias de deteno.

Uma voz:

--E depois?

--Depois Boulanger submetteu-se.

Outra voz:

--O que eu admiro  a energia do ministro da guerra!

Muitas vozes:

--Pois isso  que !

Uma voz:

--Como se chama o ministro da guerra?

-- o general Ferron.

--Velho?

--Decerto.

--No importa. Ahi est um general que ainda servia para sulto.

A odalisca do _Temps_:

--Ahi mesmo  que eu queria chegar...

Muitas vozes:

--Apoiado! Apoiado!

A discusso entre as mulheres do harem prolongar-se-ia decerto cada vez
mais animada e cortada de repetidos incidentes.

Quando porventura se tratou da especie de droga que se devia lanar na taa
de caf do sulto,  provavel que as opinies se dividissem,--querendo estas
que fosse veneno, querendo aquellas que fosse outra coisa.

Afinal decidiram pelo veneno, allegando talvez alguma odalisca que um
sulto retirado difficilmente readquire os seus antigos habitos, seja qual
fr a droga que se lhe propine.

E emquanto as odaliscas conspiravam,  provavel que a favorita, depois de
ter enfiado na cabea do sulto o barrete de algodo branco, e de lhe haver
conchegado aos sovacos a roupa da cama, principiasse a cantar-lhe qualquer
cano terna que o acalentasse, como por exemplo:

  Dorme, que eu vlo, seductora imagem,
  Grata miragem que no ermo vi!

E o sulto, espirrando:

--Ora esta! Estou constipado!

A favorita:

--No  nada, meu maridinho. Se queres, mando o primeiro ministro  botica
comprar borragens para tomares um suadouro.

--Deixa vr se isto passa.

--Pois sim. Pois sim...

E cantando:

  Dorme, dorme, meu sulto rur,
  Canta Mafoma, e dorme tu.

E o sulto, como um bom chefe de familia, apesar de constipado:

--Os pequenos?

--Deixa l os pequenos, que j esto recolhidos.

-- que, tendo havido hontem um caso de variola no imperio, preciso mandar
vaccinal-os.

--Ento! snr. meu marido! Deixe l isso e durma, quando no ralho muito
comsigo.

E o sulto, espirrando de novo:

--Atchi! Atchi!

A favorita:

--Queres um leno?

--Quero. Tira alli da gaveta. Agora, como j no atiro leno nenhum s
odaliscas, devo ter ahi muitos.

A favorita, fingindo-se zangada:

--No quero que se torne a lembrar de aguas passadas. Pegue l o leno, e
cale-se. Vamos, faa .

E o sulto:

--Pois sim, mulher, pois sim; vou vr se durmo.

Ora, francamente, sendo assim, as odaliscas tiveram razo.

No se  sulto para isto, porque a nobreza obriga, e um sulto, que se
prese de o ser, tem deveres a cumprir.

Ouvissem-me as odaliscas agora, e no me faltariam apoiados.

O rei Milan da Servia  que no pensa precisamente como o sulto de
Marrocos.

Agora mesmo, que parecia estar a ponto de se reconciliar com a rainha
Natalia, uma nova aventura veio de subito carregar de nuvens o ceu
conjugal, que promettia tornar-se azul e sereno.

Esto em Pesth duas cantoras de Caf-Concerto, mesdemoiselles Morgot e
Elisa Roger, duas irms.

Por occasio da sua recente passagem em Pesth, o rei Milan da Servia,
ouvindo elogiar a belleza das duas chanteuses, manifestou desejo de as
vr pessoalmente, e, acompanhado do conde Eugenio Zichy, foi visital-as. Um
jornal de Pesth, sabendo da visita, alludiu ao caso, em breves palavras, no
seu noticiario. O incidente no fizera ruido e estava j esquecido, quando,
tres semanas depois, as duas irms appareceram subitamente na redaco do
jornal e intimaram o redactor indiscreto a dar-lhes explicaes. O redactor
riu-se e gracejou. Resolveram ento intentar um processo,--que sem duvida
ser picante: o rei Milan e o conde Zichy sero citados a comparecer para
testemunhar que a visita que fizeram s galantes e formosas cantoras foi
pura e simples visita de delicadeza.

A rainha Natalia, que  curiosa de mais para deixar de lr gazetas, teve
naturalmente conhecimento do facto, e, agastando-se de novo, oppoz-se 
reconciliao, que parecia estar em bom terreno.

Quando a gente s vezes comea a pensar sobre as coisas do mundo, pasma de
que a Providencia ou o acaso, que to sabiamente regula a maior parte dos
negocios terrenos, tenha de quando em quando desacertos verdadeiramente
inexplicaveis.

Ora digam-me uma coisa:

Com quem devia ter casado a rainha Natalia?

Com o rei da Servia decerto no.

Vamos, adivinhem.

No dizem! Pois digo eu: com o sulto de Marrocos.

E quem deveria ser o sulto de Marrocos?

Agora  facil a resposta.

--Quem deveria ser o sulto de Marrocos era o rei Milan da Servia.

Exactamente.

Porque, sendo assim, nem a rainha Natalia nem as odaliscas do harem tinham
razo para protestar--pelo mesmo motivo.




<span id="chapXII">XII

IDYLLIO DE AMOR


Um rei dos paizes do norte, o soberano da peninsula scandinava, veio a
Lisboa em maio de 1888, hospedando-se no Pao da Ajuda, que domina, do seu
largo ponto de vista, a corrente do Tejo, o bello rio do sul...

Viagem poetica, cheia de encantadoras antitheses por certo, emprehendida
por um rei poeta, em cuja familia ainda ha poucos dias fallou com
insistencia a Europa inteira a proposito do casamento romantico do duque de
Gothland, segundo filho do rei Oscar.

Na familia real da Suecia os principes conservam no s os ideaes
cavalheirescos da Idade-mdia, mas at as alcunhas graciosas dos livros de
cavallaria. Assim, o principe Carlos, terceiro filho do rei Oscar, 
conhecido pela designao de _principe azul_, por usar sempre um uniforme
d'essa cr; e o principe Eugenio, o mais novo dos irmos,  denominado o
_principe vermelho_, em razo dos seus avanados principios liberaes.

Comprehende-se que, dada a influencia do _meio_ geographico, a situao
deliciosa da Suecia haja actuado no espirito do principe Oscar para
contrahir um casamento que no teve como mobil seno o amor.

Paiz de montanhas e de lagos, de cascatas e de rios, de golfos e de
florestas, como que est pondo diante dos nossos olhos a photographia do
amor n'aquellas regies, amor inabalavel como a dureza dos Alpes
scandinavos, umas vezes sereno como um lago, outras vezes torrentuoso como
uma cascata, resistente como as florestas de pinheiros aos vendavaes
gelados, ousado como a onda dos golfos que rasgam, no seu labutar
constante, os contornos da peninsula...

Paiz das auroras boreaes, comprehende-se que o corao dos seus habitantes
seja de algum modo o espelho onde se reflecte o fogo do ceu.

Stockolmo, a capital que a familia real habita, , para que assim o
digamos, a synthese de toda a bella natureza scandinava. Disposta sobre o
lago Moelar, occupa algumas das mil duzentas e sessenta ilhas que mosqueam
toda a ferica superficie do lago.  a Veneza do Norte.

Madame Leonie d'Aunet, a intrepida viajante do Spitzberg, sentiu-se
vivamente impressionada pelo aspecto do palacio dos reis da Suecia, uma
residencia encantadora onde se comprehende que todos os sonhos da
imaginao exaltada possam atear-se.

O palacio dos reis da Suecia, como a cidade, tira da posio em que se
acha situado, entre o mar e o lago, a sua principal belleza. Quadrado, uma
das fachadas do palacio domina uma soberba ponte de pedra lanada sobre o
Moelar. Esta ponte, cujo arco central repousa sobre uma pequena ilha
transformada em delicioso jardim,  de um aspecto encantador. A
architectura do palacio recorda a do Louvre, modificada pelo gosto pesado,
sobrio e frio do seculo XVIII; apenas as propores do conjunto podem ser
gabadas sem reserva; a fachada que olha para o mar, precedida de um jardim,
ornada de um largo balco de pedra,  de um bello effeito, sobretudo vista
de longe.

Ahi, d'esse largo balco de pedra que olha para o mar, diante de um vasto
horisonte sem limites, comprehende-se que os principes romanticos da casa
real da Suecia enviem o seu pensamento alado a emprehender as viagens mais
ousadas e mais audaciosas do amor.

Foi ahi certamente, n'esse largo balco de pedra que olha para o mar sem
limites, que o principe Oscar, duque de Gothland, pensou uma e muitas vezes
na enorme difficuldade da empreza que o seu corao namorado tentra.

Mademoiselle de Munck, filha de um antigo official do exercito sueco, era a
sua bem amada, e o principe pensava exclusivamente no modo de poder
desposal-a, ainda que para isso fosse preciso arremessar ao mar, do alto do
largo balco de pedra, a sua cora de principe, o seu titulo de duque.

Mas o mar ensinava-o a ser forte, embora, para vencer, tivesse de parecer
sereno.

Descendo do seu largo balco de pedra, o principe Oscar passearia decerto
na collina de Mosebakkan, d'onde toda a cidade de Stockolmo se avista a vo
de passaro, e desejaria porventura poder depr aos ps de Ebba Munck toda
essa bella cidade pittoresca como um estranho presente de nupcias.

Se de todo perdesse a esperana de poder realisar o seu sonho de amor, iria
porventura refugiar-se na solido gelada da Noruega, em Hammerfest talvez,
a cidade mais septentrional do mundo, a dois passos do cabo Norte,
habitando uma d'essas casas exoticas, feitas de troncos de arvore, que os
seus habitantes occupam.

Mas todo o aspecto do paiz o enchia de confiana e de estimulo. Os Alpes
scandinavos diziam-lhe que fosse inabalavel como elles; as torrentes que
fosse impetuoso como ellas; as florestas de pinheiros que as imitasse na
firmeza; os golfos que teimasse, a seu exemplo, em vencer os obstaculos.
Tanto mais que o principe Oscar sabia que era amado...

Dissera-lh'o Ebba Munck, a quem elle abrira o seu corao.

Era certo que ella fugira da crte, para evitar o olhar do principe que a
dominava, mas amava-o, era amada, eis tudo.

Dama de honor da princeza real da Suecia, fra outr'ora galanteada,
requestada. Um moo official de cavallaria estivera para desposal-a,
chegra a fazer-se o enxoval, mas o corao de mademoiselle Munck, por um
d'esses presentimentos extraordinarios que se no podem explicar, retirra
 ultima hora o seu consentimento.

No era aquelle o homem que ella devia amar.

Enfastiada da crte, pensando j talvez no principe Oscar, como no
impossivel, quando a obrigaram a voltar a Stockolmo, a sua belleza
reapparecra velada por um veu de dce melancolia.

Foi ento que o principe Oscar fez reparo na belleza de mademoiselle de
Munck,--essa belleza triste das violetas.

Mas as almas namoradas, se avanam um passo para o seu ideal, deliciam-se
em recuar dois passos, como para se atormentarem deliciosamente.

Ebba Munck fugiu da crte, talvez com o proposito de no voltar mais.

Fez-se irm da caridade n'um hospicio de Stockolmo, quiz consagrar a Deus o
seu pensamento, mas o amor do principe foi ahi procural-a para adquirir a
certeza de que era correspondido.

Uma affirmao categorica, tanto mais desafogada quanto parecia
irrealisavel, exaltou a paixo do principe, que desde esse dia no teve
seno um unico pensamento: desposar mademoiselle de Munck.

Adivinham-se facilmente as difficuldades que um tal projecto suscitaria a
principio.

Mas,  fora de insistencia e de pertinacia, os obstaculos foram
abrandando, e o tempo acabou por consummar a sua obra.

Do alto do largo balco de pedra, que olha para o mar sem limites, o
principe Oscar, para desposar mademoiselle de Munck, arremessra atravs do
espao, para o abysmo das aguas, os seus direitos ao throno, os seus
titulos de duque e de alteza real, e a penso annual que lhe era votada
pela Dieta.

N'esse dia ficou sendo o mais feliz dos homens, apenas Bernadotte, um
official da marinha sueca, simplesmente.

Em maro de 1888, celebrava-se o casamento, baseado na declarao
authentica que o principe, mezes antes, havia dirigido a seu pai.

  Segundo a constituio, nenhum principe da casa real pde casar, sem
  consentimento do rei. Como depois d'um exame da minha consciencia me acho
  penetrado do mais ardente amor por mademoiselle Ebba Henrietta Munck,
  filha do fallecido coronel Charles Jacques Munck de Tulkila e da sua
  viuva, _ne_ baroneza Coderstrom, e como estou convencido da sua
  fidelidade ao meu amor, vejo-me obrigado, tanto pelo respeito e dedicao
  filial, como pela obediencia s leis, a pedir humildemente o
  consentimento de vossa magestade, meu augusto pai,  minha unio com
  mademoiselle Munck. Toda a minha felicidade depende d'esse consentimento.

  Por este casamento perco evidentemente, segundo o . 5. da lei da
  successo, para mim e meus descendentes, todo o direito de successo ao
  throno dos Reinos-Unidos. E como, segundo a minha opinio, no conviria 
  minha situao futura aproveitar as altas dignidades que me teem sido
  concedidas na qualidade de principe herdeiro, peo humildemente
  auctorisao para renunciar no s ao titulo de alteza real e de duque de
  Gothland, mas tambem, por mim e meus descendentes, a todos os outros
  privilegios de que tenho gosado, na qualidade de membro da casa real.

  Junto a este humilde pedido o desejo de conservar a minha nacionalidade
  sueca e de gosar, depois do meu casamento, dos direitos civicos, que
  pertencem a todo o subdito. Pela vossa benevola auctorisao, sahirei da
  posio excepcional que constitue, segundo a declarao de vossa
  magestade ao conselho de estado, inserida no protocolo de 6 de maro, a
  razo que dictou o apanagio dos principes, filhos segundos.

  Considero portanto o apanagio de 26:000 coras, que a dieta de 1887 me
  votou, como deixando de existir; renuncio portanto a este apanagio para
  ser restituido  lista civil.

  Peo igualmente, em virtude do artigo 34. da Constituio noruegueza,
  para ser isento de todos os meus deveres de subdito norueguez.

  Stockolmo, 18 de Janeiro de 1888.

  _Oscar._

O rei communicou o pedido do principe Oscar ao conselho de ministros e
accrescentou:

  No attendi ao pedido do meu amado filho, sem madura reflexo. Estando
  assegurada, segundo todas as apparencias, a successo dos Reinos-Unidos,
  no hesitei em no impedir a sua felicidade, concedendo-lhe a
  auctorisao, que me pediu, como seu pai e seu rei.

Ao casamento de Oscar Bernadotte assistira sua mi, a rainha da Suecia,
Sophia de Nassau, o _principe azul_, _o principe vermelho_, a princeza da
Dinamarca e a duqueza de Albany.

N'aquelle dia o _Almanach de Gotha_ perdia um nome, mas a chronica do amor
inscrevia mais uma pagina.

E o mundo inteiro fallou d'esse acontecimento ruidoso, que attrahira todas
as attenes para a crte do rei Oscar, o soberano da Scandinavia, que,
vindo hospedar-se no Pao real da Ajuda, alongou o seu olhar azul de poeta
do norte pela corrente magestosa do Tejo, o bello rio da Europa do sul...




<span id="chapXIII">XIII

NA MORTE DO KRONPRINZ


  Apesar dos desmentidos officiosos, a saude da imperatriz da Austria de
  frma alguma tem melhorado.

  As crises terriveis a que est sujeita inspiram graves inquietaes.

  Segundo o diagnostico j estabelecido, a imperatriz est atacada de
  loucura lucida caracterisada por uma confuso enorme de idas.

  Est constantemente balouando uma almofada e pergunta s pessoas que a
  rodeiam se o novo Kronprinz  bonito. Depois cae em grande prostrao,
  parecendo de tempos a tempos melhorar para propr um novo casamento ao
  imperador.

Ha nas ultimas linhas d'esta noticia o que quer que seja que faz passar
vagamente pelo nosso espirito essa flebil melodia de Meyerbeer, chamada a
_valsa da sombra_, da _Dinorah_.

A bella camponeza de Ploermel, julgando que Hoel a abandonra, perde a
razo e, faltando-lhe a sua cabrinha branca, unica companhia que lhe
restava no mundo, procura-a por entre as moitas floridas at que, suppondo
havel-a encontrado, faz meno de acalental-a nos braos, chorando e
cantando, n'uma loucura ternissima, emquanto o luar cae do ceu n'uma
tristeza saudosa.

Assim a imperatriz da Austria, balouando a almofada em que imagina vr
adormecido o Kronprinz, que uma catastrophe fulminra, parece cantar, no
silencio concentrado d'uma loucura melancolica, a _ombra leggiera_ do filho
querido que no mais voltar.

A valsa de Meyerbeer passa certamente soluando no corao da louca
imperatriz.

De mais a mais ella teve sempre o culto da musica, foi a imperatriz que poz
em moda, tanto em Pesth como em Vienna, a _zither_, a dce guitarra rustica
dos Alpes tyrolezes.

O seu corao conhece, pois, toda a magia d'essa divina arte capaz de fazer
mover as proprias pedras, segundo a tradio mythologica, e porventura esse
balsamo celeste, que se chama a musica, tivera o condo de ungir durante
algumas semanas as feridas da sua alma, como a harpa de David abrandava as
coleras sombrias de Saul.

Mas a loucura em que a razo brilha ainda como um crepusculo explodira
finalmente.

A catastrophe que lhe roubra o filho primogenito apunhalra-a na fibra
mais delicada de seu corao de mi.

Apesar das excentricidades que constituem a lenda da imperatriz, o que 
certo  que ella foi sempre uma extremosa mi.

Quando os seus filhos eram pequeninos, ella propria os acalentava no bero,
cantando, bailando, beijando-os, atirando o fardo da etiqueta para traz dos
moinhos. A imperatriz desapparecia; ficava apenas a mi.

Quando, com dois annos de idade, lhe morreu a segunda filha, abraou-se
n'uma effuso de lagrimas ao pescoo de um grande Terra-Nova, que era o
companheiro dilecto da mallograda creana.

Dinorah no teria sido mais carinhosa com a sua cabrinha branca do que a
imperatriz o foi n'esse momento para com o seu Terra-Nova.

***

E todavia ouvia-se dizer muitas vezes em Vienna que a imperatriz, amazona
infatigavel, pensava mais nos cavallos que montava do que nos filhos que
havia gerado.

Uma calumnia revoltante. Victor Tissot, que esteve em Vienna, e que estudou
escrupulosamente a capital austriaca na crte e na rua, desmente-a
categoricamente.

D'onde veio essa m vontade dos viennenses, tantas vezes manifestada,
contra a imperatriz?

Veio do tempo em que ella, creana de dezeseis annos, tinha, sem o haver
sonhado, cingido a cora da Austria, e _esquissava_ nos seus albuns a
caricatura mordente dos cortezos que detestava.

Um cortezo no perda nunca: vinga-se curvado e sorridente. Foi o cortezo
de Vienna que principiou a fazer a lenda injusta da imperatriz, que, por
sua vez, aborrecendo o mundo palaciano em que a calumnia serpejava por
entre as alcatifas, preferia as florestas s salas, e os cavallos aos
cortezos.

***

E depois a imperatriz fra creada em plena natureza,  beira do lago de
Traun. Como as outras suas quatro irms, que vieram a denominar-se a rainha
de Napoles, a princeza de Tour e Taxis, a condessa de Trani e a duqueza
d'Alenon, vivra at aos dezeseis annos como pastora nas montanhas. Seu
pai era um velho gentil-homem da provincia, que jmais havia pensado em que
as suas cinco filhas, embora formosissimas, podessem vir a respirar n'outra
atmosphera que no fosse a das collinas que circumdavam o lago azul.

Mas Francisco Jos amra sempre a caa como um bom montanhez do Tyrol, cujo
fato vestia nas suas excurses venatorias por montes e valles.

s vezes os quinteiros ouviam a distancia a grita do hallali, e o seu
pensamento no podia ser outro seno o que o nosso velho Castilho soube
exprimir n'uma quadra:

  Voam corceis e sabujos;
  Apupa, apupa, clarim,
  Que esta sina de fragueiros
  No tem descano nem fim.

E as gandaras e os montes tremiam como no rimance da Nazareth; no valiam
os ps ao gamo, nem valia a furia ao javali.

Os caadores passavam como um tufo ardente.

Era o imperador que andava monteando, tal como nas valladas da Idade-mdia
usavam fazer os velhos reis sagrados, de que a imaginao popular se lembra
ainda.

Pois bem! Francisco Jos havia chegado  beira do lago de Traun e, por
descanar das fadigas da caa, sentra-se  porta, de uma casa de campo.
Quatro filhas do velho gentil-homem que alli morava, sahiram a cumprimentar
o imperador, que ficra encantado de encontrar um _bouquet_ de rosas
primaveris perdido entre montanhas,  beira de um lago. Qual d'ellas lhe
parecia mais formosa? No o saberia dizer. De repente surge na clareira do
bosque uma viso encantadora, vestida de branco, e acompanhada de um fiel
molosso. Ento os olhos de Francisco Jos cegaram deslumbrados. Era Izabel,
a quinta filha do velho gentil-homem: a futura imperatriz da Austria.
Alguns dias depois, n'um baile em Ischl, o imperador, que amava doidamente
a valsa, danra durante toda a noite com essa deslumbrante creana de
dezeseis annos, que desde logo passou a ser denominada a _fada da
floresta_.

O corao um pouco selvagem de Izabel revoltou-se naturalmente contra a
doblez da crte. Ella preferia os aromas acres do bosque s lisonjas
perfumadas de cortezanismo. Ave das montanhas, amava o ceu azul, os
alcantis agrestes, os lagos dormentes. Durante os primeiros tempos de
noivado, um cavalleiro e uma amazona galopavam nas planicies, cortando as
florestas, batendo os bosques. Eram o imperador e a imperatriz.

  Tudo ia em redemoinho,
  Homens, corceis e mastins,
  Ladridos, brados, relinchos,
  Fragor d'armas e clarins!

***

Francisco Jos , em toda a extenso da palavra, um homem amavel,--qualidade
indispensavel aos principes.

Tissot decreve-o em dois traos:

  O som da sua voz  cheio d'encanto, como toda a sua pessoa. O seu olhar
  revela a lealdade e a doura que seduzem. A testa  alta e larga, o nariz
  bem proporcionado, os dentes brancos, e o labio inferior menos saliente
  que no typo ordinario dos Habsburgos. Quando monta a cavallo, ha no seu
  aspecto elegancia e magestade; mas  preciso vl-o curvetear no meio de
  uma nuvem de p, ao estrondo das fanfarras,  frente do exercito!

Este homem amavel fez-se amado desde os primeiros annos da mocidade, em que
elle proprio escolhia entre as damas do salo a que preferia para sua
parceira de valsa. Quando o seu uniforme branco ondulava nos circulos
vertiginosos das valsas de Strauss, as mulheres, exaltadas, adoravam o
gentil Habsburgo, de quem costumavam dizer:

--Encanta vl-o valsar!

 medida que se foi evolando n'uma saudade longinqua o perfume da flr de
laranjeira, que engrinaldra a cabea da bella do lago de Traun, o corao
da imperatriz, no seu egoismo montanhez, gotejra sangue.

Acaso o tronco ferido da arvore alpestre no chora, em bagas de resina, o
attentado de que foi victima?

Tenho aqui, entre os meus papeis, um notavel artigo que ha annos appareceu
n'um jornal de Lisboa e foi traduzido por mo desconhecida. Fallando da
imperatriz Izabel, diz:

  Ella passa caracolando no seu cavallo, como a Diana de Vernon, essa
  imperatriz d'Austria, firme e direita no selim do seu baio fogoso, o veu
  azulado enrolado  copa do seu chapeu alto, no reconhecendo outro
  sceptro alm do seu flexivel chicotinho. Toca-se o _hallali_, o animal 
  encurralado na clareira dos bosques, Izabel  a primeira a despedir o
  tiro mortal; galopa com as faces incendidas, as narinas dilatadas e
  frementes, vde-a bem--o vento apagou na corrida o vestigio das lagrimas
  que ainda ha pouco lhe inundavam o rosto; o seu cavallo passou o rio a
  nado, e o seu vestido de amazona-caadora embebeu-se na agua gelada;
  parece-lhe que  sangue do seu corao que vai cahindo, gotta a gotta, no
  caminho, e que poderiam seguil-a atravs d'esse rasto; sabe que os
  latidos das matilhas impacientes, as trompas dos seus caadores, e o
  tropel dos cavalleiros no ensurdecero a sua dr; a imperatriz da
  Austria tem a certeza de que j no  amada!

***

Natureza fogosamente selvagem, a imperatriz da Austria, tendo visto passar
o idyllio de amor que a fra arrancar ao lago de Traun, no pde resistir 
morte desastrosa do filho querido, que era a seus olhos no s a
revivescencia de um passado feliz, mas tambem, certamente, a esperana de
uma gloria futura.

E, similhante  Dinorah da opera de Meyerbeer, balouando nos braos a
almofada que presume ser o bero do Kronprinz, a sua voz solua a dolente
melodia de uma valsa que acaricia ainda a sombra ligeira de tudo o que no
voltar mais.




<span id="chapXIV">XIV

EL-REI D. LUIZ NOS JERONYMOS

(Outubro de 1889)


Edgar Quinet sentiu pulsar na igreja de Belem a alma navegadora do Portugal
manuelino. So profundamente verdadeiras as suas observaoes. De feito,
todos os caracteres da vida do mar alli esto, em Belem. Cabos de pedra que
ligam os pilares uns aos outros; altos mastros de mesena que sustentam as
ogivas, os flores, as abobadas: a igreja  o navio que vai largar para os
ousados descobrimentos. No claustro ha j espalhadas com mo profusa as
primicias dos continentes recentemente descobertos: pendurados nos baixos
relevos, os ccos e os ananazes; os macacos do Ganges trepando baloiados
pelos cabos; os papagaios do Brazil esvoaando festivamente em de redor da
cruz; elephantes de marmore que conduzem em triumpho a urna funeraria do
rei Manuel. Uma igreja maritima, finalmente, com to raro primor descripta
por Quinet, erguida no proprio local d'onde Vasco da Gama partira para ir
descobrir a India.

***

No dia 8 de julho de 1497 ninguem trabalhra em Lisboa, apesar de ser um
sabbado. Toda a gente corrra a vr partir as naus do ancoradouro do
Rastello. Eram quatro os navios que compunham a esquadra: _S. Gabriel_,
nau-almirante, _S. Raphael_, _Berrio_, e uma barca com mantimentos.

Vasco da Gama tinha ido de vespera, com os seus companheiros, fazer vigilia
na ermida de Nossa Senhora de Belem, fundada pelo infante D. Henrique. Ahi
commungou pela mo de alguns freires do convento de Thomar. O vento norte,
que no estio costuma soprar em toda a costa da peninsula, era favoravel 
navegao.

No sabbado, logo pela manh, encheu-se de povo o caes do Rastello. A
multido, vida de sensaes, esperava anciosamente que os navegantes
sahissem da ermida. Finalmente Vasco da Gama e os seus companheiros
assomaram  porta, com cyrios na mo. Seguiam-se-lhe os freires e os
sacerdotes que da cidade tinham ido expressamente para dizer missa. O povo,
em massa, fechava o prestito, respondendo  ladainha que os padres
cantavam.

Havia n'este espectaculo o que quer que fosse de vaga tristeza, alis
justificada. Uma numerosa tripolao ia affrontar os perigos do oceano,
lanar-se nas incertezas de uma navegao aventurosa.

Chegados junto aos bateis Vasco da Gama e os seus companheiros, o vigario
da ermida, com voz solemne, proferiu uma allocuo piedosa, acabando por
lanar a absolvio.

No qual acto, escreve Joo de Barros, foi tanta a lagrima de todos, que
n'este dia tomou aquella praia posse das muitas que n'ella se derramam na
partida das armadas que cada anno vo a estas partes que Vasco da Gama ia
descobrir: de onde com razo lhe podmos chamar praia de lagrimas para os
que vo, e terra de prazer aos que vm. E quando veio ao desfraldar das
velas que os mareantes segundo seu uso deram aquelle alegre principio de
caminho, dizendo boa viagem: todos que estavam promptos na vista d'elles,
com uma piedosa humanidade dobraram estas lagrimas: e comearam de os
encommendar a Deus, e lanar juizos sobre o que cada um sentia d'aquella
partida!

Eram oppostos os juizos e as vozes que commentavam a empreza. Muitas
pessoas se mostravam contrarias a ella. De modo que o _velho da Praia do
Rastello_ representa uma prosopopa historica quando exclama pela bocca de
Cames:

  Oh gloria de mandar! Oh v cobia
  D'esta vaidade, a quem chamamos fama!
  Oh fraudento gosto que se atia
  C'uma aura popular, que honra se chama!
  Que castigo tamanho, e que justia
  Fazes no peito vo, que muito te ama!
  Que mortes, que perigos, que tormentas,
  Que crueldade n'elles experimentas!

***

Mas Deus protegra a audacia dos portuguezes, os mares abriram passagem 
frota de Vasco da Gama, e a India, descerrando de par em par as portas
crystallinas dos seus golphos, desde Cambaya a Bengala, inclinava, rainha
do Oriente, a fulva cabea, radiante de auroras, ao dominio colonial do
nauta do Occidente.

As lagrimas choradas na praia do Rastello, quando a frota levantava ferro,
vieram-nos devolvidas em perolas arrancadas ao oceano Indico no golpho de
Manaar e nas costas de Ceylo.

A melancolia que avassallava os espiritos, na hora em que Vasco da Gama
partiu, transmudra-se, s com passar pelo chrysol da India, no oiro
luminoso de Quiloa, que mestre Gil Vicente ou outro qualquer notavel
artifice do seculo XVI arredondra n'um disco--a famosa custodia dos
Jeronymos--, to bello como o sol, to resplendente como elle.

E depois de terem dobrado duas vezes o Cabo das Tormentas, depois de terem
vencido Adamastor duas vezes, as gals d'el-rei subiam em triumpho a
corrente do Tejo,  volta do Oriente, e toda a alma portugueza vibrava de
alegria e de orgulho na impaciencia dos animos e na avidez dos olhos.

  L vm gals Tejo acima!
  l vm as gals d'el-rei!

***

Por vocao ou educao, por qualquer d'estes dois factos que constituem
toda a orientao do espirito, el-rei D. Luiz fizera-se marinheiro, passra
no oceano os annos desenfadados da vida, impregnra a sua alma d'essa
antiga tradio maritima, que fra o maior floro de gloria da dynastia
d'Aviz.

Infante de Portugal, como D. Henrique, tinha o culto da navegao, a
religio do mar. No convez do _Pedro Nunes_ ou da _Bartholomeu Dias_,
recordaria por noites de luar, ao som das aguas, toda a nossa epopa
maritima, de que esses dois nomes, o do inventor do nonio e o do
descobridor do Cabo, eram como duas estrophes gravadas nos marmores eternos
da Historia. Rei, constrangido a viver em terra como um marinheiro
aposentado, dessedentava saudades contemplando o Tejo do seu miradouro da
Ajuda ou o Atlantico do alto da bateria de Cascaes.

E fra Cascaes, uma pequena villa de marinheiros, Cascaes, a patria do
aventuroso piloto Affonso Sanches, que recebra o extremo alento d'esse bom
rei que tanto vivra profissional e espiritualmente da nossa gloria
maritima. Fra o mar que solura em torno do seu athaude o primeiro
cantico funebre, fra o mar que, marulhando nos muros da cidadella, viera
receber o seu espirito para o restituir a Deus.

***

Antes de entrar definitivamente no sarcophago de S. Vicente de Fra, este
rei marinheiro devia, se podesse resuscitar, querer descanar alguns dias
no templo dos Jeronymos,--esse bello navio de pedra, ancorado na gloriosa
praia do Rastello, d'onde Vasco da Gama partira. Fizeram-lhe a vontade,
adivinharam-lhe os desejos. Deram-lhe, por uma semana, a melhor companhia
que podia lisonjear o seu espirito. Alli jazem, se a nossa f nos no
atraioa, as cinzas do proprio Vasco da Gama, o primeiro almirante do mar
das Indias, e de Luiz de Cames, o Homero de toda a vasta epopa maritima
no seculo aureo de Portugal.

E na sua capella silenciosa e monumental alli jaz Alexandre Herculano, o
ultimo grande historiador das glorias de Portugal, o ultimo varo forte
d'essa extincta raa de chronistas, que principiou em Ferno Lopes e se
continuou em Azurara, Pina, Castanheda, Joo de Barros e Goes.

Para um rei como D. Luiz I, que amou o seu paiz na tradio mais saliente
dos fastos nacionaes, nada poderia completar melhor a sua physionomia
historica de rei marinheiro, do que esta posthuma _tape_ de alguns dias,
na igreja dos Jeronymos, em caminho do pantheon de S. Vicente.

Se o rei podesse acordar por momentos do somno da morte, adormeceria de
novo dcemente, demorando o olhar embevecido nos cabos de pedra que ligam
os pilares uns aos outros, e nos altos mastros de mesena que sustentam as
ogivas, os flores, as abobadas...




<span id="chapXV">XV

RAINHA E VIUVA

(Outubro de 1889)


  S faltava no vosso diadema,
  Que na crte offuscou pompas e galas,
  Uma joia, uma bella e fina gemma,
  Das perolas irm, e das opalas.

  Era a lagrima santa, muda e calma,
  Que encerra em sua esphera crystallina
  Toda a magua que vai minando uma alma...
  A lagrima,--essa perola divina.

  Rainha que choraes, e em regio manto
  Vos sentis mais viuva que princeza,
  Vosso vulto  maior! que o vosso pranto
  Engrandece, na dr, vossa grandeza.


FIM




ERRATAS PRINCIPAES


Pag. 80, onde se l--Francamente, a interpretao que o sr. illustre
escriptor Theophilo Braga, etc.--deve lr-se--Francamente, a interpretao
que o illustre escriptor snr. Theophilo Braga, etc.

Pag. 125, linha 6, onde se l--murabuths--, deve lr-se--marabuths.

Como explanao s ultimas linhas da pag. 131 e s primeiras da pag. 132,
importa accentuar que, embora a CATASTROPHE DE PORTUGAL se refira aos
amores d'el-rei D. Affonso VI com _uma mulher publicamente exposta_ (Pag.
111 e 112), essa mulher s nas MONSTRUOSIDADES DO TEMPO E DA FORTUNA
apparece nomeada pela alcunha de--_Calcanhares_.

Pag. 189, linha 7, onde se l--Et la frouchette de Camus--, deve lr-se--Et la
fourchette de Camus.

Pag. 206, linha 6, onde se l--de Montmoreney--, deve lr-se--de Montmorency.




Notas.

[1] Documento que encontrmos na Torre do Tombo, gaveta 25, mao 1., n.
    47, de fol. 184 a 187.

[2] Existente na Torre do Tombo, cella M, mao 1:104, fol. 381.

[3] Torre do Tombo, cella M, mao 1:163, fol. 495.

[4] Na HISTORIA DO INFANTE D. LUIZ, recentemente publicada pelo snr. Jos
    Ramos Coelho (1889) vem indicadas, de pag. 148 a 150, as razes que
    motivaram a discordia entre D. Luiza de Gusmo e D. Duarte de Bragana.

[5] O cadaver da rainha foi em 1666 transferido da igreja do Grillo para a
    de Corpus Christi; em 1691 foi mudado, dentro d'esta igreja, de um
    lugar para outro; em 1713 trasladaram-no da igreja de Corpus Christi
    para a do Grillo. Duas jornadas e tres mudanas. No principio d'este
    anno (1889) fez a terceira Jornada, do Grillo para S. Vicente.

[6] RECORDAES DE PORTUGAL.

[7] Entre os pittorescos arrabaldes da cidade destaca-se pela sua
    melancolica belleza o sitio de Chapultepec. Na cumiada de uma collina
    de pequena elevao, a cinco ou seis kilometros distante da cidade,
    levantava-se n'outros tempos uma especie de castello. Era o lugar de
    recreio dos reis astecas, e do alto dos muros avistavam a sua grande
    cidade, e todo o valle em que ella assenta. Em torno d'este castello,
    pelas vertentes da collina, e n'uma grande extenso da planura, quasi
    occultava esta pittoresca vivenda uma floresta mui densa de elevados e
    corpulentos cedros (_cupressus distica_), que j n'essa poca
    representavam muitos seculos. O antigo castello desappareceu, e em seu
    lugar se levantou com grande dispendio em 1785 um novo palacio, que tem
    servido de residencia de vero aos vice-reis e presidentes, de escla
    militar e de observatorio astronomico. Estas impresses de viagem
    foram colhidas por um portuguez, o snr. visconde de S. Januario, na sua
    misso diplomatica s republicas da America do Sul (1878-1879).

[8] J depois de escripto este artigo, que foi suggerido pelo livro de
    madame Carette, appareceu no GIL BLAS (de 25 de setembro de 1889) a
    cpia de um relatorio que o general Escobedo dirigiu ao general
    Porphirio Diaz, presidente da republica do Mexico, e que primeiro fra
    estampado no NOVO MUNDO, jornal officioso do governo mexicano em Paris.
    O coronel Lopez, que ficra reduzido a viver do producto de uma casa de
    banhos que estabelecra no Mexico, soffrra durante vinte annos a
    accusao de traidor, que geralmente lhe era feita, e que sua propria
    esposa acreditou, porque, quando elle voltou ao Mexico, depois do
    fuzilamento de Maximiliano, ella esperra-o  janella, com um filho
    pequeno nos braos e, vendo-o chegar, gritra: Tu s um traidor e eu
    no quero que esta creana seja o filho de um traidor. Dizendo isto,
    deixou cahir o filho  rua. Lopez tragra em silencio todas estas
    affrontas e injustias, e s se resolveu a fallar, a pedir um
    testemunho rehabilitador ao general Escobedo, vinte annos depois!
    Escobedo respondeu officialmente com o relatorio, no qual declara que o
    coronel Lopez o procurara a 14 de maio de 1867 para lhe dizer que
    Maximiliano pedia que o deixassem embarcar, devidamente escoltado, no
    porto de Tuxpam ou Vera-Cruz, sob palavra de que jmais voltaria ao
    Mexico. Seria pois para occultar este acto do imperador, que Miguel
    Lopez teria guardado segredo. Lopez abonou a sua declarao com este
    bilhete, que Maximiliano lhe escrevra, e cuja authenticidade o general
    Escobedo reconheceu: Mon cher colonel Lopez. Nous vous recommandons de
    garder un profond silence au sujet de la commission dont nous vous
    avons charg prs du gnral Escobedo, car si ce secret tait divulgu,
    notre honneur serait entach. Votre trs affectionn, _Maximilien_.

    Custa a acreditar que o coronel Lopez atravessasse silencioso vinte
    annos de descredito, mas, se assim foi, o seu nome est rehabilitado. E
    a fraqueza do imperador, na situao desesperada em que se achava
    collocado, no excede os limites da comprehenso humana, posto diminua
    ao perfil historico de Maximiliano o cunho da heroicidade, que o
    engrandecia na desgraa.

[9] Esta hypothese, que aventamos humoristicamente, tomou maior vulto no
    nosso espirito desde que, procedendo a averiguaes, soubemos que s na
    peninsula iberica se diz que _o menino veio de Frana. Hay venido de
    Francia_, diz-se em Hespanha, e esta communidade de locuo explica-se
    satisfatoriamente n'este caso, como em muitos outros modismos, adagios
    e gnomas, pelas relaes frequentes, que sempre houve, entre os dois
    paizes da peninsula. Mas j nos Aores, que communicam menos facilmente
    com Portugal do que a Hespanha, comquanto sejam territorio portuguez,
    se no emprega a mesma locuo. Na Terceira diz-se que _o menino veio
    do Pico_. Mostra isto, talvez, que os Aores no receberam a impresso
    do facto historico occorrido em Lisboa com a mesma insistencia e
    intensidade com que a recebeu a Hespanha, por ser nossa visinha,
    paredes meias.

    As variantes de expresso, que vamos reproduzir, tendem a demonstrar
    que a locuo portugueza proveio de um facto privativo a Portugal.

    Em Frana diz-se que o menino nasceu nas couves, _qu'il est n dans les
    choux_; e at em algumas participaes de nascimento se v representada
    uma creana emergindo d'entre folhas de couve.

    Em Italia a expresso  outra: que a mam comprou um menino:--_che la
    mamm ha comperato un bambino_. Em Inglaterra a locuo tem o mesmo
    sentido que na Italia: _to buy a baby_.

    Na Allemanha ha uma phrase, que corresponde a uma lenda. A phrase 
    esta: _Der Storch bringt die Kinder aus dem Milchbrunnen_. (A cegonha
    traz os meninos do poo de leite). A lenda conta que as creanas jazem
    n'um poo, chamado--das creanas--, o qual  muito fundo. Se os meninos
    querem uma irmsinha ou um irmosinho, pedem  cegonha que os v tirar
    do poo com o seu comprido bico, o que ella faz de noute, mettendo-os
    pela janella da casa, onde as respectivas mams os vo buscar.







End of Project Gutenberg's Historias de Reis e Principes, by Alberto Pimentel

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